domingo, 24 de abril de 2016

Um Laboratório de Descobertas



Um Laboratório de Descobertas

“A essência do teatro que procuramos é pulsar, 
movimento e ritmo”. (J.Grotowski)


O universo o qual vivemos é cheio de muitas prerrogativas que nos levam a assumir determinados sacerdócios em busca da evolução humana e artística. E, assim os caminhos iniciam com uma incessante descoberta pela criação, o teatro, um mundo de todos e que apenas alguns tem coragem de enfrentar, dos Deuses aos Monstros Sagrados, eis aqui tu teatro, velejando entre tempestivas e mansas marés de todos os gritos alcançados. E com esse pensamento de eterna aprendiz, adentro para um mergulho cênico de dias, horas e segundos no Laboratório da Cena Clowns de Shakespeare, para fundamentar e internalizar meus preceitos e conceitos, afirmando: que o trabalho de grupo sobreviverá em quanto o teatro respirar todas as notas cênicas dessa melodia imortal.

O Laboratório da Cena Clowns de Shakespeare me proporcionou algumas lições importantes para o fazer teatral. Começo relatando o trabalho engajado de cada persona que ali contribuiu para o crescimento de cada atuante envolvido naquela imersão. Os Clowns possuem uma maestria tatuada na prática grupal, que reflete alguns anos de batalhas e ascensões visíveis. Esse compartilhamento generoso, gera um modo de pensar teatro, fazer teatro, como uma ciência do aprender e ensinar para abertura de um mundo novo, de ruptura de visões retrógadas e um porvir de potências transformadoras. Um único corpo dentro de um Barracão alicerçado de completude, de um orgulho viril, onde as quedas e levantadas são motivos de um acordar horizontal. 

Vivenciar umas das experiências mais interessantes nos últimos tempos, com profissionais a serviço da verdade, ir ao encontro de si mesmo, ao encontro do outro e de um coletivo para assim a magia transcender, me renovou as forças em um acreditar infinito. O teatro como um jogo a ser revelado, sendo energeticamente transbordados em cada exercício físico, vocal e mental. Confesso que foram dias de enfretamento, aceitação, lágrimas e superação. O aprendizado para a construção de si próprio, foi detalhadamente expelido no primeiro dia de Laboratório, onde os caminhos da percepção, escuta e entrega são partituras para um treinamento eterno. Ensinamentos para se propagar por fios na existência teatral. E na caminhada dos dias, me fizeram enxergar o teatro como um jogo e o atuante como jogador, nos seus exercícios dinamizados, abrindo alguns pontos convergentes, onde o jogo no teatro é a base fundamental da imaginação criadora. Estabelecendo tempo, espaço e relação, e acima de tudo ir em busca de um teatro vivo e que não mente em situação de representação. Na empreitada de construirmos conhecimentos, viajamos em um estudo de dramaturgia, onde a linguagem é um fenômeno complexo, um lugar de experiências para serem desbravadas. No ritmo frenético dos acontecimentos, atentamente nos deleitamos com uma aula de produção, a sustentabilidade, a ação e as estratégias de um grupo que não repousa. São realidades não muito distintas de outras sentidas por grupos de teatro por todo planeta. Subitamente o Laboratório da Cena, nos presenteia com uma aula magistral de iluminação. “Todo efeito de luz está na natureza”. Uma oportunidade singular, teorizar e praticar enquanto atriz um exercício de luz, e essa inter-relação, formando uma única composição. Elemento de linguagem que não deveria ser distante, mais está presente no estudo e pesquisa, mais que muitos atores não têm acesso, devido uma série de carências. Um olhar aguçado, uma destreza e delicadeza, foram essas luzes de um ser que disse: “Luz é aquilo que nos faz ver”. 

