terça-feira, 22 de julho de 2014

Um ano do Ciclo de Leituras Dramáticas (450 anos de Willian Shakespeare)



Um ano do Ciclo de Leituras Dramáticas
(450 anos de Willian Shakespeare)

           O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes comemora no dia 26 de julho (sábado) a partir das 19:00h, na Casa da Cultura de Teresina, o 1º Aniversário do Projeto Ciclo de Leituras Dramáticas com vasta programação, que inclui exposição fotográfica dos trabalhos do grupo, lançamento do Suplemento Cultural CIGARRA, 10ª Edição do Ciclo de leituras Dramáticas em homenagem aos 450 anos do Dramaturgo Willian Shakespeare e, encerrando a noite festiva, show musical e coquetel aos convidados.

            O Projeto do Ciclo surgiu segundo o diretor teatral Adriano Abreu: “- Em virtude da ausência de leituras, difusão e apresentação de textos teatrais, considerados essenciais na dramaturgia mundial, brasileira e local, bem como, dificuldades visíveis de parte considerável dos atores, atrizes e diretores do nosso estado no estudo e interpretação desses textos”.  O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes e seus colaboradores realizaram 9 Edições do Projeto durante um ano, contando com poucos apoios e financiando o projeto com recursos próprios. Nessas leituras dramáticas foram beneficiados diversos espaços e homenageados os seguintes autores e textos:

1ª Edição
- Local da Leitura Dramática: Escola Técnica de Teatro Gomes Campos
-Autor Homenageado: Ariano Suassuna
-Texto Apresentado: O Casamento Suspeitoso

2ª Edição
- Local da Leitura Dramática: Projeto Terças Cênicas (Clube dos Diários).
-Autor Homenageado: Eugene Ionesco.
-Texto Apresentado: A Cantora Careca.

3ª Edição
- Local da Leitura Dramática: Universidade Federal do Piauí (PARFOR).
-Autor Homenageado: Aci Campelo.
-Texto Apresentado: Nas Pegadas dos Meu Bumba.

4ª Edição
- Local da Leitura Dramática: Espaço Cultural MOSTRARTE- Zona Rural Norte de Teresina.
-Autora Homenageada: Lu Gateli.
-Texto Apresentado (especial para crianças): A Incrível Viagem da Família Aço.

5ª Edição
- Local da Leitura Dramática: Companhia de Teatro Jovens em Cena (COTEJOC) - Bairro Cidade Jardim.
-Autor Homenageado: Plínio Marcos.
-Texto Apresentado: O Abajur Lilás

6ª Edição
- Local da Leitura Dramática: Espaço da Cidadania – Timon-MA.
-Autor Homenageado: Georg Büchner.
-Texto Apresentado: Woyzeck.

7ª Edição
- Local da Leitura Dramática: Escola Municipal 15 de Outubro
-Autor Homenageado: Gomes Campos.
-Texto Apresentado: O Pescador e o Rio.

8ª Edição
- Local da Leitura Dramática: Projeto Terças Cênicas (Clube dos Diários)
-Autor Homenageado: Zen Sales
-Texto Apresentado: Agridoce

9ª Edição
- Local da Leitura Dramática: 12º Salão do Livro do Piauí - SALIPI
-Autor Homenageado: Augusto dos Anjos
-Texto Apresentado (especial poesia): Récita Augusto dos Anjos

                O diretor Adriano Abreu ressalta ainda: “- Até onde tenho notícia somos o único grupo do Nordeste Brasileiro que desenvolve um projeto de leituras dramáticas permanentemente e, lamentavelmente, sem nenhum apoio institucional. Portanto, manter um projeto dessa envergadura da forma como temos mantido, é motivo de grande comemoração, contudo, aproveitamos a oportunidade para lançarmos o Suplemento Cultural CIGARRA que é uma espécie de tabloide do Coletivo e, também, uma exposição de fotografias denominada “Piauhy Estúdio das Artes: Teatro, Literatura e Educação a Serviço da Vida”.  Para nós é uma felicidade nos encontrarmos nessa festa com todos que gostam de arte para celebrarmos a especialíssima 10ª edição do Ciclo em homenagem aos 450 anos de nascimento do maior dramaturgo de todos os tempos Wiliam Shakespeare”.

