Após o treinamento os Atuantes são convidados a produzir um texto reverberando todas as sensações acolhidas. Segue abaixo:
5° ENCONTRO
O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, Teresina-PI, pesquisa e desenvolve atividades em artes cênicas com foco principal na formação integral do atuante e suas interfaces com a arte do espetáculo.
Após o treinamento os Atuantes são convidados a produzir um texto reverberando todas as sensações acolhidas. Segue abaixo:
5° ENCONTRO
Após o treinamento os Atuantes são convidados a produzir um texto reverberando todas as sensações acolhidas. Segue abaixo:
4° ENCONTRO
Funcional cênico (Uma viagem em busca da lavratura corpóreo-vocal)
Nos princípios norteadores do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, especificamente do trabalho do atuante sobre si mesmo, encontramos uma série de competências e atitudes a serem conquistadas por atrizes, atores e performers que desenvolvem atividades artísticas no grupo, entre elas, estão em destaque as duas primeiras “Séries de Princípios Norteadores” do trabalho do grupo, abaixo discriminados:
1ª Série Princípios Norteadores - Concentração das Forças Criativas:
• Aceitação
• Aguçamento Sensorial
• Atordoamento
• Corporificação da Mensagem (ator-verbo)
2ª Série Princípios Norteadores – Bailado do Atuante:
• Trabalho de Lavratura Corpóreo Vocal
• Trabalho Sobre a Equalização Espaço Temporal
• Trabalho Sobre o Foco do Atuante e do Espectador
• Trabalho Sobre o Ritmo
O treinamento “Cênico Funcional”, criado e desenvolvido pela atriz e educadora cênica Silmara Silva, propõe-se a ser mais uma ferramenta a disposição dos atores e atrizes que desenvolvem sua atividade nesse grupo criativo, no sentido de alcançarem padrões satisfatórios em aspectos fundamentais na construção de atuantes de alta-performance.
Dessa forma, na figura de diretor-pedagogo do Coletivo, tenho acompanhado o desenvolvimento teórico dessa ação formativa, bem como, realizado na prática os encontros formativos orientados por Silmara Silva. Gostaria de ressaltar alguns dos incontáveis benefícios do “Cênico Funcional” enfatizando, mais uma vez, que essa pesquisa-experimento se configura como um passo importante na formatação metodológica de pontos essenciais que compõem os “Princípios Norteadores do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes”:
Respiração:
Exercícios respiratórios diversos, foram aplicados em todos encontros, estimulando e conscientizando os atuantes sobre a importância capital do domínio desse instrumento fundamental que é a consciência e domínio dos processos respiratórios, como também, fortalecimento do cardio respiratório, no sentido de afirmar e potencializar presenças cênicas, elevando exponencialmente o autoconhecimento, proporcionando o alicerce necessário para posterior domínio e manipulação energética utilizando a respiração como fator estruturante.
Através do trabalho sobre a respiração que, é a base de todo treinamento “Cênico Funcional”, os atuantes alcançarão bases sólidas para novas conquistas.
Flexibilidade:
Os exercícios de flexibilidade corpóreo-vocal são outra viga mestra da pesquisa-experimento desenvolvida por Silmara. Alongar a musculatura dos membros inferiores e posteriores, trabalhar a flexibilização da coluna e fortalecer as possibilidades vocais partindo da experiência do corpo, permitem ao atuante a ampliação e o destravamento das forças mentais, já que, a rigidez psicofísica prejudica estados satisfatórios da performance, ao contrário da flexibilidade que proporciona frescor e vida a atuação.
Potência, velocidade, coordenação motora e precisão:
No treinamento cênico funcional existem “circuitos” de exercícios corpóreo-vocais, que acontecem na segunda etapa do encontro, os “circuitos” ou “cenas” na linguagem da pesquisadora, estimulam o atuante o desenvolvimento de habilidades relacionadas ao desenvolvimento de potência muscular (incluindo os músculos responsáveis pela fonação), velocidade na realização de ações físicas, ampliação de possibilidades motoras e aquisição da precisão de movimentos.
Essa fase do treinamento exige do atuante resistência a fadiga, domínio das potências energéticas estudadas na primeira fase do treinamento, ou seja, o uso consciente da respiração, disciplina na realização de tarefas concretas e, outras questões pertinentes, a um futuro processo criativo frutificador.
As “Cenas (circuitos)” além dos benefícios citados anteriormente, possibilitam e potencializam uma espécie de “limpeza” no corpo dos participantes, retirando espasmos musculares e eliminando resistências corpóreos-vocais desnecessárias.