Como todo grupo, coletivo, companhia, tem um ponto de equilíbrio, nos Clowns de Shakespeare, tem uma poderosa rocha, a parte dinâmica daquele Barracão, que carrega as dores e alegrias em um tempo onde as adversidades são cruéis, mais suas camadas são mais firmes, para suportar a labuta teatral de todos os dias. O equilíbrio que harmoniza a árvore Clowns, desde suas raízes até as folhagens mais frágeis, é assim que espio um fruto chamado Yamamoto, que nos concebeu o conhecimento e o trabalho. Eu fico com as cores, cheiros, e verdades desses artistas, homens e mulheres de teatro, impregnados na minha escrita cênica. Minha gratidão e respeito! Que o teatro seja sempre luz. Asè!


Silmara Silva
Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Teresina – Piauí – Sertão
Abril / 2016




   

sábado, 16 de abril de 2016




O Reino da Bruta Deselegância

“O poeta não escapa a história,
inclusive quando a nega ou ignora...”
Octávio Paz (Signos em rotação, p.55)


           Costumo escrever sobre teatro, através dessa arte vejo a impotência dos humilhados, a gélida manipulação dos comandantes das fábricas da maldade, enxergo, sobretudo, o pavor da violência insólita das microscópicas atrocidades. Contemplo, nas entrelinhas, refinadas docilidades que a vida trás: o som alegre das asas de uma abelha, o gozo da gargalhada que só os bufões promovem, a suprema magia de uma bem tecida cena.

         Hoje, porém, nada tenho a declarar sobre a arte. A realidade que se impõe de forma grotesca sobre a nação, exige, uma visão cênica mais ampla que vai além dos limites do palco, uma carpintaria teatral mais complexa, como se o País fosse um tablado tosco, onde construímos a dramaturgia da intolerância, onde o desrespeito e a estupidez povoam a boca dos engravatados, mas também, do cidadão comum que se acredita politizado.

          Brasil dos parvos, que rosnam nos quatro cantos contra a ladroagem, esquecendo-se de suas pequenas e grandes corrupções. Terra de fanáticos e fanatizados, que desejam a morte dos filhos de Deus em virtude do livre direito de amar a quem melhor lhes aprouver. 
Nação onde a imprensa, a polícia, o Congresso Nacional, o Poder Judiciário, o Governo, as empresas públicas e privadas e até o povo é visto com desprezo e desconfiança.

          Quem são os inimigos? Quem são nossos heróis? Alguém pode apontar com relativo grau de segurança essas categorias? O que mais nos assusta é a descortesia e brutalidade reinantes. Já não se constroem pontes dialógicas, não se pavimentam mais estradas para o futuro, cada qual que engula, e não vomite, as crenças, valores e certezas dos seus concidadãos. 

          O que restará após a tempestade? O ódio e a angústia erguerão alguma vida em plenitude?

          Através das sombras desse tempo, além das agremiações partidárias, igrejas, siglas, estéticas, ideologias e objeções, algum ouvido deve escutar uma palavra, um olhar subirá a ladeira da época rude, postando-se no ápice de alguma elegância. O vir a ser depende disso, apesar dessa tremenda e infame falta de comunicação, sempre sobrará um momento para sentirmos um breve e suave toque de mãos.

           Através desse concreto que se avoluma, em qualquer lugar desse imenso projeto de Nação, profetas sopram sementes no deserto.

Adriano Abreu


Um dia antes do Brasil descer a ladeira mais uma vez...

quarta-feira, 16 de março de 2016

A Essência das Coisas Teatrais



A Essência das Coisas Teatrais

“Quanto aos senhores, meus amigos, está tudo bem,
é agradável ouvi-los, mas... Ficar sozinha num quarto de hotel
 e decorar as falas de uma personagem é muito melhor.”
Arcádina, em a Gaivota de Anton Tchekhov