                  A parte musical do evento ficará a cargo do renomado cantor e compositor Rubinho Figueiredo. O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes após o grande evento de julho apresentará seus espetáculos “FOGO” e “Exercício Sobre Medeia” no mês de agosto e depois representará o Estado do Piauí no 21º Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga-CE no mês de setembro.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Espetáculo: "FOGO" - Selecionado para o Festival de Teatro de Guaramiranga -CE 2014

A comissão de seleção da Mostra Nordeste do 21ª Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga selecionou, a partir de 60 proposições apresentadas por solistas e coletivos artístico dos 9 estados do Nordeste, os seguintes espetáculos:


sábado, 17 de maio de 2014

Fogo Fátuo - Teatro Consequente por Maneco Nascimento

Impressões do Ator, Radialista e Estudante de Jornalismo Maneco Nascimento sobre o Espetáculo "FOGO", apresentado no Teatro Estação dias 01,02 e 03 de Maio de 2014

Foto: Zé Orlando


O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes realizou nova temporada de um dos seus + novos espetáculos. "Fogo" esteve em temporada nos dias 01, 02 e 03 de maio de 2014, às 20h, no Teatro Estação (Miguel Rosa), antiga estação ferroviária. 

Espetáculo que revisita a memória dos incêndios, em Teresina, na década de 1940, apontados como processo de higienização da cidade, afastamento de casas de palha do perímetro urbano e espelhar belepoquismo e modernização dos centros urbanos e capitais que precisavam acompanhar novos tempos.

O texto original, conto Fogo, registra crônica da cidade em um dos momentos + lamentáveis da história local. Esse mesmo tema também é foco de pesquisas que abrem suspeição sobre a polícia getulista e outros desmandos oficiais.


É romance e poema trágico. Sensibilidade histórica transversal se concretiza em Vítor Gonçalves Neto (Fogo); Fontes Ibiapina (Palha de Arroz); Francisco Alcides do Nascimento (A cidade sob o fogo - modernização e violência policial em Teresina[1937-1945]) e José Afonso de Araújo Lima (A cidade em chamas - poema trágico de um crime impune).

A dramaturgia de Adriano Abreu, adaptador do original para licença dramática, a partir da obra original de Vítor Gonçalves Neto, traz boas surpresas e estética apropriada na compreensão, estudo detido, pesquisa aquecida na boa tradição de teatro e na ruptura que revaloriza a cena local e abre margem a renovação da práxis teatral.

Mantém a porta aberta à chama viva da memória dos incêndios em Teresina e fogo fátuo da paixão ardente pelo teatro consequente.

Entre o mito, os arquétipos e inconsciente coletivo  e um misto de crenças, religião e sincretismo, a narrativa estética de dramaturgia estabelece dialogismo que apodera discurso de (des)crença e fé no Deus que parece abandonar os ofendidos pelo fogo.

A negação da fé é demonstrada no flagelo das imagens de santos protetores (Santo Antonio, São José, São Francisco das Chagas e São Jorge),  ou cambonas entre o céu e a terra dos penitentes.

O contexto se instaura nas vidas ribeirinhas, de razão social no bairro do cajueiro (atual barrocão/centro), e vizinhança do rio que abrigava as gentes simples, moradoras de casas de palha e sobreviventes do mundo de prostituição, miséria, paixões e amores perdidos ao destino determinista das castas inferiores.

O fogo cai sobre vidas simples feito "chuva flamejante" e define destinos feito falha trágica das tragédias originais clássicas e míticas.

Não à toa que o espetáculo começa com ladainha de clamor de proteção à Virgem Nossa Senhora, mãe dos aflitos e Madona das dores,  numa preparação ao que está por vir. Também visita a inquisição, intertextual com a religião medieval de pecha vaticana para caça à bruxa e, + distante ainda, pega referência no mito de Prometeu, aquele divino que, em amor aos mortais, entregou-lhes o fátuo fogo (conhecimento). O mesmo privilégio dos deuses seria, em novos contextos históricos e religiosos, poder de força e domínio de mortais sobre mortais.