Toda gama de exercícios e trabalhos dessa fase do “Cênico Funcional”, devem ser realizadas com um empenho de concentração, fator imprescindível no desenvolvimento das estratégias que facilitarão a execução das “cenas”, como também, uma das metas primordiais dessa fase é acrescentar uma consciência psicofísica progressiva.
Equilíbrio, ritmo, foco, exploração e compreensão espacial:
Alguns exercícios especiais compõem a última fase do treinamento “Cênico Funcional”, tais exercícios visam desenvolver habilidades importantes no atuante.
Atividades diversas utilizando disco de equilíbrio, raquetes e bolas estimulam a busca ativa no desenvolvimento de competências que envolvem equilíbrio, ritmo e foco. Outras atividades e dinâmicas, envolvendo o domínio e exploração espacial, são propostas as atrizes, atores e performers no intuito da descoberta e superação de suas dificuldades na perfeita apropriação do espaço-tempo.
A dança pessoal:
A última fase dessa ação formativa propõe o investimento dos participantes na conquista das ações físicas. Nesse momento, através de estímulos e desafios cênicos, exige-se dos atuantes uma vontade dinamizada. Conceitos como atordoamento e corporificação da mensagem, deverão ser traduzidos em partituras de ações físicas. Possibilitando o domínio espaço-temporal, dilatação corpóreo-vocal, estados vibráteis e demais potências exigidas no fenômeno teatral.
O “Treinamento Cênico Funcional”, juntamente com a oficina “Autonomia e Criatividade” coordenada pelo ator Luciano Melo, assumem novos protagonismos nas ações formativas desenvolvida internamente pelo Coletivo Piauhy Estúdios das Artes, o objetivo é formatar atitudes metodológicas que possam, além de potencializar os membros do grupo, servir de fundamentação para oficinas e cursos de curta e média duração oferecidos a comunidade artística em geral pelos membros do Coletivo.
Após o treinamento os Atuantes são convidados a produzir um texto reverberando todas as sensações acolhidas. Segue abaixo:
3° ENCONTRO
A necessidade de respirar. Respirar em harmonia com o corpo. Não uma respiração como dispositivo unicamente da vontade, mas como parte integrante da totalidade corpo-emoções-imaginação. Num certo momento do trabalho de hoje, a respiração estava em todo meu eu.
Desenvolver a respiração como algo natural e a serviço do atuante. No início, precisa observar (e ser observado pelo regente que orienta os exercícios), fazer correções, perceber as mudanças no seu todo a partir da respiração. Com o desenvolvimento dos exercícios, a respiração cresce em você como você cresce com a respiração.
Importante: não duvidar da potencialidade transformadora dos exercícios de respiração propostos. Entregue-se.
O condicionamento físico do ator. Este, entre outras coisas, garante base para a liberdade criativa do atuante. A expressão passa necessariamente por toda a integridade do ser ator. O corpo precisa estar disponível. As emoções devem estar livres e sem as travas do ressentimento, do medo, do ridículo ou dos traumas. A imaginação, uma das bases do atuante, também comunga com essa integridade do atuante.
O condicionamento físico deve constituir-se, assim, um projeto de aprimoramento do atuante. Quanto mais disponível corporalmente, menos as tensões memorizadas pelo corpo travam o campo das expressões do ator. Quanto mais o corpo se liberta, mais as atenções e interesses do ator se voltam para suas imagens, sensações e emoções.
Além de tudo, o condicionamento físico oferece segurança para os desafios do trabalho criativo do atuante.
Outro ponto fundamental: concentração. Esta significa atenção ao proposto. Também compreende observação de todo seu eu para o trabalho. Foco no trabalho, nos seus propósitos e nos colegas de cena. Quanto mais percebemos/sentimos esse processo de construção dos objetivos criativos, mais nos disponibilizamos para o jogo expressivo do teatro. Trabalhar mais e mais a disponibilidade para o trabalho criativo.
Assim, o atuante deve colocar-se à disposição: atenção aos exercícios propostos, entrega na execução dos exercícios, observação inspiradora para mudar todo o criar do atuante... Não se dedicar aos exercícios maquinalmente. Pelo contrário, para o trabalho de criação deve estar totalmente mobilizado.
Essa mobilização criativa é uma construção processual e progressiva. Basta dedicar-se ao trabalho individual e coletivo, além de partilhar com os colegas as descobertas e transformações do atuante criativo.
Essa harmonização integral entre concentração, imaginação, disponibilidade criativa, consciência, liberdade corporal, emocional e criativa é condição para o desenvolvimento maior do trabalho do atuante. Uma busca constante que transforma, pouco a pouco, o ator criador.