Diante de tão violentas e urgentes demandas que assolam o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense e a triturante rotina de um professor da educação básica, que resolveu fazer teatro da forma mais responsável possível, uma pergunta explode na luta pela coerência: “qual é de fato a essência das coisas teatrais?
Enquanto, imponderadamente, troco essas palavras com o generoso leitor, cinco textos de dois talentosos autores dramáticos esperam, ansiosamente, para serem lidos no HD do computador, uma parte considerável do futuro da Dramaturgia Brasileira de Expressão Piauiense pode estar ali, esperando minha pálida opinião.  Na mesa de trabalho dois livros repousam, como a trocar confidencias, travando o seguinte diálogo:
- Liberdade e independência significam primeiro e mais do que qualquer coisa responsabilidade com sua própria existência.
- Esse moço é muito indisciplinado!
Jurij Aushitz e Jaques Copeau parecem rir da minha cara.
Minha companheira pede que eu a ajude a rascunhar um texto para encenação da pascoa de seus alunos de teatro de uma escola pública, enquanto eu me exaspero tentando resolver a difícil equação, 4 músicos + 5 atores + um estúdio musical, variáveis praticamente impossíveis de conciliar no mesmo tempo e espaço.
As salas de ensaios estão frias dos corpos dos atores do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, enquanto os microfones estão encharcados do nosso suor, simplesmente, porque decidimos que deveríamos fazer uma dionisíaca festa (De Última Pocket Show), por considerarmos que a cidade, o país e mundo estão taciturnos e que precisávamos, “botar as pessoas para sorrirem, cantarem e dançarem, serem felizes por alguns momentos”. Amorosamente resolvemos dizer para aqueles que tentam nos enquadrar, obrigatoriamente, como arautos de um absoluto rigor estético e profundidade existencial inquestionáveis, que curtimos demais tudo isso, porém essa é só uma pequena parte de nossas verdades, portanto, torna-se impraticável nos rotular, pois somos, apenas e unicamente, artistas, e esse tipo de gente, os artistas, são surpreendentes.
Qual é mesmo a essência da arte teatral? O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes me observa atentamente, enquanto reflito sobre esta questão, e me sussurra entredentes: “- Meu amigo você precisa concluir três espetáculos, um deles nem iniciado o trabalho, e os outros dois em diferentes estágios de pesquisa. O Ciclo de Leituras Dramáticas está com uma edição atrasada e o Suplemento Cultural Cigarra completamente emperrado, tens 1 projeto para concluir dos 4 que tem obrigação de fazer, além disso, tens 2 espetáculos na geladeira. Contudo, siga em frente, eu posso esperar.” Eu respondo envergonhado: “- Você é o único que me entende patrão. ”
Talvez seja uma parte da verdadeira essência das coisas do teatro, quando ele lhe consome, e o único compromisso prioritariamente possível seja o universo teatral. Não existem lamúrias, nunca nos abraçamos com a tristeza, se surge o pânico, e até o desespero em algum instante, comuns na ânsia da vontade de cumprir as ações, podemos traduzir nossa sempre presente superação com uma só palavra, amor.
Amar o teatro é amar toda a humanidade, de maneira transparente e contraditoriamente enigmática, apesar desse paradoxo, unicamente nós, compreendemos a importância do que nos propomos a realizar na luta pela concretização da plenitude da vida, das nossas vidas e, consequentemente, contribuindo com a existência daqueles que nos servem de assistência.
Hoje nossa aldeia, Teresina, pode dizer com tranquilidade: “- Confiamos em vocês, meninos e meninas do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes. As vezes nos chateamos convosco, porque em alguns momentos pegam pesado. Sabemos do real compromisso dessa troupe de artistas com nossa aldeia e com nosso povo, reconhecemos a vossa fé no futuro. ”
Eis a real essência do teatro, FÉ e ESPERANÇA que juntas geram compromisso, porém, existe uma luz que brilha mais que todas as outras, nessa busca por essencialidades,  e ela é eternamente o AMOR. Alguém, em um momento supremo de sabedoria, já escreveu uma carta sobre isso, ainda não aprendemos muito sobre ela, somos apenas crianças, construindo nossas fortalezas.

Dedico este texto aos autores Brasileiros de Expressão Piauiense, Roberto Muniz Dias e ao Eraldo Eudes Maia, que se encantou cidadão do Piauí. Obrigado aos dois pela fé, esperança e amor ao futuro dessa terra.

Adriano Abreu, Diretor do Coletivo Piauhy estúdio das Artes
 Teresina, Estação das Águas
2016




quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense 2016: Dias Melhores Virão?

