segunda-feira, 3 de julho de 2017

Dança Para Uma Atriz



Dança Para Uma Atriz


“..., mas as casas não são importantes.  
As histórias que habitamos é que importam. ”
  Carta de Eugenio Barba a Jerzy Grotowski em 1°de junho de 1991


                  Pois não quero falar da atriz, tão pouco de teatro, os quereres são inúteis por vezes, gostaria de contar fragmentos do visto e vivido. Todavia, não se enganem, não é um escrito sobre palavras, as palavras perdem o sentido quando vislumbramos o mar abaixo de nós, um céu com poucas nuvens e pequenas porções de terra no meio do Oceano Atlântico.
                  Quero assobiar a cantiga para a atriz que dança, não como um ballet convencional, mas como um veleiro recortando as ondas do tempo iônico, ou uma andorinha costurando os hemisférios. O barco e as aves cheios das lutas do mundo. Assobio a canção!
                   Recolho nas prateleiras do Teatro em Estado de Magia, ações repletas da sua persona, pequenas notas dissonantes, vibrações na história onde moras, ingredientes nas porções de cura e veneno, forjando uma coreografia, dessa forma, percorro tempos e espaços onde estivemos.
                   A praça era pouco iluminada e a apresentação prejudicada pelo estupor da falta de ritmo, a plateia pouco exigente, deleitava-se com o seu peixinho, não vi nada capaz de cegar minha vaidade, sou um diretor de teatro, diretores podem ser comandados pela violência do pedantismo, ou pela paz do reconhecimento da exiguidade de todos nós, naquele instante, meu pedantismo venceu. Uma casa teatral pode ser construída com muitos tipos de tijolos, porém, só ficará de pé, se for cimentada com alguma pericia, era isso que senti falta em ti, pericia. Num determinado momento, o seu sorriso ofegante na pele de uma Nossa Senhora, bela e sofrida, na última cena do auto, mostrou-me os passos da atriz que já dançava, os tijolos precisavam do cimento.
                Ser clown era sua primordial meta. Clowns são criaturas humanas que fazem opção por habitarem em universos paralelos dessa realidade estúpida, um verdadeiro palhaço assume uma condição análoga a própria existência, era esse teu desejo, creio que seja essa sua verdadeira essência e, como sempre, foste a primeira palhaça a assumir essa condição no estado mais pobre da nação, contudo, sua inquietação é maior que qualquer cárcere, convenceu-se então: “Quero ser Medéia! ”




                As escadas eram escuras, frias e fantasmas de atrizes imemoriais circulavam por elas diuturnamente, mulheres que um dia bailaram.  Foi difícil para você escalar aquelas escadas, era sexta-feira e a sua fotografia acordou estampada em um dos mais importantes jornais do país, todavia, a estreia no dia anterior tinha sido abocanhada pela tensão, que se não controlada, engole a arte e o artífice. Esse monstro irá persegui-la por muitas eras, no entanto, naquele dia, subiste muito mais que escadas, os fantasmas urdiram a apresentação em colaboração amorosa, os técnicos do teatro sorriram satisfeitos, a plateia dançou junto e, seu espirito caminhou, de mãos dadas com grandes atrizes pela Avenida Rio Branco, sem se importar com o horror dependurado nas janelas dos edifícios, a tragédia e a comédia, guardiões no telhado do Municipal, nos causaram vertigens, depois foste embora de metrô, sem festas, autógrafos ou rosas vermelhas.
               Asas de borboletas, fustigamento, beber lágrimas, luzes azuis rompendo as costas, joelhos esfolados, uma infinidade de nãos, evitar despedaçar objetos ou chutar portas, a ira machuca o amor, ler cenicamente ou não, aceitar a limitação do outro e, suas próprias limitações, sem se macular, prazer, proteção, pavor e busca da liberdade. Qualquer um que vive como quem dança, descobre o divino na arte, reconhece a necessidade de rituais, a incorporação de sacrifícios no seu processo formativo, a complexidade do treinamento da atriz, de qualquer atriz, extrapola a sala de ensaios ou os palcos, na verdade atuadores não estudam para representar, vivem para aprenderem quem são, alguns, em raros momentos, fazem Deus falar pelas suas bocas e corpos, tornando-se santos seculares, outros, iludidos pelos esgotos de uma arte que prega a miséria, viram excrementos teatrais e humanos. A sua formação minha peregrina atriz, sempre será, revelação.