História do conhecimento e humanidades confrontadas, no memorial das civilizações e civilidades, cultura de apreensão, povoam o conhecimento do Coletivo e reiteram a dramaturgia de criação e reativação do fogo de Prometeu. A dialética dramática intensifica o calor da ciência da cena e queima mortais na arte de fingir, enquanto repara memórias na mímesis da história.

Érica Smith, David Santos, Vítor Sampaio e Carlos Aguiar completam-se e queimam prazer em encenar arte e vigor cênico acertados. As partituras de intérpretes às personagens têm força de particularidades das construções afiliadas ao conjunto da obra pesquisada.

Corpos com linguísticas intrínsecas, de verdade de cena contundente. Érica Smith, por exemplo, alia economia e dramaticidade durante toda a narrativa e culmina desespero comovente quando sua personagem Lucinha perde a filha para as chamas. Os colegas de cena (David, Vítor e Carlos) protagonizam, cada um a seu tempo, sincronia compensada no fogo artístico.

A luz das lamparinas, candeeiros, velas, candelabros, lampiões, luzes e filamentos alumiam e intensificam assinatura de iluminação, afinada por Pablo Erickson, com requintado efeito de técnica e sensibilidade. A música incidental e sonoplastia, ao vivo, de Arnaldo Pacovan, não só alimentam toda a cena ardente, como abrem trânsito ao transe trágico que se nos pega na força dramática. Silmara Silva, opera os offs que abrem clareira de redenção e clareiam a hora do drama no pontapé de início do jogo teatral eficiente.

"Fogo", do Piauhy Estúdio das Artes, é "Chuva flamejante" que cai sobre a recepção e pontua verdades em mentiras cênicas com arte e cuidado do teatro praticado pelo Coletivo.

http://manekonascimento.blogspot.com.br/2014/05/fogo-fatuo.html

A Nossa Pietà por Maneco Nascimento

Impressões do Ator, Radialista e Estudante de Jornalismo Maneco Nascimento sobre o Espetáculo "FOGO", apresentado no Teatro Estação dias 01,02 e 03 de Maio de 2014

Foto: Silmara Silva

"Uma Pietà (italiano para Piedade) é um tema da arte cristã em que é representada a Virgem Maria com o corpo morto de Jesus nos braços, após a crucificação. Associa-se assim às invocações de Nossa Senhora da Piedade e Nossa Senhora das Dores.

As primeiras pietà surgiram em finais do século XIII na Alemanha, onde é chamada Vesperbild. De sua origem em terras germânicas, o tema expandiu-se para outras regiões da Europa ao longo da Idade Média, expressando-se frequentemente tanto na escultura como na pintura.

Aparentemente, as imagens medievais eram destinadas à contemplação mística dos fiéis, permitindo que o devoto se sentisse presente no momento do abraço sofrido entre Maria e Jesus. Nesse sentido, a pietà era uma imagem de devoção como o crucifixo, e por isso era representada isolada de outros personagens da Paixão de Cristo. É uma variação do tema mais antigo da "Lamentação de Cristo", representações de Maria e Jesus morto acompanhados por José de Arimateia, Nicodemos, Maria Madalena e outros personagens.

A mais famosa pietà é, seguramente, a Pietà do Vaticano, esculpida em mármore por Michelangelo em 1499. Atualmente esta obra está localizada no interior da Basílica de São Pedro, em Roma." (www.wikipedia.com.br/colhida em 05/05.2014, às 15h07).

Ao longo da história da humanidade, refletida na oralidade, fé e religião, contrição de fiéis e comoção coletiva de amor solidarizada na dor e piedade de Maria, Mãe de Jesus descido da cruz, muitos olhares reproduziram em estética e plástica de escultura e tintas refletidas à Pietà.