Foto: Alysson Castro

         Ano após ano tenho feito uma retrospectiva do período que vai se encerrando na Cena Teatral Piauiense, certamente, uma única visão não contempla a diversidade de pensamentos que permeiam a questão, porém, um teatro que não expõe, de forma opiniosa suas vísceras, não é um teatro sério, então, mãos à obra:

          Como sempre, tivemos poucas estreias, demonstrando a fragilidade dos produtores teatrais locais, em manter uma continuidade e regularidade na construção de produtos cênicos, devemos destacar o “Grupo Harém de Teatro”, que consegue todos anos fazer o dever de casa, sempre apresentando novos trabalhos, em 2015 foi a vez de “Um Bico Para Velhos Palhaços”, de Matei Visniec, com direção de Arimatan Martins, comemorando os 30 anos de atividades do grupo. O Harem ainda realizou a sexta edição do FESTLUSO (Festival de Teatro Lusófono) e reestreou a “Casa de Bernarda Alba” de Lorca, finalizando as comemorações dos seus 30 anos, com a última apresentação da antológica “Raimunda Pinto Sim Senhor”, de Francisco Pereira da Silva.

            O GRUTEPE (Grupo de Teatro de Pesquisa), também, estreou o seu “Itararé a República dos Desvalidos”, remontagem do clássico texto de Afonso Lima, também sob a batuta de Arimatan. Necessário fazer merecida menção ao COTJOC- COMPANHIA DE TEATRO JOVENS EM CENA, capitaneado por Arimatéia Bispo, que além da “Mostra Teatro ao Alcance de Todos”, e da sua tradicional “Paixão de Cristo”, levou aos palcos do Estado, “ A Verdadeira História de Romeu e Julieta”, Direção Alinie Moura Do Caermo e Arimatéia Bispo, para o texto de Jean Pessoa. Outra boa surpresa foi a estréia de "Casimira Quietinha", texto de Waldilio Siso, direçao de Avelar Amorim. O Grupo Utopia de Teatro, dirigido por Chicão Borges, também, tem conseguido montar alguns trabalhos e realizado sua mostra anual. Vitorino Rodrigues e sua trupe realizaram “ZUMBEATS”, boa iniciativa para o teatro infanto juvenil. O Grupo Escalet de Teatro, da cidade de Floriano, protagonizou a 4ª Edição do Festival Nacional de Teatro e, manteve algumas montagens. Parnaíba conseguiu, também, realizar uma produção teatral ainda pequena, com os grupos de Carmem Carvalho e o Coletivo Cabaça, dirigido por Rick Costa. Além disso, algumas poucas produções comerciais, as tradicionais Batalha do Jenipapo, Paixões de Cristo, Operetas de Natal e uma ou outra iniciativa com menor visibilidade.

            O SESC-Piauí realizou duas iniciativas na área teatral: SESC Março de Artes Cênicas e Festival Pipoca e Guaraná, no entanto, uma pergunta incômoda tem pairado no ar: Por que o SESC Piauí não consegue colocar as produções locais nos seus dois projetos de circulação, Palco Giratório e SESC Amazônia das Artes? O que incomoda é que os nossos espetáculos possuem, muitas vezes, até maior qualidade dos que os que tem circulado por aqui. A Classe Teatral Piauiense, de forma organizada, deve sim em 2016, procurar explicações mais fundamentadas, por parte da Coordenação Regional de Cultura do SESC-Piauí, sobre essa questão.

           A FCMC (Fundação Cultural Monsenhor Chaves), na atual gestão, deixou o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense no vácuo de iniciativas, esperamos alguma coisa positiva no último ano da administração de Lazaro do Piauí e Firmino Filho.

          A SECULT-Piauí (Secretaria de Cultura) abre suas portas com algumas perspectivas interessantes, entre as principais estão: a recuperação dos espaços culturais da capital e interior, e a setorialização do SIEC (Sistema de Incentivo Estadual a Cultura) por áreas artísticas já em 2016, o que pode ser muito positivo para os bons projetos cênicos. O Secretário Fábio Novo, tem procurado dialogar com os produtores teatrais, tem força política e atuação na área, dessa forma, é torcer, e crer para ver.