                A atriz é Lume na noite, ou um ser alado a dourar o dia com seus raios. O Farol observa a boneca que oferece luz curando. O povo simples da periferia da cidade, confessa pecados ao Anjo Barroco, o sofrimento do mundo não passa desapercebido nos que contemplam em silencio. Imobilidade em movimento, ensinam os mestres que é a mais poderosa e humilde das danças.




               Quando o ser possui uma oportunidade de mostrar qual sua profunda verdade, dimensionar para o mundo sua real potência, deve procurar não falhar, se falhar não deve sofrer e se sofrer não morrer, haverá sempre uma próxima vez, nas serras ou nas ilhas distantes, a mulher-atriz deve continuar a respirar para sempre, as vezes o peso da responsabilidade torna o sonho difícil, a vaidade dorme na mesma cama do medo da reprovação, quem assume a dança-vida-na-arte, tem obrigação, necessita acima de tudo, possuir coragem e equidade.
              Outra vez foste pioneira, agora na Hora do Ângelus, quando as janelas centenárias se abriram pela primeira vez, para que um artista exercesse um ato cênico desse local, uma atriz do povo, você, nascida e criada no morro, filha de empregada doméstica, versejava Drummond para os transeuntes da Praça do Imperador, foi contemplada pelos moradores de rua e pela alta intelligentsia da província, que ao escuta-la, não conseguiu se livrar do nó na garganta.
            Este escrito é um reconhecimento ao seu valor, mas também, bussola e freio às atrizes que aportam nessa dança-da-vida-teatro, pois se a morte nos abraçar e nos afastarmos dessa convivência, por qualquer motivo alheio as poéticas, o primeiro movimento desse solo já estará construído.
            Como se modela uma serva e rainha da arte? As fórmulas são inexistentes, contudo, os princípios as guiarão. Existe um humilde legado as jovens atrizes da nossa tribo, compartilho conforme você me mostrou: sejam capazes de influenciarem e reinventarem o carnaval, construam pontes e atravessem pântanos de desequilíbrio e sofrimento, não sejam sepultadas em vida pela pobreza, condição familiar, pelos homens, saibam com quantas fortalezas a palavra opção é construída e amem o teatro como a vida deverá ama-las. A suas aulas, lições de carinho e pânico, sua história-dança começa a virar caminho.
           Na capela da antiga fazenda de escravos você chorou tranquila e dolorosamente, insondável aquele momento, os mistérios precisam permanecer, assim como esse pas de deux que construí para nós, como se constrói um poema? E uma oração? Movimento! 

Para atriz Silmara Silva
Adriano Abreu, Diretor do Coletivo Piauhy estúdio das Artes
Teresina, 2017

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O “De Última Pocket Show” é Uma Festa!



O “De Última Pocket Show” é Uma Festa!

“Estou convencido que o ator no palco deve
se esforçar na busca da felicidade e do prazer.”
Jurij Alschitz

