quarta-feira, 16 de março de 2016

A Essência das Coisas Teatrais



A Essência das Coisas Teatrais

“Quanto aos senhores, meus amigos, está tudo bem,
é agradável ouvi-los, mas... Ficar sozinha num quarto de hotel
 e decorar as falas de uma personagem é muito melhor.”
Arcádina, em a Gaivota de Anton Tchekhov

Diante de tão violentas e urgentes demandas que assolam o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense e a triturante rotina de um professor da educação básica, que resolveu fazer teatro da forma mais responsável possível, uma pergunta explode na luta pela coerência: “qual é de fato a essência das coisas teatrais?
Enquanto, imponderadamente, troco essas palavras com o generoso leitor, cinco textos de dois talentosos autores dramáticos esperam, ansiosamente, para serem lidos no HD do computador, uma parte considerável do futuro da Dramaturgia Brasileira de Expressão Piauiense pode estar ali, esperando minha pálida opinião.  Na mesa de trabalho dois livros repousam, como a trocar confidencias, travando o seguinte diálogo:
- Liberdade e independência significam primeiro e mais do que qualquer coisa responsabilidade com sua própria existência.
- Esse moço é muito indisciplinado!
Jurij Aushitz e Jaques Copeau parecem rir da minha cara.
Minha companheira pede que eu a ajude a rascunhar um texto para encenação da pascoa de seus alunos de teatro de uma escola pública, enquanto eu me exaspero tentando resolver a difícil equação, 4 músicos + 5 atores + um estúdio musical, variáveis praticamente impossíveis de conciliar no mesmo tempo e espaço.
As salas de ensaios estão frias dos corpos dos atores do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, enquanto os microfones estão encharcados do nosso suor, simplesmente, porque decidimos que deveríamos fazer uma dionisíaca festa (De Última Pocket Show), por considerarmos que a cidade, o país e mundo estão taciturnos e que precisávamos, “botar as pessoas para sorrirem, cantarem e dançarem, serem felizes por alguns momentos”. Amorosamente resolvemos dizer para aqueles que tentam nos enquadrar, obrigatoriamente, como arautos de um absoluto rigor estético e profundidade existencial inquestionáveis, que curtimos demais tudo isso, porém essa é só uma pequena parte de nossas verdades, portanto, torna-se impraticável nos rotular, pois somos, apenas e unicamente, artistas, e esse tipo de gente, os artistas, são surpreendentes.
Qual é mesmo a essência da arte teatral? O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes me observa atentamente, enquanto reflito sobre esta questão, e me sussurra entredentes: “- Meu amigo você precisa concluir três espetáculos, um deles nem iniciado o trabalho, e os outros dois em diferentes estágios de pesquisa. O Ciclo de Leituras Dramáticas está com uma edição atrasada e o Suplemento Cultural Cigarra completamente emperrado, tens 1 projeto para concluir dos 4 que tem obrigação de fazer, além disso, tens 2 espetáculos na geladeira. Contudo, siga em frente, eu posso esperar.” Eu respondo envergonhado: “- Você é o único que me entende patrão. ”
Talvez seja uma parte da verdadeira essência das coisas do teatro, quando ele lhe consome, e o único compromisso prioritariamente possível seja o universo teatral. Não existem lamúrias, nunca nos abraçamos com a tristeza, se surge o pânico, e até o desespero em algum instante, comuns na ânsia da vontade de cumprir as ações, podemos traduzir nossa sempre presente superação com uma só palavra, amor.
Amar o teatro é amar toda a humanidade, de maneira transparente e contraditoriamente enigmática, apesar desse paradoxo, unicamente nós, compreendemos a importância do que nos propomos a realizar na luta pela concretização da plenitude da vida, das nossas vidas e, consequentemente, contribuindo com a existência daqueles que nos servem de assistência.
Hoje nossa aldeia, Teresina, pode dizer com tranquilidade: “- Confiamos em vocês, meninos e meninas do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes. As vezes nos chateamos convosco, porque em alguns momentos pegam pesado. Sabemos do real compromisso dessa troupe de artistas com nossa aldeia e com nosso povo, reconhecemos a vossa fé no futuro. ”
Eis a real essência do teatro, FÉ e ESPERANÇA que juntas geram compromisso, porém, existe uma luz que brilha mais que todas as outras, nessa busca por essencialidades,  e ela é eternamente o AMOR. Alguém, em um momento supremo de sabedoria, já escreveu uma carta sobre isso, ainda não aprendemos muito sobre ela, somos apenas crianças, construindo nossas fortalezas.