          O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes conseguiu manter seus projetos “Fogo”, Exercício Sobre Medeia” e o Ciclo de Leituras Dramáticas (com mais seis edições este ano de 2015), ministrou seis oficinas de iniciação teatral na Casa da Cultura de Teresina com turmas lotadas, está em processo com dois novos trabalhos teatrais e mais um Pocket Show, “Música de Primeira Para Interpretes de Última”, estabelecemos uma maravilhosa parceria com o Grupo Harem de Teatro, coordenando a parte formativa do FESTLUSO. No ano que se encerra obtivemos conquistas relevantes para o cenário teatral piauiense: destacamos nosso protesto na escadaria da extinta FUNDAC, onde exigimos respeito e seriedade no trato com o artista da cena. Outro momento glorioso foi a temporada vitoriosa do espetáculo “Exercício Sobre Medeia”, no Rio de Janeiro, abrindo o “Projeto Grandes Minorias” (Teatro Glauce Rocha), a convite da dramaturga Marcia Zanellato. Fundamental e inédito para a arte do Piauí, foi a nossa participação no FILTE (Festival Latino Americano de Teatro da Bahia), onde proferimos um colóquio no Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste-NORTEA, como também, conseguimos inserir o FESTLUSO no Fórum dos Grandes Festivais de Teatro do Brasil. Além disso, o solo de Silmara Silva levou a maioria dos prêmios no 4º Festival Nacional de Teatro de Floriano, na categoria monólogos. Portanto, este ano para nós, foi de construir pontes, para integração do nosso teatro com outros criadores, pesquisadores e agrupamentos de várias partes do país.

            2016 se avizinha trazendo grandes expectativas, e o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, descortina o ano com a esperança de trazer em parceria com os grupos Harem e Oco Teatro Laboratório (da Bahia), um encontro do Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste para Teresina, este evento possibilitaria a participação de alguns dos melhores coletivos e pesquisadores do teatro brasileiro na nossa cidade, compondo as atividades de formação do Festival de Teatro Lusófono 2016. A contribuição de todas as instituições públicas, bem como, de empresas privadas, será de suma importância para o fortalecimento dessa e de outras ações nossas e do movimento teatral piauiense como um todo.

           Esperamos dias melhores para nossa arte, e o nosso compromisso, é a inserção do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, de forma orgânica, na nova cena do Teatro Contemporâneo Brasileiro, nós do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, estamos prontos.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
31 de dezembro de 2015
        

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Medo Paralisante da Crítica




                                                                       
O Medo Paralisante da Crítica
(O Corajoso Compromisso do Atuante Iluminado)