          Aqueles que assistiram, e até quem ainda não viu, têm falado muitas coisas sobre o nosso Projeto: “Músicas de Primeira Para Interpretes De Última”, para os iniciados, como costumamos brincar, e se popularizou, “De Última Pocket Show”. Algumas dessas pessoas nos perguntam quais os objetivos dessa iniciativa, se vamos continuar e até sugerem repertório, muitos vibram e curtem muito o “ nosso Pocket”, outros, ficam entre o estranhamento e até a indignação (risos).
         O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, ainda bem, provoca, muitas vezes sem querer, esse frisson na cena cultural piauiense, isso é maravilhoso, nesse cenário artístico local que sobrevive em meio a tanta indiferença.
          Apesar de considerarmos que esse novo e, se o cosmos permitir, permanente produto artístico falar por si, cabe esclarecermos alguns equívocos disseminados por um ou outro desavisado sobre nosso humilde projeto:
1º O “De Última Pocket Show” é um espetáculo, porém, não é um espetáculo de teatro na exata acepção do termo, apesar, de utilizar elementos cênicos.
2º O “De Última Pocket Show” não é uma banda, mas é acompanhado por uma magnífica banda composta de excelentes músicos.
3º O “De Última Pocket Show” não é um musical, apesar de possuir uma temática e uma lógica na escolha das canções, obviamente, referente ao tema escolhido. Na "Edição Número Um", apresentada diversas vezes em Teresina e no interior do Estado, o tema escolhido foi: “O Banquete do Nascimento de Eros e Afrodite”.
4º O “De Última Pocket Show” não defende um determinado estilo ou ritmo musical predominante, o nosso espetáculo é completamente diverso, democrático e jamais preconceituoso. Aliás, aceitamos sugestões de canções, nossa próxima edição será um espetáculo performativo-musical-carnavalesco: “De Última Pocket Show 1000 Volts inaugurando o Bloco Filhos de Baco) ”. Esta edição acontecerá dia 27/02/2017, segunda-feira de carnaval, no Complexo Teatro 4 de Setembro, Praça Pedro II.  
4º Os interpretes do “De Última” são atores e atrizes, não cantores profissionais, nem intencionam ser, interpretam as canções, como atuantes que são. Portanto, as performances dos cantantes e cantrizes são a alma do negócio.
5º O único e exclusivo objetivo desse “acontecimento cênico musical” é que os “brincantes” presentes ao evento, divirtam-se, porque na verdade, eles também são interpretes De Última, então é essencial para nós que a plateia cante, dance e, de preferência, dê vexame.
          Resumindo, o “De Última Pocket Show” é a forma que encontramos de celebrarmos a música, dança e o teatro. Trocando em miúdos este nosso trabalho é uma grande e dionisíaca FESTA. Compreendemos que nesses tempos de batalhas colossais, necessitamos, mais que tudo, de antídotos recheados da mais pura e cristalina alegria.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
e interprete De Última

Dedico este escrito para Bety, Tercia, Rubens, Andréia, Alexandre, Vitorino, Marks, Tay, Galvão e Hil, Roberth, Marlane, Jack, Fabio, Igor, Dona Wania, Marcelo, João, Lourdes e a todos os legítimos interpretes De Última da Nação Piauhy...


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CONSTRUÇÃO (2016)

Foto: Adriano Abreu

CONSTRUÇÃO
(2016)
          Quantos caminhos um coletivo artístico pode trilhar? Quantas palavras, ações, silêncios e visões são necessárias para que ele perdure, produza, viva?
           Os refletores sobem e descem escadas, carregados por desconhecidos que se tornarão seus fiéis parceiros até o final do dia. As filas ora minúsculas, ora intermináveis nas portas das casas de espetáculos. As conversas nos bares, nas praças, no meio do mundo. Hotéis, casas transitórias e seus “mistérios”. O horário da comida, a comida, as fotografias, as vans lotadas e vazias, os bilhetes de passagens e as passagens não permitidas. Dinheiro e a falta dele. Concordâncias e os infinitos pormenores. A concretude do frágil, do efêmero, dos destinos cruzados.
            Todos os contatos construídos com olhares, abraços, mãos que se apertam. Considerações daquilo que foi afável, do grosseiro (elegâncias e desinteligências).
             A magia, a depressão, o medo e a coragem inaudita, a dor e a cura.
            Grupos, movimentos e espetáculos, alguns obtusos, muitos engajados e outros geniais.
             O pendulo eterno ensaio-erro-ensaio...
             A multidão de coisas visíveis e invisíveis também, constituem, a matéria e superfície onde se constroem uma organização teatral.
             Depois de alguns festivais internacionais (inclusive um fora do Brasil), muitas mostras e festivais locais e nacionais, 23 Edições do Ciclo de Leituras Dramáticas, coordenar a 5ª Edição do Núcleo de Laboratório Teatrais do Nordeste (idealizado pelo Oco Teatro Laboratório de Salvador-BA em parceria com o Festival de Teatro Lusófono do Grupo Harem de Teatro), um número considerável de exibições públicas dos nossos trabalhos (FOGO, Exercício Sobre Medeia e De Última Pocket Show), centenas de e-mails e todo tipo de mensagens, dezenas de artigos, comentários, debates, interlocuções, oficinas, entrevistas (sei lá quantas), incontáveis páginas lidas, ter visto um tempo incalculável de horas de espetáculos de todos os matizes, participado de intermináveis discussões dentro e fora do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, sempre convivendo com afagos, despedidas e pedidos de perdão que eu fiz e que me fizeram, nessa faina utópica, portanto digna e profética, de reinventar o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, dessa forma, reinventando minha persona todos os dias a partir do amor e da luta dos meus irmão de caminho, agarrado a tudo isso e as minhas próprias asas. Chego a inexorável conclusão:
Estamos apenas começando!
Adriano Abreu em 30/12/2016