Dedico este texto aos autores Brasileiros de Expressão Piauiense, Roberto Muniz Dias e ao Eraldo Eudes Maia, que se encantou cidadão do Piauí. Obrigado aos dois pela fé, esperança e amor ao futuro dessa terra.

Adriano Abreu, Diretor do Coletivo Piauhy estúdio das Artes
 Teresina, Estação das Águas
2016




quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense 2016: Dias Melhores Virão?

Foto: Alysson Castro

         Ano após ano tenho feito uma retrospectiva do período que vai se encerrando na Cena Teatral Piauiense, certamente, uma única visão não contempla a diversidade de pensamentos que permeiam a questão, porém, um teatro que não expõe, de forma opiniosa suas vísceras, não é um teatro sério, então, mãos à obra:

          Como sempre, tivemos poucas estreias, demonstrando a fragilidade dos produtores teatrais locais, em manter uma continuidade e regularidade na construção de produtos cênicos, devemos destacar o “Grupo Harém de Teatro”, que consegue todos anos fazer o dever de casa, sempre apresentando novos trabalhos, em 2015 foi a vez de “Um Bico Para Velhos Palhaços”, de Matei Visniec, com direção de Arimatan Martins, comemorando os 30 anos de atividades do grupo. O Harem ainda realizou a sexta edição do FESTLUSO (Festival de Teatro Lusófono) e reestreou a “Casa de Bernarda Alba” de Lorca, finalizando as comemorações dos seus 30 anos, com a última apresentação da antológica “Raimunda Pinto Sim Senhor”, de Francisco Pereira da Silva.

            O GRUTEPE (Grupo de Teatro de Pesquisa), também, estreou o seu “Itararé a República dos Desvalidos”, remontagem do clássico texto de Afonso Lima, também sob a batuta de Arimatan. Necessário fazer merecida menção ao COTJOC- COMPANHIA DE TEATRO JOVENS EM CENA, capitaneado por Arimatéia Bispo, que além da “Mostra Teatro ao Alcance de Todos”, e da sua tradicional “Paixão de Cristo”, levou aos palcos do Estado, “ A Verdadeira História de Romeu e Julieta”, Direção Alinie Moura Do Caermo e Arimatéia Bispo, para o texto de Jean Pessoa. Outra boa surpresa foi a estréia de "Casimira Quietinha", texto de Waldilio Siso, direçao de Avelar Amorim. O Grupo Utopia de Teatro, dirigido por Chicão Borges, também, tem conseguido montar alguns trabalhos e realizado sua mostra anual. Vitorino Rodrigues e sua trupe realizaram “ZUMBEATS”, boa iniciativa para o teatro infanto juvenil. O Grupo Escalet de Teatro, da cidade de Floriano, protagonizou a 4ª Edição do Festival Nacional de Teatro e, manteve algumas montagens. Parnaíba conseguiu, também, realizar uma produção teatral ainda pequena, com os grupos de Carmem Carvalho e o Coletivo Cabaça, dirigido por Rick Costa. Além disso, algumas poucas produções comerciais, as tradicionais Batalha do Jenipapo, Paixões de Cristo, Operetas de Natal e uma ou outra iniciativa com menor visibilidade.

            O SESC-Piauí realizou duas iniciativas na área teatral: SESC Março de Artes Cênicas e Festival Pipoca e Guaraná, no entanto, uma pergunta incômoda tem pairado no ar: Por que o SESC Piauí não consegue colocar as produções locais nos seus dois projetos de circulação, Palco Giratório e SESC Amazônia das Artes? O que incomoda é que os nossos espetáculos possuem, muitas vezes, até maior qualidade dos que os que tem circulado por aqui. A Classe Teatral Piauiense, de forma organizada, deve sim em 2016, procurar explicações mais fundamentadas, por parte da Coordenação Regional de Cultura do SESC-Piauí, sobre essa questão.

           A FCMC (Fundação Cultural Monsenhor Chaves), na atual gestão, deixou o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense no vácuo de iniciativas, esperamos alguma coisa positiva no último ano da administração de Lazaro do Piauí e Firmino Filho.