            Ninguém é obrigado a fazer Teatro. Fortalecido por convicções muito fortes, considero que muitos indivíduos deveriam, sem remorsos, eximir-se dessa atividade humana tão prazerosa, porém, exigente de dedicação, disciplina e sacrifícios. Todavia, se o seu espírito inclina-se de maneira irrefreável para o ofício cênico, realize-o com o primor dos mestres e, pleno das motivações corretas, caso contrário, pela força do tempo que sempre revela todas as contradições, você poderá tornar-se um estorvo para a arte teatral e criar imensos problemas para si mesmo.
           Todos os artistas da cena estão sujeitos a crises e situações difíceis durante a vida profissional. O ambiente que circunda a nossa arte está repleto de muitas energias, algumas extremamente benéficas e outras abjetas. A conscientização da influência dessas forças no processo criativo, para os atuantes, é essencial na diminuição do impacto negativo que algumas delas exercem sobre o produto final do trabalho, o espetáculo. Este ensaio visa contribuir para minoração do efeito destrutivo de uma das mais poderosas influencias energéticas que atores e atrizes enfrentam: “O Medo Paralisante da Crítica”.
            Antes mesmo de entrarem em cena, alguns atuantes, literalmente congelam com o pavor de um possível julgamento contrário as suas aspirações, é como se o ato teatral fosse um crime digno de culpa ou absolvição. Absolutamente pueril e de certa forma irracional, tais comportamentos e sentimentos não são resolvidos num passe de mágica. Grande parte de nossas vidas na arte passamos criticando, as vezes ferozmente, as manifestações cênicas que consumimos. O efeito dessa prática recorrente, volta-se contra nós mesmos, então começamos a internalizar um certo pavor da não aceitação do nosso trabalho e, consequentemente, das nossas personasA vontade de atuar, confunde-se, em um grande número de casos, com a necessidade de ser amado, essa necessidade, na cabeça do artista, significa ter a aprovação (de preferência verbalizada) da nem sempre justa classe teatral em primeiro lugar (alguns forçam a aprovação e se comprazem nela), dos parentes e amigos em segundo plano, estranhamente, em último lugar, do anônimo público pagante.
          Vítimas de vaidade aguda ou baixa estima crônica, no momento do comentário, indicativo do suposto fracasso, apontado por um “colega do teatro”, alguns pensam em desistir do ofício, outros passam anos sem executar nenhuma proposta mais relevante em virtude do terror da crítica e passam a vida murmurar a eminente desgraça pelo mundo afora.
          Existe remédio para este mau? Como livrar-se da doentia dependência do elogio dos colegas de ofício, em muitos casos, como sabemos, hipócrita? Qual a cura da esquizofrênica necessidade de “arrasar” e ser reverenciado no cenário teatral no qual habitamos? A pergunta para todas essas questões resume-se em única palavra: ESTUDO.
          Quando estudamos compreendemos que o universo do teatro é bem maior que uma confraria de comadres ou um poleiro de pavões. O ato de estudar nos qualifica a entender que qualquer perspectiva cênica, inclusive a nossa (as vezes enxergamos tudo, menos o nosso umbigo), é passível de sucessos e fracassos e que ambos, são temporários, aparentes e relativos. Compreendemos, ao aprofundar o conhecimento, que fundamentar aquilo que realizamos torna-se nosso escudo contra malfadadas críticas, proporcionando-nos maturidade para aceita-las e, até incorporá-las, ao nosso aperfeiçoamento quando construtivas (aliás elas também existem). O comprometimento com nossa arte passa, invariavelmente, pela condição permanente de aprendiz e por uma dose ilimitada de coragem.
          Portadores dessa valentia percorreremos nosso caminho, enfrentando derrotas, as vezes mais valiosas que vitórias, as duas, certamente transitórias. Caminhemos destemidamente, com um sorriso nos lábios como quem diz: “- A luz que plantei em mim inundou a minha arte e, esta fonte, jamais se extinguirá."

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Fim da Estação Seca




Teresina- Piauhy

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Arte Para Liberdade da Tribo




Arte Para Liberdade da Tribo

      A arte, como tudo que se aplica a vontade e a criação humana, está se distanciando da realidade premente da longa aventura humana no belo planeta azul.
       Vivenciamos uma volta em direção ao hedonismo. Neste sentido, conclamamos aos seres que se dedicam a arte, a lutar por experiências que façam com que o humano, humanize-se. Tornar o esforço do fazer artístico uma busca pela paz e, sofrer para alcançar a paz, não é tarefa para egoístas.
       Ególatras são os artistas que veem o trabalho na arte como fonte de supressão dos ímpetos de fé e amor. Egoístas são os artistas que tornam sua arte fetiche para poucos. Orgulhosos são os que tornam suas buscas estéticas, meros objetos de repressão da força transformadora dos homens e mulheres.
         A virtude chega na arte quando coloco minhas realizações a serviço da evolução espiritual dos protagonistas e espectadores do objeto artístico. Hoje, mais que ontem, necessitamos buscar a verdade e esquecer os relativismos no campo da criação do fenômeno cênico. Aqueles que discutem a finalidade desses objetos de forma tristemente egocêntrica estão fadados a se perderem pelo caminho.
        O caminho é a cura das dores da alma, através do encontro com o Deus que habita dentro de cada um de nós. A negação do divino nas nossas existências é a negação de si mesmo.
         Preocupações individualistas distorcem o ser artista, o reduzem ao que podemos chamar: “salvador daquilo que nunca pôde salvar”. A luta é por uma cena rica de beleza da verdade.  Esse conceito regenera o povo e o concentra nas veias da iluminação.
          O princípio que deve guiar nossas ações será: O artista vive e trabalha para os homens e mulheres da tribo. Almeja que eles percorram, com relativa segurança, os vales das sombras da existência. Artistas e sociedade rumo a certeza de uma vida plena de sabedoria e conhecimento.  Quem constrói a arte são os homens e mulheres e em seus nomes ela será exercida, sem egoísmo, vaidade e com ampla firmeza no propósito da busca da verdade e harmonia com todas as coisas da Terra.

Adriano Abreu e Coletivo Piauhy Estúdio das Artes

Fim da Estação Seca

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Atuar Verdadeiramente! Ato Único de Libertação!



Atuar Verdadeiramente!
Ato Único de Libertação!


“Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. 
A liberdade não é um fim, mas uma consequência. ”

(Leon Tolstoi)



                      A liberdade do ator deve ser total. Isso é um fato inquestionável para os que buscam a autenticidade.  Todavia, o que vem a ser essa tal liberdade? Como o atuante consegue ser completamente livre para criar o seu papel, abrindo-se de forma confiante para ele, ator-doando-se nele?

                      O que aprisiona os atores e atrizes são suas percepções passivas do papel, então eles acreditam cegamente que podem se esconder por trás de alguma tradição, ou o que é pior, revoltar-se contra as tradições, considerando-as como grilhões que devem ser rompidos. Afirmo, tanto uma quanto outra posição encarceram os artistas da cena em falsas convicções.

                      Então atores e atrizes continuarão perdidos, debatendo-se ou omitindo o problema fundamental da liberdade. Vociferando, ou silenciosamente magoados, os atuantes continuam vendendo muito barato o seu inalienável direito de serem livres. Pois nenhum encenador, minimamente capaz (a praça está repleta de incapazes), aliena o artista da sua automia criativa, se assim o faz, a justificativa sempre é a omissão ou ação equivocada dos mesmos.

                      Dirigi um artista que possuía muitos recursos criativos, no entanto, fui rechaçando uma a uma as soluções que ele me apresentava para construção da personagem, é necessário ressaltar que algumas dessas soluções eram realmente muito boas, porém, eu queria algo mais daquele ator, almejava o extraordinário, vaidade de um jovem diretor que se aventura a dirigir um atuante talentoso, ele não reclamava, tão pouco se rebelava silenciosamente, como o fazem os hipócritas, apenas, trabalhávamos os dois à espera do imponderável. Foram horas naquele frenesi da criação de uma categoria essencial para os homens e mulheres do teatro, a busca suprema da verdade, onde só os verdadeiramente livres ousam chegar. Naquele exato momento, quando o caos psicofisiológico e a exaustão buscam desesperadamente a ordem, o nosso ator balbuciou uma palavra: - MÃE! Até hoje não consigo dimensionar o que aconteceu naquele exercício de cruel libertação, o certo é que naquela ação de absoluto desnudamento, a sala de ensaios ficou minúscula para tanta vibração, e eu, um pobre e jovem diretor, tonteei e não pude dizer mais nada. O atuante tinha conseguido finalmente conquistar sua alforria. Depois desse fatídico dia, realizamos a apresentação combinada, e ele nunca mais atuou.

            Onde a mentira acaba e as verdades eternas do teatro fazem morada, ali reside a liberdade de atores e atrizes. Qualquer outro discurso tradicional ou contemporâneo, conservador ou vanguardista, serão perca de tempo. Teatro é para quem tem coragem e sabe, que destruir é muito fácil, mas construir é para os valentes da vida inteira.

Dedico este texto ao ator Carlos Betão, pois sabe escutar verdadeiramente em cena, uma das mais difíceis tarefas para um atuante.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Teresina – Estação da Seca