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Por Que Fizemos? (Ensaio Minimalista Sobre a 5ª Edição do NORTEA – Núcleo de Laboratório Teatrais do Nordeste no FESTLUSO)

Foto: Margareth Leite

Por Que Fizemos?
(Ensaio Minimalista Sobre a  Edição do NORTEA – Núcleo de Laboratório Teatrais do Nordeste no FESTLUSO)
                                                                                                                                                                                                                                               “ postulado”
                                                                                                                                                          “fazer poemas é fácil
como amordaçar um lobo”
Paulo Machado

                                                                                                                                                                                     “parodiando postulado”
                                                                                                                                     “fazer teatro é fácil
retire a mordaça de um lobo”
Adriano Abreu


Fizemos porque há muito tempo a voz estava presa na garganta e, nossa boca, talvez por inabilidade ou imediatismo, estava exausta de falar.
Fizemos porque precisávamos ouvir algo muito parecido com a nossa voz. Aquele som rouco, quase imperceptível, vindo de um lugar qualquer dessa imensa nação usurpada.
Fizemos porque ansiávamos ver algo plasmado no corpo dos nossos irmãos, algo que vai muito além do teatro mas que faz parte dele, encarar face a face a cruel realidade da possível extinção do sonho do pão, do linho, do livro, da cena.
Nessa hora o impossível é não ser minimamente trágico.
Fizemos porque sentimos, por muito tempo, o odor do diletantismo que na maioria das vezes impregna os ares desse teatro do Piauí. Portanto, para que tudo faça sentido, devemos acreditar, como falava algum mestre: “O Teatro não é lugar para diletantes”.
O carinho e respeito que trago por vocês, meus irmãos da cena Piauiense, é equivalente a minha responsabilidade com o teatro, essa relação, muitas vezes conflitante, fez com que eu me esquecesse por um instante meu orgulho, medo, egoísmo e vaidade. Dessa forma procurei administrar minhas parcas forças e mínimas possibilidades na tentativa de realizarmos, de preferência juntos, uma ampla reforma na nossa casa teatral, e a (re)construção já está em curso.
Fizemos o 5º NORTEA dentro da Programação do FESTLUSO porque nossa pele, muito além dos inúmeros abraços que trocamos, necessitava roçar em outras experiências, dramaturgias, formatos e sensações. Precisávamos entender que a crítica pode ser uma forte aliada, nos retirando da zona de conforto, que ao invés de aquecer, nos atira no frio abismo da mediocridade.
Esse espaço-tempo onde habitamos fica livre para discordâncias, parcerias, olhares, quaisquer manifestações, exceto omissões; essa demência destruidora.
Antes do fim, é essencial que se reconheça a absoluta disponibilidade e abnegação ao Teatro de Expressão Nordestina, Brasileira, Lusófona e Mundial de algumas pessoas: Luís Alberto Alonso, Airton Martins, Francisco Pellé, Silmara Silva, Marcelo Flecha, Fernando Yamamoto, Pedro Vilela, Maneco Nascimento, Eraldo Maia, Rafael Magalhães, Antônio Marcelo, Aci Campelo, Chiquinho Pereira, Dionizio do Apodi, Josy Brito, Kil Abreu, conjunto dos diretores lusófonos e todos os membros de grupos, organizações, pesquisadores e equipe técnica do FESTLUSO.
Finalizando um frutífero começo: fizemos o 5º NORTEA no FESTLUSO, porque é fundamental e urgente (re)inventar o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense.  Nosso terrível ou venturoso futuro depende disso e de outras infinitas possibilidades.
Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
30 de agosto de 2016