Após o treinamento os Atuantes são convidados a produzir um texto reverberando todas as sensações acolhidas. Segue abaixo:
2° ENCONTRO
O trabalho me chamou atenção para muitos pontos relevantes sobre o trabalho do atuante. Vou tentar recapitular alguns deles. Pelo tempo transcorrido, perderei alguma coisa. Mas, o essencial está nessas palavras.
Primeiro, conhecer meu corpo pelos exercícios de alongamento. Para além de conhecer, há um trabalho de ampliar as possibilidades da expressão pelo corpo. O alongamento “acorda” e sensibiliza partes do corpo que estão adormecidas. Também reconhecer meus limites e aprender a lidar com eles: desde desafiá-los a ir um pouco mais longe até aprender a solucionar expressivamente aquele limite consciente (o trabalho favorece essa consciência e desperta meu todo para possíveis correções). Tudo isso sob o céu azul.
Segundo, o trabalho do atuante de estar consigo em trabalho com outros. Ao caminhar, sentia a presença dos colegas, a energia, mas, também interagia (desde o olhar as outras interações pelo odor, energia, presença etc.). Sentia-me parte e, ao mesmo tempo, consciente de como, naquele conjunto, estimular minha sensibilidade.
Terceiro, a combinação integrada entre exercícios físicos e vocais. Trato como “combinação integrada” pois não percebia separados a emissão de sons e o corpo em movimento. Sempre habituado a trabalhar respiração, impostação, projeção, dicção como um conjunto fechado, pelo segundo dia de trabalhos percebo o quanto voz-corpo-respiração se integram.
Quarto, lidar com os limites do meu corpo. Qualquer trabalho exige compreensão de si. As atividades aeróbicas me pediram um olhar mais atento comigo mesmo: como lidar da melhor forma? Como dirigir os esforços físicos para manter os três momentos de trabalho aeróbico? Como transformar o “cansaço” numa inspiração para o trabalho expressivo? Essas questões acompanharam-me durante todo esse momento.
Quinto, o trabalho com a bola e com meus colegas. Não é só respirar, ou só jogar a bola, ou só interagir com os colegas. É tudo isso. O teatro é uma arte que integra esforços e exige disponibilidade e entrega.
Sexto, a bolinha, a raquete, o texto falado... Mais uma vez, atenção, respiração, concentração/entrega, disponibilidade e integração do meu todo foram chamados. A ausência do óculos gerou uma dificuldade inicial que precisou ser trabalhada. Certas limitações nos desafiam a explorar outras possibilidade do meu ser total. E assim trabalhamos.
Sétimo, as canções do Queen e o atuante em movimento num espaço aberto para o trabalho criativo. Uma integração singular que só abre campos de criação para o atuante. Sem estimular medos ou receios; sem programar a inefável criatividade. Jogar-se integralmente nas ações criativas. Os exercícios de alongamento e o próprio trabalho aeróbico deixaram o corpo disponível para a experimentação. A calmaria do início da noite. O verde que nos cercava. O meu eu em projeção criativa...
Após o treinamento os Atuantes são convidados a produzir um texto reverberando todas as sensações acolhidas. Segue abaixo:
1° ENCONTRO
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Em comparação ao início do treinamento, além do cansaço normal de um treinamento puxado, me sinto aguçada como se eu estivesse agora sensível ao que acontece ao meu redor. Vejo, sinto o sabor, o cheiro do suor...
Foi divertido, não cansei.
Na voz fiquei mais atenta aos lugares que ela vai na cabeça quando se está no limite da respiração. Tive que me concentrar e direcionar para não doer a garganta. Percebi essa completude e tentei não isolar, separar corpo e voz. Está tudo conectado!
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Hoje pude exercitar de outra maneira, transferir a respiração para as diversidades das regiões do corpo. O encontro com a concentração em meio ao caos mental. Encontro com o tônus recorrente.
(Treinamento para higiene do corpo voz)
“Não pense no instrumento vocal em si, não pense nas palavras,
mas reaja, reaja com o corpo.
O corpo é o primeiro vibrador e ressonador. ” (Grotowski)
1. Eixo Temático
Compreensão, estímulos, reações e consciência da fisicalidade para a liberação dos impulsos do corpo e construção do bios cênico (atores e atrizes).
2. Objetivos Gerais
Deixar o corpo disponível psicofisicamente para a cena, promovendo uma superação dos limites tanto físico quanto psíquico, através da exploração de uma fisicalidade extracotidiana. Resultando assim, na busca pela eliminação dos bloqueios do corpo do atuante.
Reeducar o funcionamento do sistema respiratório para criar uma consciência no ato de respirar.
Estimular a consciência da energia corporal no intuito de dilatar, expandir e reverbera-la no espaço – tempo na criação sinérgica.
Auto conhecer sua ferramenta de trabalho: o corpo.
Adquirir equilíbrio, flexibilidade, potência, coordenação motora, agilidade e força para desenvoltura cênica.
3. Como será desenvolvido:
- Cada atuante responderá um pequeno questionário com cinco perguntas norteadoras.
- O Cênico funcional será realizado uma vez por semana (todas as quintas), e terá duração de 1h de treinamento.
- O atuante deverá chegar meia hora antes. Vir de tênis, roupas leves e confortáveis, exceto jeans. Trazer garrafinha de água e colchonete de uso individual.
- Serão usados alguns objetos pelo espaço como: mini cones, mini band, cordas, pesos, disco de equilíbrio, bolas terapêuticas e, outros...
- Ao final do treinamento, cada atuante fará um relato escrito das sensações observadas durante todo treino.
• Obs: Esse é um experimento para o presente. É importante que estejamos todos presentificados para acolher a todas as sensações, descobrirmos as resistências e obstáculos que nos impedem de fluir dentro da cena. É preciso adestrar esse corpo e nos libertarmos das grades construídas por nós mesmos.
Criação do Método: Silmara Silva / Atriz
Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Introdução
Em Rei Lear, Shakespeare afirma que “... se concedermos à natureza humana apenas o que lhe é essencial, a vida de humanos valerá tanto quanto a de um animal...”. Para o bardo inglês, é nossa vontade de supérfluo que nos diferencia dos outros bichos. E foi em concordância com o famoso dramaturgo e movido por esse sentimento, demasiadamente humano, de querer mais, de desejar mais, de sonhar vida “superfluamente” saudável para todos, que o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes convidou trinta e dois artistas a cavoucar “no que há por dentro” e, quem sabe, garimpar, lá no fundo, as sementes que gestarão “Uma Poética para um mundo novo”. Em si mesmos genéricos, título e subtítulo da provocação propiciaram aos e às artistas que aqui se manifestaram, pensar, de modo muito particular, com quais ações e sentimentos poderiam contribuir para fazer florescer a tão desejada Poética. Seria uma Poética, cujas linhas, embora díspares em cores e gêneros, trabalhariam unidas pela saúde do todo? Seria uma poética cujas formas se tocariam de tal modo simbióticas e solidárias, que todos a reconheceriam como uma forma manifesta do bem? Seria uma Poética capaz de ler o presente e apontar responsáveis pela distopia que nos assola? Ou uma poética que, questionando o poder, nos aponta o caminho do verdadeiro viver sob um regime de comunhão? Talvez não tenhamos mesmo uma resposta segura, mas que importam as conclusões apressadas? O que, verdadeiramente, importa é que, ao nos voltarmos para dentro, estamos nos engravidando da vontade manifesta de encontramos, em nós mesmos, saídas para o impasse em que nos metemos.
Ante a pronta resposta ao nosso preito, não poderíamos nos furtar de agradecer a todos pelo carinho e atenção com que nos brindaram e também de, com a vênia de todos, emitirmos impressões sobre o trabalho de nossos colaboradores.
Em “O
último café”, Eraldo Maia (ator, dramaturgo
e professor), utiliza-se de jogos semânticos para dialogar com a provocação que
lhe foi endereçada. Na delícia do café escondem-se os dissabores de Zé; na
dúvida de Rui, o fortalecimento das certezas de Zé; na esperança de Rui, todo o
desencanto de Zé; na inocência de Rui, o amparo para a maldade de Zé. Enquanto
para Rui a felicidade sempre será possível, para Zé só os que ignoram são
felizes. Em meio a esse emaranhado de antíteses, Maia nos indica que uma feliz
Poética para um mundo novo somente adviria do abandonar-se e deixar-se, assim,
como em criança, não saber ou não saber-se.
Acorda-te,
menina! Levanta-te, menina! Apela a atriz e contadora de histórias Talita Aralpe, em sua performance “Morada
de Passarinho”. Essa menina que não quis crescer toca seu xilofone e clama aos
quatro cantos por um novo despertar, acreditando que só a criança-passarinho poderá
fazer do mundo, um ninho aconchegante para todos que nele moram.
Diz Leminski
que Um homem com uma dor é muito mais
elegante... Talvez por revelar-se
mais do que pretende, talvez por fazer-se mais humano do que ele próprio
suporia. Em IZO-LADO-MENTE, a qual conclui fazendo-nos uma pergunta sufocante,
o ator, palhaço e Drag Queen, Fagner
Saraiva, reclama o tempo do abraço; abraço que apagaria o medo; abraço que
nos faria plural; abraço que mataria a solitude
que a todos nos apavora. Parece que para Saraiva, uma Poética para um mundo novo,
seria alicerçada no reconhecimento do outro, no abraço do outro, no braço do outro.