Dos exemplos, temos Pietà na Capela Real de Granada (Hans Memling 1475); Pietà do Vaticano (Micheangelo 1499); Pietà Florentina (Micheangelo 1557); Pietà (Luis de Morales 1560); Pietà (El Greco 1571); Pietà (Vincent van Gogh); Pietà alemã do século XV (Colônia); Pietà (Vitral da Basílica de Nossa Senhora de Fourvière, perto de Lyon); Pietà (de Manuel de Araújo/Porto-Alegre século XIX) e a Pietà (gesso de Michele Trispisciano em Caltanisseta 1913) e, para aproximações de leituras estéticas, A Deposição (Descida) da Cruz, do belga Rogier Van Der Weyden (1435). (Idem).

Neste século XXI, + uma Pietà entra à Galeria de imagens icônicas das dores e piedade de Maria. O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes cunhou sua assinatura para + uma Pietà às luzes, leitura e estética do Piauí, nordeste brasileiro de dramaturgia local, em Teresina. A imagem flagrante, de sentimento humano, se traduz no espetáculo "Fogo", de direção e adaptação à dramaturgia de palco, construída por Adriano Abreu, a partir do conto homônimo Fogo, de Vítor Gonçalves Neto.

A imagem sacra, de razão cristã, e profana, de razão à mímesis de loas ao deus Baco, foi conquistada durante a temporada do espetáculo "Fogo", realizada no Teatro Estação (Trilhos), nos dias 01, 02 e 03 de maio de 2014, sempre exibido às 20 horas. (Érica Smith e Vítor Sampaio em comovente Pietà, de "Fogo"/foto Silmara Silva). A imagem da Pietà a la adrianoabreuniana fala por si mesma. Comovente! Teatral e plasticamente eficiente à recepção consternada.

http://manekonascimento.blogspot.com.br/2014/05/a-nossa-pieta.html?spref=fb

domingo, 30 de março de 2014

Impressões da Épica Cia. de Criação / Direção: Wander Lima sobre o Espetáculo - "FOGO"



Agora sim:
"FOGO"

Logo depois do Espetáculo "FOGO", nós da Épica Cia de Criação nos reunimos para analisar o que assistimos. Concluímos que esse espetáculo está preenchendo uma lacuna no movimento teatral piauiense. O espetáculo tem muito potencial. Ainda vai crescer muito. O Adriano é detalhista faz bons acabamentos.

A proposta corporal de "FOGO" é limitada até porque nesse momento só o Victor Sampaio tem um bom domínio corporal embora os outros participantes possuam potencial para chegarem rápido no nível corporal do Vitor Sampaio. São todos ótimos atores e atriz. No bom texto a denúncia ficou meio fragmentada. Achamos que foi de propósito. A introdução de músicas cantadas ficou bonita, mas ao nosso juízo deve ser lapidada. No mais um ótimo espetáculo. Estão no caminho certo. Palmas para o Adriano e seus ótimos atores e parabéns ao público que teve acesso a algo tão bom. Vamos continuar degustando o que merece ser degustado. É uma nova fase no teatro piauiense, isso ficou claro de mais para nós. Ficamos felizes em saber que nós pensamos muito parecido na maneira de ver o teatro em nossos espetáculos. Não há mais espaço para aqueles espetáculos apresentados no passado.

Graças a Zeus! Voltar aquilo é um retrocesso. Vamos nos alinhar a esse pensamento e trabalhar! Se possível, dialogar. Essa é a opinião coletiva de: Wanden Lima, Âmara Ribeiro, Bosco Ferreira, Vanice Oliveira, Alisson Mathews, Luana moura, Giordano Bruno, Daniela Dantas, Fernanda Rocha, atores e atrizes que compõem a Épica Cia de Criação. 

domingo, 9 de março de 2014

Teatro que Cura e Teatro que Adoece



Foto: Silmara Silva



"Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda."
(Salmo 91)


          Este ensaio escrevo-o, para mim, e para o grupo que pertenço (Piauhy: Estúdio das Artes). Todavia, creio que pode contribuir de forma humilde com outros artistas e comunidades de pessoas que se dedicam a arte de construir sonhos pelos palcos da vida. Para meu ser, Teatro, tornou-se tão essencial como a fé, o amor, oxigênio e proteínas.  A poética teatral me serve de linimento, sem contra indicações, para os males do nosso tempo. Infelizmente, na proporção exata que existem teatros que curam, existem os que adoecem seus espectadores e construtores.

         O velho Stanislavski, um dos santos seculares do Teatro, bradava pelas salas de ensaios e camarins: “- Não ponham seus pés sujos de lama no teatro”.  Falava porque acreditava que o processo de construção e execução de uma obra de arte teatral era(e é) tão importante quanto seu resultado. Os grandes homens e mulheres das artes cênicas na contemporaneidade já acreditam nessa verdade. Tão precioso quanto o que o público vê é o que atores(izes), diretores(as) e técnicos vivem nos meses, por vezes anos, que antecedem  a apresentação do produto cultural.

        Numa sociedade depressiva, ansiosa, hedonista, profundamente egoísta, como manter os processos de construção de espetáculos a salvo das pragas epidêmicas do nosso meio? Impossível! Os grupos, coletivos e comunidades teatrais não podem ser encarcerados em bolhas de plásticos, imunes ao contágio de um mundo visivelmente doente. Esforço individual e conjunto fazem-se necessário no sentido de combater, ou pelo menos minimizar, os efeitos destrutivos das doenças emocionais e psicossociais que, não raro, atiram no monturo grandes perspectivas artísticas.

      Vaidade desmedida, invejas internas e externas, maledicências estúpidas, estrelismo exacerbado (motivado por busca incontrolável de sucessos efêmeros), agressões gratuitas e fortuitas, são sintomas claros que “a lama” não foi retirada dos pés ao entrarmos no Teatro. Emersom explicita: “- O que você grita tão alto em meus ouvidos que eu não posso ouvir o que você está dizendo”. Muitos coletivos e artistas não se reconhecem enfermos, aí não há solução possível, com o tempo, que tudo revela, os problemas aparecerão graves e irremediáveis, a doença se instalou no processo. Provavelmente, aquele trabalho construído com tanto esforço tende a desagregação.

       Como manter a sinergia nos grupos artísticos? Devemos acreditar  que o Teatro, como instituição milenar, é muito maior e mais importante do que nós individualmente. Nomes e imagens carregadas de caráter personalista devem ser substituídos por nomes e imagens completamente identificados com aquilo que representam, a arte teatral e suas inúmeras vertentes.

       Diretores(ou encenadores) vaidosos geram grupos vaidosos, Diretores preguiçosos produzem grupos preguiçosos, líderes e grupos ingênuos sofrem com grupos obtusos. A lógica não se esvai. Mesmo em grupos onde a criação coletiva é muito presente e a liderança não explicitamente definida, urge um líder que democraticamente, mas sem passar mãos nas cabeças, controle ou expurgue os malefícios ocasionados durante a feitura do trabalho criativo em equipe. Essa figura, geralmente, é representada pelo Diretor. Ele é o referencial na grande maioria das comunidades cênicas. Portanto, apesar de sua importância não ser maior ou menor do que qualquer um dos envolvidos no processo deve ser ele o principal responsável pela saúde dos coletivos de criação.

         Felizmente, mesmo em comunidades cênicas eivadas de pragas teatrais, é possível a criação de espetáculos de cura. Este continua sendo ainda um grande paradoxo e mais um milagre das artes cênicas.

         Por espetáculos de cura compreendo aquele que indo de encontro à subjetividade do espectador consegue construir a possibilidade de reencontro com caminhos existenciais mais frutificadores. Trabalhos que fazem com que seu público (re)pense seus destinos ou, simplesmente, o faça sentir-se parte integrante da grande irmandade dos seres humanos, são espetáculos curativos.

        Produtos culturais doentios no Teatro são facilmente identificáveis. O espectador defende-se, parte de uma posição de neutralidade para o escárnio barato ou vulgar com os que encenam a peça (Deus meu, quantas vezes me surpreendo chamando o trabalho dos colegas de porcaria, quanta falta de visão). Após apresentação de um espetáculo que adoece, a assistência traz na alma germes da desesperança, futilidade e até uma certa dose de perversidade.

        Homens e mulheres de Teatro não há possibilidade real de amarmos coisas elevadas na nossa arte e ao mesmo tempo fazer concessões a estultices(assim na arte como na vida. Tudo é vida). Porém, é sempre bom lembrar que todos têm o direito de serem ouvidos, isso é ser profunda e belamente humano. Nossa arte deve (re)transformar-se em elemento de cura social e individual como foi na sua gênese.

        Deixemos o Teatro que adoece, no processo e no produto, para os profundamente nugazes ou para os que por opção ou ignorância preferem as sombras da arte. Busquemos a cura.



Adriano Abreu
Final da estação das águas.

   

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Espectador e a Construção da Obra de Arte

Foto: Silmara Silva

        Se o trabalho do ator(iz) é a minha bússola o espectador me serve como farol. Quando o encenador escolhe os "materiais" que utilizará no processo criativo não deve perder de vista a quem se destina o seu produto cultural. Aparentemente essa afirmação pode parecer óbvia, mas o encenador, técnicos e fundamentalmente atores(izes) estão imersos na feitura da obra, não raro, se esquecem que são apenas ferramentas, matéria prima e manufatura do espetáculo. A platéia é que fará com que o trabalho permaneça no espaço e, às vezes, no tempo.
        Os coletivos artísticos podem concretizar construções que ampliem o universo cultural, cognitivo, valorativo e espiritual do seu público, elevando as perspectivas da vida dessas pessoas lhes proporcionando, além de entretenimento, emoção estética e, por vezes, se a obra for autêntica, até momentos de fruição da alma. Porém, podemos realizar trabalhos que não contribuam com a evolução cultural do espectador e, muitas vezes, até chegam a estagná-la.  
        A escolha da matéria prima é importantíssima na fabricação da obra de arte. Impossível conseguir a cor grená se decido trabalhar com um lápis grafite. É muito improvável manter meu terno branco limpo em um chiqueiro de porcos. Como criar uma impressão de suavidade se o que manipulo é grosseiro?
       Após a escolha dos ingredientes faz-se, o alimento. A minha experiência convenceu-me, que se conhecermos o "sabor das substâncias" que escolhemos para a feitura do trabalho artístico, fica mais simples a sua manipulação. Denominamos esse processo de pesquisa. Essa fase, essencialmente coletiva no trabalho teatral, deve ser feita em processo de laboratório (com todo cuidado e rigor que o termo sugere), na contemporaneidade essa prática não é só salutar é indispensável.
      Existe uma máxima que diz: “Dois tipos de espetáculos são imprestáveis: aqueles onde entendemos tudo e aqueles onde não entendemos nada”. A busca de equilíbrio entre os diversos aspectos que compõe a encenação devem definir aquilo que desejamos (re)passar. Duas coisas o espectador abomina: Uma é ser considerado um tolo e a outra é sentir-se tolo. Simultaneamente o espetáculo (isso vale para qualquer gênero artístico) deve oferecer a sua assistência o "enigma do mar revolto" e referenciais seguros no horizonte da obra.  Se o espectador é meu farol o meu trabalho cênico é navio para ele.
       Nessa maneira de pensar arte, ousadia e humildade, andam juntas em relação amorosa. Os frutos dessa ação dialógica, entre artistas e público, será o fortalecimento de um elã metafísico. Pois se existem verdades na arte (e existem por mais que tentem negar os filhos do relativismo) revelam-se, translucidamente na presença dos que a apreciam. Quem ignora esse princípio, por irredutibilidade conceitual ou por simples ignorância, age às cegas. A platéia é um fato concreto mesmo tendo seu gosto adulterado por séculos de dominação de uma arte inautêntica, sempre reagiu à autenticidade. Espectadores têm fome como filhos órfãos que esperam pacientemente adoção mesmo temporária, licenciosa ou fluida. Afinal, a platéia nunca foi escrava de ninguém quem pensa ao contrário está fadado ao fracasso. Cabe aos artistas, no tempo da vivência, alimentá-los, educá-los procurando nunca ser tiranizados por seu público (se isso acontece é o fim do artista e da arte) e, com muito cuidado, amá-los.  

Adriano Abreu
Diretor do Piauhy Estúdio das Artes