Por Que Fizemos? (Ensaio Minimalista Sobre a 5ª Edição do NORTEA – Núcleo de Laboratório Teatrais do Nordeste no FESTLUSO)



Por Que Fizemos?
(Ensaio Minimalista Sobre a  Edição do NORTEA – Núcleo de Laboratório Teatrais do Nordeste no FESTLUSO)
                                                                                                                                                                                                                                               “ postulado”
                                                                                                                                                                                       
 “fazer poemas é fácil
como amordaçar um lobo”
Paulo Machado

                                                                                                                                                                                     “parodiando postulado”
                                                                                                                                     
“fazer teatro é fácil
retire a mordaça de um lobo”
Adriano Abreu


Fizemos porque há muito tempo a voz estava presa na garganta e, nossa boca, talvez por inabilidade ou imediatismo, estava exausta de falar.
Fizemos porque precisávamos ouvir algo muito parecido com a nossa voz. Aquele som rouco, quase imperceptível, vindo de um lugar qualquer dessa imensa nação usurpada.
Fizemos porque ansiávamos ver algo plasmado no corpo dos nossos irmãos, algo que vai muito além do teatro mas que faz parte dele, encarar face a face a cruel realidade da possível extinção do sonho do pão, do linho, do livro, da cena.
Nessa hora o impossível é não ser minimamente trágico.
Fizemos porque sentimos, por muito tempo, o odor do diletantismo que na maioria das vezes impregna os ares desse teatro do Piauí. Portanto, para que tudo faça sentido, devemos acreditar, como falava algum mestre: “O Teatro não é lugar para diletantes”.
O carinho e respeito que trago por vocês, meus irmãos da cena Piauiense, é equivalente a minha responsabilidade com o teatro, essa relação, muitas vezes conflitante, fez com que eu me esquecesse por um instante meu orgulho, medo, egoísmo e vaidade. Dessa forma procurei administrar minhas parcas forças e mínimas possibilidades na tentativa de realizarmos, de preferência juntos, uma ampla reforma na nossa casa teatral, e a (re)construção já está em curso.
Fizemos o 5º NORTEA dentro da Programação do FESTLUSO porque nossa pele, muito além dos inúmeros abraços que trocamos, necessitava roçar em outras experiências, dramaturgias, formatos e sensações. Precisávamos entender que a crítica pode ser uma forte aliada, nos retirando da zona de conforto, que ao invés de aquecer, nos atira no frio abismo da mediocridade.
Esse espaço-tempo onde habitamos fica livre para discordâncias, parcerias, olhares, quaisquer manifestações, exceto omissões; essa demência destruidora.
Antes do fim, é essencial que se reconheça a absoluta disponibilidade e abnegação ao Teatro de Expressão Nordestina, Brasileira, Lusófona e Mundial de algumas pessoas: Luís Alberto Alonso, Airton Martins, Francisco Pellé, Silmara Silva, Marcelo Flecha, Fernando Yamamoto, Pedro Vilela, Maneco Nascimento, Eraldo Maia, Rafael Magalhães, Antônio Marcelo, Aci Campelo, Chiquinho Pereira, Dionizio do Apodi, Josy Brito, Kil Abreu, conjunto dos diretores lusófonos e todos os membros de grupos, organizações, pesquisadores e equipe técnica do FESTLUSO.
Finalizando um frutífero começo: fizemos o 5º NORTEA no FESTLUSO, porque é fundamental e urgente (re)inventar o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense.  Nosso terrível ou venturoso futuro depende disso e de outras infinitas possibilidades.
Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
30 de agosto de 2016