O
mundo é um útero, um grande e fértil útero, e a atriz Kelly Campelo é todo o mundo. Em sua performance “Corpo Político
Povo mulher”, essa Gaya explosiva, Dama primeira do amor, abre-se generosa ao
oferecimento de prazeres. E talvez seja mesmo nos prazeres sem trancas; nos
prazeres sem amarras; nos prazeres aquecidos e movidos pelos requebros de um corpo-útero-mulher,
que possamos encontrar os fios para o tecer de uma Poética para um novo mundo novo.
O
Brado do ator e locutor Reinaldo Adriano,
ao exclamar eu existo! É mais
que um Desabafo em si. Existir pressupõe a presença do outro, a aceitação do
outro, o olhar do outro. O espelho não nos enxerga, é a pupila do outro que se
dilata e nos desenha, é o dedo apontado do outro que diz do nosso existir. Esse
homem que congrega todas as cores; esse homem que se propõe despido de preconceitos;
esse homem que deseja a imortalidade da essência humana, é o homem-mãe gestando
uma nação de humanos siameses capazes de escreverem, a múltiplas mãos, uma Poética
para um mundo novo.
O
neologismo “Gorfus”, utilizado pelo ator, diretor e artista plástico Avelar Amorim, mais que nomear a
performance do talentoso artista, expõe-no em vômitos. Na revelação do rosto
que se despe da máscara, há um homem de vivos olhos e boca grande que golfa
expulsando de dentro o desespero. Ao jogar para fora o que lhe é indigesto
Amorim abre espaços, em seu ventre fértil, para um novo engravidar-se de
descobertas e criatividades, que serão paridas em gorfus coloridos sobre a tela
de uma nova Poética para um novo mundo novo.
A
bailarina e jornalista Débora Radassi,
na performance Por que tu me chamas?
Corre ao encontro do desconhecido. Essa figura forte, feminina e desbravadora
de futuros, vai. Mesmo incomodada por estranho chamado, a corajosa bailarina não
se furta ao desafio. Há em seus passos o desejo de ter-se com o(a) outro(a), buscando,
no encontro próximo, terreno fértil para a semeadura de uma Poética que
revestirá de beleza os verdes campos de um novo mundo-novo..
Tudo é
possível na surreal Receita democrática de Jujuba e Chicote (palhaço/a vividos
por Chico Vinícius e Poliana Helena). Na sopa democrática de Jujuba e
Chicote, misturam-se limões paridos de uma banana com ovos extraídos de uma
maçã. Até mesmo uma vela gestada em uma cenoura seria bem-vinda à democrática Receita
da alegria. Só não cabe o estranho e indigesto ingrediente, introduzido ali à
revelia dos cozinheiros, por se tratar de um ingrediente avesso ao democrático
sabor das sopas. Surpreendidos pelo aparecimento do indesejado ingrediente, nossos
cozinheiros tomam a decisão mais difícil para bons cozinheiros: tocar fogo no
livro de Receitas. A ação de Jujuba e Chicote nos alerta para a necessária
tomada de decisão, antes que a democracia da sopa desande, afetada por algum
estranho e indigesto ingrediente.
Assim
como rios do Nordeste que hibernam na seca e renascem sob as chuvas, o ator ribeirinho
Roney Rodrigues, nos evoca à luta
com que se constrói uma existência. Com sua voz campestre ecoando sobre as
águas do Marataoan e do Longá, Rodrigues reforça seu existir nos impelindo à
defesa da cultura campesina e nos conclamando a que não deixemos morrer à margem
nossas histórias. O artista nos aponta o passado como palatável sopa de
letrinhas para a construção de uma nova narrativa que seria a chave mágica a
descortinar um novo mundo novo.
A
atriz Ana Carolina transgride os
regramentos e, com a mesma tinta com que a melanina a contempla, picha angústias
e dizeres pelos muros que a aprisionam. Aqui tem tijolos, e dentro de nós?
Pergunta a atriz? A marca de sua mão formatada no barro - digital ancestral de
uma guerreira ascendente - talvez queira nos dizer que ali sempre habitou a
força da mulher. Barrada pelo “muro”, sufocada pela dureza do muro, a mão
cravada no barro grita ao mundo: eu existo, eu sempre existi. Despida de vestes
e reconhecendo a desorganização interna que a habita, Carolina extravasa, no
ato infracional da pichação, seu gemido tantas vezes calado e nos diz que ainda
não é hora de responder, mas de continuar perguntando: E dentro de nós, o que
há?
O
artista da dança, Datan Izaká,
realiza em sua performance Carniças Sintéticas um lindo jogo antitético entre
vida e morte. No mais precioso líquido, mistura de hidrogênio e oxigênio tão
cara à vida, dançam carniças sintéticas: aves natimortas, marionetes
manipuláveis, frutos de uma gestação fake,
cuja vida só poderia vir a ser pelas ações de um artista. Só o artista pode
fazer dançar pássaros mortos; só o artista pode fazer pulsar corações sintéticos.
Não teria, Izaká, utilizado pássaros como metáfora para nos dizer que somos nós
as verdadeiras carniças sintéticas, engessados e manipulados por um desenho de
produção que nos anula o voo? Como todo
bom artista, Izaká pergunta mais que responde, e isso é saudável à proposição
de uma nova Poética para um mundo novo.
O ator
e diretor Félix Sousa traz na
performance “Saudade” a angústia de sentir-se só. São de cunho existencial suas
interrogações iniciais: Para quê? Para quem? Se o teatro está vazio. Mais que ao
vazio espacial, Sousa se refere ao vazio interior que habita o artista quando o
outro não o aguarda. Mais que de solidão egoísta, Sousa fala da necessidade de
enxergar o outro, do existir com o outro, do Ser para outro, elementos vitais
quando se pretende alcançar uma Poética para um novo mundo-novo.
Assim
como Sofia, ante as atrocidades da GESTAPO, o ator Dan Martins também enfrenta a difícil decisão de escolher entre possibilidades
antagônicas e que lhe são tão caras. Em “Dilema”, Martins utiliza-se de breves
monólogos e diálogos da “casta” social que o cerca, para nos fazer refletir
sobre o ser artista numa sociedade que o vê como imoral e vagabundo. Ao
parodiar Drummond explicita, Martins, outra faceta do dilema que o consome:
permanecer na profissão escolhida mesmo sem a fama, o sucesso e o dinheiro tão
esperados? E agora José? O Sonho acabou? São com essas reflexões que Dan
contribui para o pensar na construção de uma Poética para um novo mundo novo.
Em sua
Performance “Lembranças”, a artista da dança, Carla Fonseca, utiliza como Porta Voz de si o canto desafiador do
Maluco Beleza: “... no momento em que eu
ia partir, resolvi voltar”, diz a canção, enquanto a artista, desolada, em
meio a um cenário vazio, debruça-se sobre Lembranças traduzidas em velhas fotografias.
Ao nos dizer, por meio da canção, que aquilo é tudo o que lhe resta, como se a
vida tivesse ficado no passado, e o presente não passasse de mero tempo vazio, Fonseca
nos aponta para a necessidade de revisitar-se e encontrar outras fontes vitais
de satisfação e prazer. Quem sabe, buscar no fundo do baú as velhas sapatilhas
e com elas dançar para vida.
Em direção ao interior. É
este o significado da palavra “Adentro” com a qual o ator e diretor Dionízio do Apodi nomeia sua
performance. Ao utilizar-se dela como metáfora em dúplice diálogo com as
imagens que nos propõe, Apodi convida-nos a abrir janelas no tempo e encontrar
rotas de fuga à rotina burocrática. Ao revisitar velhos-novos motivos guardados
a sete chaves, o artista nos convida a também fazer tocar a música que nos
embala rumo ao interior de nós e dos nossos. Em sua fuga bucólica para fora e
para dentro, Apodi nos diz que é preciso escapar pelas fendas do tempo,
fazer-se sonho andante, e nunca parar de reescrever a Poética do amor.
Borrão
de tinta nº 1 é a performance com a qual o ator e escritor Alisson Carvalho nos brinda. O artista despe-se de sentimentos
ególatras e faz da tinta a protagonista de suas ações: chuva de tinta a
fertilizar mão e mente criadoras; veios de tinta a regar o chão, estrelando em
fractais a plataforma segura onde flutua a criação. Tinta casca, tinta
invólucro, tinta útero, de onde, gestado, o artista-feto, rompe a placenta das
cores, para desnudar-se, ao mundo em aquarelas.
Com apoio em Hampi, de Yma Sumac, o artista da dança Samuel Alvis nos apresenta sua performance Anticorpa. Em paisagem cenográfica escura, a figura do artista performa, sob a forte presença vocal de Yma, com quem dialoga e expõe-se dançante. Alvis não se deixa consumir pelo mundo e sua força devoradora; ao contrário, é ele, Alvis, quem o antropofagia para, digerindo-o transformar-se, transformando-o.
A
jovem atriz ,Gessy Rubim, evoca, em
sua performance “Despedida”, as palavras da poetisa Cecília Meireles: Não ando perdida, mas desencontrada, para
com elas despir-se diante de nós. Ao reconhecer-se desencontrada, Rubim acende
a chama do procurar-se buscando forças dentro de si para o reencontro consigo
mesma. Embora finalize sua performance pedindo solidão, a atriz não está a
solicitar afastamento egoístico por impossibilidade de convivência com os outros,
mas nos acenando com a necessidade de um instante seu, de um tempo seu com o
qual possa pavimentar com novos e felizes encontros seu antes desencontrado
caminhar.
Bad for you
estampa a camiseta do performer Blu que,
nomeia sua performance com o mais cruel dos cárceres “O cárcere mental”.
Prisioneiro de si mesmo, emaranhado por fios que o ligam e o prendem ao nada,
escravo da máscara que, arrancada de seu rosto, nos contempla inexpressiva,
Blu, vive seu vazio às voltas com outras prisões. Talvez, sua grande
advertência esteja mesmo estampada na camiseta que lhe protege o peito: se não
melhorar para mim continuará também bad
for you. Chama-nos, assim, Blu, a atenção para a necessidade de uma Poética
que ao cuidar bem de mim, estará também a cuidar bem de todos.
O ator e diretor Rick Costa, propõe-se a dialogar com a provocação que lhe foi enviada nos perguntando: o que há por trás da máscara? Costa joga com a multiplicidade de rostos e nos mostra que sobre os mesmos olhos, muitos outros olhos podem nos compor; sobre o mesmo nariz, muitos outros disfarces nos contemplam; sobre a mesma face, muitas outras aparências podem se manifestar. Mas o que há mesmo por trás da máscara? Sob ela, tenha ela a aparência que tiver, há um homem, uma mulher; por trás dela, haverá sempre uma pessoa. Não importa se Brighella ou Arlequim; sob a máscara, mora um humano com o mesmo e universal desejo de ser feliz.
Que rapaz é esse que estranho canto / Seu
rosto é santo seu canto é tudo / Saiu do nada da dor fingida / Desceu a estrada
subiu na vida / A menina aflita ele não quer ver / A guitarra excita pois é pra
quê?
O músico Caio Leon, parece ter buscado inspiração para sua performance “Correndo” na canção Pois é pra quê? de Sidney Miller. Calçando all star para sustentar-se no passo americano, ocupando tato,
visão, audição com múltiplas e simultâneas tarefas, Leon expõe a desordem multifocal
com que a contemporaneidade nos sufoca, impingindo-nos a nos repartirmos em pedaços
para dar conta de tanta demanda. Sem tempo para o bom dia, sem tempo para a
reflexão, sem tempo para ser feliz, só mesmo correndo. Corre menino, corre,
corre, pois, No fim
do mundo há um tesouro / Quem for primeiro carrega o ouro / A vida passa no meu
cigarro / Quem tem mais pressa que arranje um carro / Pra andar ligeiro, sem
ter porque/ Sem ter pra onde, pois é, pra quê?
Enclausurado
entre muros, multiplicando-se por sobreposições de imagens, iluminado por uma
réstia que lhe aponta um “lá fora” possível, o artista da dança José Nascimento talvez nos esteja a
dizer que: por dentro há uma vontade incontida de voar, de romper todas as barreiras,
todas as amarras que nos prendem; por dentro há um desejo de expandir-se em
direção à luz e com ela voar. Por dentro há um artista múltiplo que luta
dançando para ser e estar em muitos outros corpos.
Ao som
de um lindo solo de piano, o ator e cantor Edivan
Alves nos mostra a performance Refugiarte. Com sua câmera passeando por
agendas, mãos que dedilham teclas, teclado sem dedos que o acaricie, embalagens
de comprimidos vazias, Alves nos mostra um traçado alegórico de seu cotidiano.
Ao aportar sobre uma página ainda não escrita, estaria Alves apontando para o
fim ou nos dizendo que há ainda muita história por ser contada? Ao plasmar
câmera e dedos sobre uma folha em branco, estaria Alves a nos dizer que o que
há por dentro é ainda incerto e impossível de se ler, por isso continuará
buscando?
Tendo
como fundo a cidade fantasma, a cidade sem alma, a cidade desumanizada, cenário
que lembra um bairro devastado por arma química, a atriz Silvianne Lima faz, com sua performance, palavra-alma, veemente
apelo à escuta, à necessária escuta de que tanto carecem negros, mulheres,
indígenas, pobres e Lgbts; enfim, oprimidos em geral. Para a atriz, a palavra é
Deus, mas se, como afirma o filósofo, Deus está morto, como então escutá-la? Em
seu desesperado apelo, Lima nos adverte que se a palavra não voltar a dizer o
passado não passará. Mas, para voltar a dizer, a palavra necessita de quem a
escute. E quem escutará o canto dos excluídos se de tão excluídos já não mais
cantam?
Eu evoco o sentido das coisas sentidas que
precisam ser ditas. Eu evoco o sentido das coisas sentidas que precisam ser
ditas. Eu evoco o sentido das coisas sentidas que precisam ser ditas. A
reiterada expressão dita pelo ator e diretor Luís Carlos Shinoda, em “Notas
para o novo mundo”, toca-nos a alma. E talvez seja mesmo esse o grande mote: a
evocação do sentido das coisas sentidas, que nos moverá na direção da
construção de um novo mundo novo. Para Shinoda e acho que para todos nós: amar,
ser, aprender, cuidar são as coisas sentidas, e evocar seus sentidos,
materializá-los em ações que os façam florescer deveria ser nossa grande luta.
Transformar tudo isso no cuidar do outro e de nós, fará com que a esperança
decantada por Shinoda se antecipe ao futuro e chegue agora, sem demora, na mais
eficaz forma de cuidado: a empatia.
É bem-vinda
e sugestiva a expressão Preta e Branco com que a atriz Bid Lima nomeia sua performance. Com ela, Lima nos aponta, à priori, para a ideia de apartheid entre humanos diferenciados
por cor de pele e gênero. Não à toa a eficiente atriz utiliza a flor
como metáfora para dizer que podem, sim, florescer pétalas pretas mesmo em solo
contaminado por branquitude tóxica. Como vidas que crescem e florescem ao
batuque ancestral dos tambores, essa flor-mulher-preta busca seu espaço
rompendo o solo árido que o machismo paternalista e branco procura impor. Com “Preta
e Branco”, Lima nos conduz a pensar que uma nova Poética para um mundo novo
passará sim pelo reagir, pelo insistir, por não se deixar vencer.
Em sua
performance “O saco”, o ator Reinaldo
Patrício nos demonstra velha e abominável prática utilizada pela ditadura
civil-militar de 1964, no Brasil. Após muito lutar, Patrício mostra-se capaz de
vencer o objeto de tortura livrando-se dele, mas quando tudo parecia voltar à
normalidade, e o sorrio já lhe visitava o rosto, outra vez é subjugado,
mostrando que não venceu o torturador. Apelando para este final inglório,
Patrício parece nos alertar que “os assassinos estão chegando, estão chegando
os assassinos” e com eles suas práticas.
Acendamos os sinais de alerta, e lutemos juntos para que não encontrem
por aqui espaço para atuação.
Em sua
performance “Laika”, o escritor, dramaturgo, professor e palestrante ,Roberto Muniz, afirma que o que há por
dentro é um enorme uivo em direção ao espaço. Contudo, Muniz parece “jogar” com
a autenticidade do que lhe vai por dentro quando, propositalmente, deixa-se
manipular por ordenamento exterior. Estaria o competente artista da palavra a
nos alertar sobre forças externas que acabam por ditar o direcionamento de
nossas ações? Estaria Muniz, chamando nossa atenção para a gravidade da
marionetização de nossas vontades e desejos? Seria este “enorme uivo” um pedido
de socorro do artista ante as exigências mercadológicas que nos conduzem a
satisfazer-lhe o apetite em detrimento de nossas vontades?
A atriz, gestora e produtora cultural, Silmara Costa, com o ato performático “Dia 05, local de nascimento Américas”, incitou-nos a viajar pelo território América. Não por essa imensa gleba situada do lado de baixo do equador e escravizada por mãos europeias, mas pela América mulher, essa índia morena de útero fértil e beleza solar a banhar-se de sol sob as linhas do equador; não pelo território América, palco genocida do índio nativo, morto aos milhões pelo fio da espada, mas sim pela América menina que ameniza seu calor sob o veio de água a escorrer-lhe no sexo (sexo rio que alegra o sertão árido e violento do homem que a desama); não pelo território América sequestrado, roubado, depredado pelo invasor europeu, mas sim pela América amante, dama de coxas morenas orgulho latino da mestiçagem nossa. Que os deuses banhem-se nos rios de seus úteros e as engravidem de saberes e cidadania.
São
Paulo, 04/10/2020, 17h e 32min.
*Silmara
Silva, eis aí minha contribuição ao Coletivo Piauhy Estúdio Das Artes.
Eraldo
Maia