          A SECULT-Piauí (Secretaria de Cultura) abre suas portas com algumas perspectivas interessantes, entre as principais estão: a recuperação dos espaços culturais da capital e interior, e a setorialização do SIEC (Sistema de Incentivo Estadual a Cultura) por áreas artísticas já em 2016, o que pode ser muito positivo para os bons projetos cênicos. O Secretário Fábio Novo, tem procurado dialogar com os produtores teatrais, tem força política e atuação na área, dessa forma, é torcer, e crer para ver.

          O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes conseguiu manter seus projetos “Fogo”, Exercício Sobre Medeia” e o Ciclo de Leituras Dramáticas (com mais seis edições este ano de 2015), ministrou seis oficinas de iniciação teatral na Casa da Cultura de Teresina com turmas lotadas, está em processo com dois novos trabalhos teatrais e mais um Pocket Show, “Música de Primeira Para Interpretes de Última”, estabelecemos uma maravilhosa parceria com o Grupo Harem de Teatro, coordenando a parte formativa do FESTLUSO. No ano que se encerra obtivemos conquistas relevantes para o cenário teatral piauiense: destacamos nosso protesto na escadaria da extinta FUNDAC, onde exigimos respeito e seriedade no trato com o artista da cena. Outro momento glorioso foi a temporada vitoriosa do espetáculo “Exercício Sobre Medeia”, no Rio de Janeiro, abrindo o “Projeto Grandes Minorias” (Teatro Glauce Rocha), a convite da dramaturga Marcia Zanellato. Fundamental e inédito para a arte do Piauí, foi a nossa participação no FILTE (Festival Latino Americano de Teatro da Bahia), onde proferimos um colóquio no Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste-NORTEA, como também, conseguimos inserir o FESTLUSO no Fórum dos Grandes Festivais de Teatro do Brasil. Além disso, o solo de Silmara Silva levou a maioria dos prêmios no 4º Festival Nacional de Teatro de Floriano, na categoria monólogos. Portanto, este ano para nós, foi de construir pontes, para integração do nosso teatro com outros criadores, pesquisadores e agrupamentos de várias partes do país.

            2016 se avizinha trazendo grandes expectativas, e o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, descortina o ano com a esperança de trazer em parceria com os grupos Harem e Oco Teatro Laboratório (da Bahia), um encontro do Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste para Teresina, este evento possibilitaria a participação de alguns dos melhores coletivos e pesquisadores do teatro brasileiro na nossa cidade, compondo as atividades de formação do Festival de Teatro Lusófono 2016. A contribuição de todas as instituições públicas, bem como, de empresas privadas, será de suma importância para o fortalecimento dessa e de outras ações nossas e do movimento teatral piauiense como um todo.

           Esperamos dias melhores para nossa arte, e o nosso compromisso, é a inserção do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, de forma orgânica, na nova cena do Teatro Contemporâneo Brasileiro, nós do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, estamos prontos.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
31 de dezembro de 2015
        

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O Medo Paralisante da Crítica




                                                                       
O Medo Paralisante da Crítica
(O Corajoso Compromisso do Atuante Iluminado)


            Ninguém é obrigado a fazer Teatro. Fortalecido por convicções muito fortes, considero que muitos indivíduos deveriam, sem remorsos, eximir-se dessa atividade humana tão prazerosa, porém, exigente de dedicação, disciplina e sacrifícios. Todavia, se o seu espírito inclina-se de maneira irrefreável para o ofício cênico, realize-o com o primor dos mestres e, pleno das motivações corretas, caso contrário, pela força do tempo que sempre revela todas as contradições, você poderá tornar-se um estorvo para a arte teatral e criar imensos problemas para si mesmo.
           Todos os artistas da cena estão sujeitos a crises e situações difíceis durante a vida profissional. O ambiente que circunda a nossa arte está repleto de muitas energias, algumas extremamente benéficas e outras abjetas. A conscientização da influência dessas forças no processo criativo, para os atuantes, é essencial na diminuição do impacto negativo que algumas delas exercem sobre o produto final do trabalho, o espetáculo. Este ensaio visa contribuir para minoração do efeito destrutivo de uma das mais poderosas influencias energéticas que atores e atrizes enfrentam: “O Medo Paralisante da Crítica”.
            Antes mesmo de entrarem em cena, alguns atuantes, literalmente congelam com o pavor de um possível julgamento contrário as suas aspirações, é como se o ato teatral fosse um crime digno de culpa ou absolvição. Absolutamente pueril e de certa forma irracional, tais comportamentos e sentimentos não são resolvidos num passe de mágica. Grande parte de nossas vidas na arte passamos criticando, as vezes ferozmente, as manifestações cênicas que consumimos. O efeito dessa prática recorrente, volta-se contra nós mesmos, então começamos a internalizar um certo pavor da não aceitação do nosso trabalho e, consequentemente, das nossas personasA vontade de atuar, confunde-se, em um grande número de casos, com a necessidade de ser amado, essa necessidade, na cabeça do artista, significa ter a aprovação (de preferência verbalizada) da nem sempre justa classe teatral em primeiro lugar (alguns forçam a aprovação e se comprazem nela), dos parentes e amigos em segundo plano, estranhamente, em último lugar, do anônimo público pagante.
          Vítimas de vaidade aguda ou baixa estima crônica, no momento do comentário, indicativo do suposto fracasso, apontado por um “colega do teatro”, alguns pensam em desistir do ofício, outros passam anos sem executar nenhuma proposta mais relevante em virtude do terror da crítica e passam a vida murmurar a eminente desgraça pelo mundo afora.
          Existe remédio para este mau? Como livrar-se da doentia dependência do elogio dos colegas de ofício, em muitos casos, como sabemos, hipócrita? Qual a cura da esquizofrênica necessidade de “arrasar” e ser reverenciado no cenário teatral no qual habitamos? A pergunta para todas essas questões resume-se em única palavra: ESTUDO.
          Quando estudamos compreendemos que o universo do teatro é bem maior que uma confraria de comadres ou um poleiro de pavões. O ato de estudar nos qualifica a entender que qualquer perspectiva cênica, inclusive a nossa (as vezes enxergamos tudo, menos o nosso umbigo), é passível de sucessos e fracassos e que ambos, são temporários, aparentes e relativos. Compreendemos, ao aprofundar o conhecimento, que fundamentar aquilo que realizamos torna-se nosso escudo contra malfadadas críticas, proporcionando-nos maturidade para aceita-las e, até incorporá-las, ao nosso aperfeiçoamento quando construtivas (aliás elas também existem). O comprometimento com nossa arte passa, invariavelmente, pela condição permanente de aprendiz e por uma dose ilimitada de coragem.
          Portadores dessa valentia percorreremos nosso caminho, enfrentando derrotas, as vezes mais valiosas que vitórias, as duas, certamente transitórias. Caminhemos destemidamente, com um sorriso nos lábios como quem diz: “- A luz que plantei em mim inundou a minha arte e, esta fonte, jamais se extinguirá."

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Fim da Estação Seca




Teresina- Piauhy

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Arte Para Liberdade da Tribo




Arte Para Liberdade da Tribo

      A arte, como tudo que se aplica a vontade e a criação humana, está se distanciando da realidade premente da longa aventura humana no belo planeta azul.
       Vivenciamos uma volta em direção ao hedonismo. Neste sentido, conclamamos aos seres que se dedicam a arte, a lutar por experiências que façam com que o humano, humanize-se. Tornar o esforço do fazer artístico uma busca pela paz e, sofrer para alcançar a paz, não é tarefa para egoístas.
       Ególatras são os artistas que veem o trabalho na arte como fonte de supressão dos ímpetos de fé e amor. Egoístas são os artistas que tornam sua arte fetiche para poucos. Orgulhosos são os que tornam suas buscas estéticas, meros objetos de repressão da força transformadora dos homens e mulheres.
         A virtude chega na arte quando coloco minhas realizações a serviço da evolução espiritual dos protagonistas e espectadores do objeto artístico. Hoje, mais que ontem, necessitamos buscar a verdade e esquecer os relativismos no campo da criação do fenômeno cênico. Aqueles que discutem a finalidade desses objetos de forma tristemente egocêntrica estão fadados a se perderem pelo caminho.
        O caminho é a cura das dores da alma, através do encontro com o Deus que habita dentro de cada um de nós. A negação do divino nas nossas existências é a negação de si mesmo.
         Preocupações individualistas distorcem o ser artista, o reduzem ao que podemos chamar: “salvador daquilo que nunca pôde salvar”. A luta é por uma cena rica de beleza da verdade.  Esse conceito regenera o povo e o concentra nas veias da iluminação.
          O princípio que deve guiar nossas ações será: O artista vive e trabalha para os homens e mulheres da tribo. Almeja que eles percorram, com relativa segurança, os vales das sombras da existência. Artistas e sociedade rumo a certeza de uma vida plena de sabedoria e conhecimento.  Quem constrói a arte são os homens e mulheres e em seus nomes ela será exercida, sem egoísmo, vaidade e com ampla firmeza no propósito da busca da verdade e harmonia com todas as coisas da Terra.

Adriano Abreu e Coletivo Piauhy Estúdio das Artes

Fim da Estação Seca

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Atuar Verdadeiramente! Ato Único de Libertação!



Atuar Verdadeiramente!
Ato Único de Libertação!


“Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. 
A liberdade não é um fim, mas uma consequência. ”

(Leon Tolstoi)



                      A liberdade do ator deve ser total. Isso é um fato inquestionável para os que buscam a autenticidade.  Todavia, o que vem a ser essa tal liberdade? Como o atuante consegue ser completamente livre para criar o seu papel, abrindo-se de forma confiante para ele, ator-doando-se nele?

                      O que aprisiona os atores e atrizes são suas percepções passivas do papel, então eles acreditam cegamente que podem se esconder por trás de alguma tradição, ou o que é pior, revoltar-se contra as tradições, considerando-as como grilhões que devem ser rompidos. Afirmo, tanto uma quanto outra posição encarceram os artistas da cena em falsas convicções.

                      Então atores e atrizes continuarão perdidos, debatendo-se ou omitindo o problema fundamental da liberdade. Vociferando, ou silenciosamente magoados, os atuantes continuam vendendo muito barato o seu inalienável direito de serem livres. Pois nenhum encenador, minimamente capaz (a praça está repleta de incapazes), aliena o artista da sua automia criativa, se assim o faz, a justificativa sempre é a omissão ou ação equivocada dos mesmos.

                      Dirigi um artista que possuía muitos recursos criativos, no entanto, fui rechaçando uma a uma as soluções que ele me apresentava para construção da personagem, é necessário ressaltar que algumas dessas soluções eram realmente muito boas, porém, eu queria algo mais daquele ator, almejava o extraordinário, vaidade de um jovem diretor que se aventura a dirigir um atuante talentoso, ele não reclamava, tão pouco se rebelava silenciosamente, como o fazem os hipócritas, apenas, trabalhávamos os dois à espera do imponderável. Foram horas naquele frenesi da criação de uma categoria essencial para os homens e mulheres do teatro, a busca suprema da verdade, onde só os verdadeiramente livres ousam chegar. Naquele exato momento, quando o caos psicofisiológico e a exaustão buscam desesperadamente a ordem, o nosso ator balbuciou uma palavra: - MÃE! Até hoje não consigo dimensionar o que aconteceu naquele exercício de cruel libertação, o certo é que naquela ação de absoluto desnudamento, a sala de ensaios ficou minúscula para tanta vibração, e eu, um pobre e jovem diretor, tonteei e não pude dizer mais nada. O atuante tinha conseguido finalmente conquistar sua alforria. Depois desse fatídico dia, realizamos a apresentação combinada, e ele nunca mais atuou.

            Onde a mentira acaba e as verdades eternas do teatro fazem morada, ali reside a liberdade de atores e atrizes. Qualquer outro discurso tradicional ou contemporâneo, conservador ou vanguardista, serão perca de tempo. Teatro é para quem tem coragem e sabe, que destruir é muito fácil, mas construir é para os valentes da vida inteira.

Dedico este texto ao ator Carlos Betão, pois sabe escutar verdadeiramente em cena, uma das mais difíceis tarefas para um atuante.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Teresina – Estação da Seca

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sobre a Memória, o Teatro e a Vida


Dedico este texto ao Centro Cultural da Barroquinha,
 local mágico, onde cometi este escrito por sobre as "ruínas da memória".



Sobre a Memória, o Teatro e a Vida

“Estas pedras se gastam com o tempo.
Vão lentamente se desgastando
e o tempo lhes sobra para as lembranças
que não conservam...”
H Dobal

            O conselho que os grandes mestres me deram é que quando o sentimento de insegurança invadisse a minha alma, eu deveria retornar as minhas origens, aos meus primeiros dias na arte.
            Como fazê-lo? Nestas “ruínas da memória” tudo parece entrecortado, as imagens vêm e vão, já não fazem mais tanto sentido, como naqueles momentos distantes. O mundo mudou, a cena não é mais a mesma e o homem em que me tornei não representa os anseios do passado.
             Lembro-me de um garoto vestido de papel celofane vermelho versejando “A Morte do Leiteiro”, auditório de escola lotado, deveria ser eu, talvez não fosse, tempos depois contemplei um casal de artistas representando a história de um sujeito que abandonando a mulher, alistava-se na Legião Estrangeira, e apaixonava-se por uma camela, recortes de um teatro ingênuo, hoje esquálido para mim.
             A primeira vez que fui a uma casa de espetáculos, dessas de cortinas vermelhas, refletores de verdade e palco de madeira, foi no desfigurado, mas ainda majestoso, Teatro 4 de Setembro, subi para o balcão no terceiro pavimento, não queria ser visto, temia que algo terrível pudesse acontecer, nada aconteceu, os atuantes vistos do terceiro piso pareciam anões, um deles imitava um cientista louco e em seguida uma leva de atores e atrizes gritavam palavras de ordem incitando a sublevação, tudo tão bonito dantes, hoje, apenas poeira de lembranças. 
              A cidade era Piripiri, sertão do Piauí, o ano não recordo, o adolescer ficara para traz, e a cena já fazia parte dos meus planos, porém, com frágeis convicções, quanto tempo perdido ou ganho em frágeis convicções? Acompanhava uma trupe teatral onde os artistas passaram boa parte do dia recolhendo galhos e flores, que comporiam um cenário improvisado, composto daquelas folhagens que certamente estariam murchas ao anoitecer. Contudo, naquela noite, veria uma coisa que impregnaria meu ser para sempre, o texto era as “Criadas” do genial Jean Genet, meu sentimento era que havia um profundo senso de ordem naquele incrível espetáculo, contrariando o caos da vida daquelas personagens. Ali, por entre flores murchas, vi três atores incendiarem a cena.
              Misteriosamente acabei trabalhando com aquele grupo por muitos anos, aprendi com eles, discordei, rompi com aquelas pessoas fantásticas, larguei o teatro, quando o grupo acabou, retornei ao ofício, fiz meu próprio caminho.
              Ainda me surpreendo, emocionado, com algumas  coisas que fiz e faço, muitas vezes não me reconheço nelas, são os enigmas desta prática mágica que é o teatro. Cometi mudanças existenciais radicais, magoei dilacerantemente pessoas, alegrei muitos com a minha arte, dei e destruí esperanças, o teatro é feito de coalizões e rupturas, amor e dor.
              Sempre lembro da humildade soberba dos grandes artistas que tive a honra de contemplar, aprecio o esgarçar do tempo me impregnando nos grandes trabalhos e, trago uma certeza; as luzes sempre se apagarão no final de tudo, nossos espectadores indiferentes, aborrecidos, enternecidos ou extasiados retornarão para uma vida que nós, gente de teatro, jamais reconheceremos como única.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Salvador – Bahia
2015

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Festival Latino Americano de Teatro da Bahia: Nomes, Processos e Reflexões.

Fotos: Sidney Rocharte e Alessandra Nohvais
                                                                                                      


“A luz do teatro é aquilo que acreditamos
 com todas as forças do nosso ser....
Isso é essencial. Acreditar!
Adriano Abreu


           Este texto é, sobretudo, um agradecimento ao Oco Teatro Laboratório, e a todos os organizadores do FILTE-BAHIA 2015, pelo convite a nós do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes (representado por mim, Adriano Abreu e pela atriz Silmara Silva) a participar do 3º Encontro do Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste - NORTEA, bem como, das demais ações promovidas pelo 8º Festival Latino Americano de Teatro da Bahia, ocorrido no período de 11 a 20 de setembro na cidade de Salvador.

           Durante o evento realizamos duas pequenas ações: o Colóquio Teatro em Estado de Magia (Uma Perspectiva na Formação do Atuante Através da Arte do Espetáculo), no segundo dia do NORTEA, que foi realizado no Espaço Cultural Xisto Bahia, e o estatuísmo de Silmara Silva, com a instalação LUME (Uma Boneca de Luz), no penúltimo dia do festival, no Farol da Barra. Ainda participamos de uma mesa redonda composta por 10 programadores de alguns dos mais importantes festivais de artes cênicas do país e, representantes da FUNARTE-MINC, onde podemos falar brevemente sobre o Festival de Teatro Lusófono, que a partir desse encontro, merecidamente, estará incluso nesse novo fórum de grandes festivais nacionais e internacionais, através do seu coordenador e curador Francisco Pelé, membro do Grupo Harém de Teatro.

           Assistimos 18 espetáculos, 15 apresentações de processos e metodologias, através do NORTEA, participamos do encerramento da Oficina de Circulação e Internacionalização de Teatro, ministrada por Marcelo Bones, onde alguns dos principais grupos teatrais da Bahia tiveram a oportunidade de apresentarem suas propostas em uma rodada de negócios aos programadores dos festivais.

            Para nós, do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, ficam muitas reflexões, como também, algumas ações que podem ser realizadas no Piauí, o que nos traz imensas responsabilidades, com a cena piauiense e brasileira:

            Na lista das reflexões, consideramos oportuno um questionamento profundo sobre o atual estado do mercado teatral brasileiro. Onde ele oportuniza os novos produtos cênicos e onde ele é excludente? Quais os horizontes e limitações para circulação e fruição dos bens teatrais na contemporaneidade? Sobre a cena teatral contemporânea é necessário aprofundar. Onde ela vibra com novos sentidos e visões? Por que em determinados momentos se entrega ao discurso vazio? O trabalho de grupo, revigora-se, ou apenas resiste a “nova ordem cultural”? As respostas a essas, e outras questões não menos pertinentes, definirão o universo teatral nas próximas décadas. E no Piauí? Como fortaleceremos as “Expressões Cênicas Piauienses”, que ainda sobrevivem fortemente calcadas em um diletantismo histórico, muitas vezes cultuado como virtude (com raras exceções)?

           Algumas ações podem ser implementadas (e já começam a ser), a partir da nossa participação no FILTE-BA 2015, que poderão contribuir para o avanço do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, avanço esse que tem nos motivado sempre, de forma programática, em um esforço cotidiano individual e coletivo através do estudo e pesquisa constantes, posicionamento político e estratégico, revelados nos nossos inúmeros projetos, ações e princípios. Portanto, dentre os possíveis desdobramentos da nossa experiência nesse importantíssimo festival podemos citar: possibilidade da realização de uma edição do Núcleo de Laboratório Teatrais do Nordeste - NORTEA no Estado do Piauí, convidando as Universidades Federal e Estadual do Piauí para o encontro, provocando, dessa forma, essas instituições para definitiva instalação do curso de teatro em suas opções de graduação; inserção de alguns espetáculos locais em grandes festivais nacionais e internacionais, como também, nas circulações e diálogos patrocinados por estes eventos, gerando formação, reconhecimento, crescimento e inovação para cena local; aprofundamento das pesquisas do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes e de, outros grupos parceiros, com a possibilidade a médio prazo, de que diretores e especialistas em artes cênicas de outros estados brasileiros possam realizar trabalhos (oficinas e montagens) conjuntamente conosco, esses intercâmbios poderão acontecer em mão dupla; fortalecimento do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, através de processos colaborativos entre grupos e pessoas, como aconteceu recentemente no 6º FESTLUSO  e na Mostra de Teatro Arte ao Alcance de Todos (Grupo COTJOC), onde o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes pôde dar uma contribuição, como grupo parceiro, nessas ações fundamentais para nossa arte.

    O FILTE-BAHIA 2015 foi construído por um número incontável de seres humanos, imbuídos de firmes propósitos na construção do Teatro Brasileiro e Latino Americano, preconizando um futuro que se avizinha forte, afetuoso, porém, com muitos precipícios e, trabalhos hercúleos a serem realizados, no sentido da sua eternização na alma da civilização. A algumas dessas pessoas, prestamos nossa amorosa homenagem, contemplando, representativamente, a todos que construíram esse “Festival Baiano de Teatralidades de Latino América”:

Espectadores: Mona e Deusi.
Atuadores: Luiz Jr, Silvero, Eddy, Márcia, Flávia, Caio, Betão, Daniel.
Encenadores: Thiago, Yuri, Alonso, Gil.
Programadores: Alaôr, Paulo de Castro, Paulo Vítor, Yasca, Alexandre, Dani, Marcelo e Sergio.
NORTEA: Saulus.
Registro: Sidney e Alessandra.
Organizadores: Marcelo (e sua poderosa Van), Carla, Margarida, Karen, Karol, Renata e Mário.
Coordenador Geral e Capitão da Nau: O Destemido Luiz Alberto Alonso.


Ao Oco Teatro Laboratório e ao  povo  baiano nosso muito obrigado!


Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Salvador – Bahia
Setembro de 2015