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Sobre Amigos, Arruaceiros, Medo e Chibatadas



Sobre Amigos, Arruaceiros, Medo e Chibatadas      
        
               “Meu trabalho não tem importância, nem a arquitetura tem importância pra mim.
                                                                                                                         Para mim o importante é a vida, a gente se abraçar, conhecer as pessoas,
                                                                                  haver solidariedade, pensar num mundo melhor, o resto é conversa fiada.”
Oscar Niemeyer

Sou amigo dos gays, trans e lésbicas que se assumem.
Os que não se libertaram ainda chutem as portas dos armários.
Não tenham medo de chibatadas.

Sou amigo dos que fumam maconha e apregoam revoluções.
Os que se enfurnam na escuridão, alegando ser este o motivo, esqueçam, em tudo há muita luz.
Não tenham medo de chibatadas.

Sou amigo dos negros, brancos, índios e pardos que caíram na brava luta.
Os que ainda residem nas senzalas da submissão, fujam pras quebradas.
Não tenham medo de chibatadas.

Sou amigo dos cristãos, dos ateus, dos budistas, dos islâmicos, dos magos e bruxas, dos caboclos e pombas giras e de todos os orixás, dos estoicos, mas também, dos epicuristas, estou junto dos promotores da paz do mundo.
Os que pregam o ódio e a destruição, acordem enquanto há tempo.
Não tenham medo das chibatadas.

Sou amigo dos artistas, doutores, ativistas, loucos, operários e camponeses.
Os que ainda temem a vida, venham, sejam bem-vindos, conheçam o sabor da amizade.
Não tenham medo dessas chibatadas, elas são, apenas, defesas daqueles que ignoram a vida que pulsa esparramada nas trincheiras da terra.

Do que mesmo que estávamos falando meu amigo?
Não, eu não tenho medo de chibatadas sou um arruaceiro, como estes, que teimam em pixar o mundo de verdades.
Sei que os artistas e os cães são os melhores amigos dos homens e mulheres...
Texto dedicado aos que veem a arquitetura
como a pluralidade de formas e expressões do mundo.
Adriano Abreu (Diretor de Teatro)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Recados aos Jovens Atores e Atrizes


Recados aos Jovens Atores e Atrizes


            Estão ingressando na carreira teatral? Gostaria de lembrar-lhes que, felizmente, o tempo nessa arte é medido por dedicação e compromisso, dessa forma 20, 30 ou 50 anos podem significar muitas coisas, inclusive nada. O fato é que vocês ingressaram em uma instituição que existe a cerca de 5000 anos e que, certamente, prescinde de qualquer um de nós para funcionar plenamente, ou seja, nós somos absolutamente dispensáveis. Portanto, avaliem com muita racionalidade suas motivações, se elas forem realmente nobres, continuem a fazer teatro, caso contrário, o abandonem sem olhar para trás.

            Desconfio que pretendem continuar nessa arte, então tenho algumas coisas a dizer-lhes, não são conselhos, pois o teatro não é “lugar de pregações’, são apenas recados que partem de constatações de um homem dedicado a cena, ainda muito imperfeito que luta contra sua própria ignorância. Contudo, estes “toques”, poderão ajuda-los, se quiserem. Caso contrário, podem contradizê-los, ou ainda, ignora-los:

- Existem pessoas maravilhosas na arte teatral, e vocês devem trabalhar com o maior número possível de artistas, porém, desgraçadamente, permanecem nela muitos vigaristas, doentes da alma e iludidos em grande proporção. Caso queiram dedicar sua vida a essa prática evolutiva, afastem-se dessas criaturas, saibam que elas habitam um vale de profundas trevas que não deverão adentrar.

- Desconfiem sempre de conquistas fáceis, dificilmente no teatro o fácil é sinônimo de bom. No entanto, busquem uma certa simplicidade nos seus atos cênicos, isso não significa que devam ser simplórios, quando falo em simplicidade penso em perfeição.

- Evitem se dedicar a conquista de elogios, 95% dos elogios que vocês receberão durante suas vidas na arte são meramente formais e acontecem em virtude da educação e bondade das pessoas. Tenham consciência que boa parte dos gracejos dedicados ao seu teatro, infelizmente, serão a forma mais covarde de traição que farão as suas pessoas, a chamada hipocrisia. Aprendam a diferenciar os sinceros elogios, os feitos por educação e os hipócritas. Artistas que se regozijam com elogios, em geral, são tremendamente obtusos.  

- Jamais se iludam com possíveis êxitos e nunca se desestimulem com os fracassos. Os êxitos passam muito rapidamente e os fracassos são lições que servirão para vida inteira.

- Estudem, pesquisem, conheçam, escutem, posicionem-se, experimentem, exercitem-se. O teatro não sobreviveu por milênios fundamentado em pessoas desinformadas, alienadas, ignorantes ou estupidas, alguns dos maiores gênios que a humanidade já produziu foram construídos na vida teatral. Construam suas cosmovisões.

- Cuidado com os excessos de vaidade. Conheço vários artistas, alguns até com um certo talento, que perderam completamente o senso da realidade por causa da tola vaidade. No teatro, essa característica nos homens e mulheres que o compõem, pode em muitos casos, ser traduzida como uma arte enfraquecida.

- O teatro não entrou nas vossas vidas para resolver todos os vossos problemas. Possivelmente, vão trazer-lhes alguns. Querem ganhar dinheiro com arte? Trabalhem muito, ainda assim, dificilmente ficarão ricos. Desejam o respeito da sociedade e das suas famílias? Imponham respeito através de um trabalho tão responsavelmente desconcertante que não terão mais coragem, pelo menos na sua frente, de os vilipendiarem. Pretendem serem amados? Amem-se.

- Compreendam as ações, consequências e transformações políticas do seu tempo num sentido amplo, sempre relacionando com a história da humanidade. O fenômeno teatral por si é um ato político, e as relações que vocês estabelecerem com seus contemporâneos, em virtude de suas práticas teatrais, definirão, como, e se os seus teatros permanecerão no tempo e no espaço. O excessivo isolamento ou a fragilidade de análise poderão deixá-los na inconveniente situação de serem, apenas, manipulados.

- Saibam escolher quais trabalhos devem executar. A grande maioria dos espetáculos e projetos são apenas joio. Para cada 100 trabalhos teatrais, no máximo, 1 ou 2 valem realmente a pena serem feitos. Porém, acreditem, nem sempre farão grandes espetáculos. Participar do que nem sempre nos agrada, infelizmente, faz parte de nossas carreiras, contudo, procurem tirar o melhor proveito possível de tudo que realizarem, inclusive das propostas ruins, que muitas vezes, por descuido ou necessidade, serão obrigados a aceitar.  

- Na nossa arte, disciplina é tudo, não faltarem a ensaios, não chegarem atrasados, decorarem textos nos prazos estipulados, trabalharem seus aparelhos psicofísicos, são as formas mais elementares de disciplina, todavia, bem poucos conseguem alcançar esse nível básico. Existem outras disciplinas que vão além das obrigações profissionais e, a mais sofisticada, entre todas elas, é enobrecer o caráter através da persistência.

              Desejo aos senhores e senhoras uma vida profícua na arte, porém, cabe ainda um último, e mais importante lembrete: “nas salas de ensaios, nos palcos e na vida digam sempre as suas verdades, nunca enganem ninguém e principalmente a si próprios. 


Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes