quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Cênico Funcional (treinamento para higiene do corpo voz)

 Após o treinamento os Atuantes são convidados a produzir um texto reverberando todas as sensações acolhidas. Segue abaixo:

1° ENCONTRO

Por Luciano Melo
Ator
Saltar no meu infinito 
A companhia é a respiração
E o seu eu autêntico
Não tem roteiro
Tem um lançar-se
Ao mistério de si e do outro
Não se poupe
Ao poupar-se retoma as amarras
O infinito é nossa aspiração
Aspiramos o inefável.

05.11.2020

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Por Deusa Sofia
Atriz

Em comparação ao início do treinamento, além do cansaço normal de um treinamento puxado, me sinto aguçada como se eu estivesse agora sensível ao que acontece ao meu redor. Vejo, sinto o sabor, o cheiro do suor...

Foi divertido, não cansei.

Na voz fiquei mais atenta aos lugares que ela vai na cabeça quando se está no limite da respiração. Tive que me concentrar e direcionar para não doer a garganta. Percebi essa completude e tentei não isolar, separar corpo e voz. Está tudo conectado!

05.11.2020

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Àllex Cruz
Ator

Hoje pude exercitar de outra maneira, transferir a respiração para as diversidades das regiões do corpo. O encontro com a concentração em meio ao caos mental. Encontro com o tônus recorrente.

05.11.2020

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Walba Soares
Ator

No início meu corpo me conecta com o espaço de forma que consigo me relacionar com tudo ao meu redor. Meu corpo livre e disponível sente o ar passando e me sentindo. Passo seguinte uma erupção no corpo como vulcão para transbordar de larvas quentes, energia. Meus pensamentos já não se conversam, mente limpa e pronta. Meu corpo não para, não cansa, que agir. Atitude!

05.11.2020

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A dificuldade de concentração foi um entrave real para mim nesse 1º dia de treinamento. O foco na respiração foi meu socorro até a metade do trabalho criativo. Na segunda parte, naturalmente, minha atenção voltou-se para o movimento das pernas e os desenhos que elas realizavam no espaço.

Adriano Abreu
05.11.2020

di


 Cênico Funcional

(Treinamento para higiene do corpo voz)


“Não pense no instrumento vocal em si, não pense nas palavras,

 mas reaja, reaja com o corpo.

 O corpo é o primeiro vibrador e ressonador. ” (Grotowski)


1. Eixo Temático


Compreensão, estímulos, reações e consciência da fisicalidade para a liberação dos impulsos do corpo e construção do bios cênico (atores e atrizes).


2. Objetivos Gerais


Deixar o corpo disponível psicofisicamente para a cena, promovendo uma superação dos limites tanto físico quanto psíquico, através da exploração de uma fisicalidade extracotidiana. Resultando assim, na busca pela eliminação dos bloqueios do corpo do atuante.


Reeducar o funcionamento do sistema respiratório para criar uma consciência no ato de respirar.


Estimular a consciência da energia corporal no intuito de dilatar, expandir e reverbera-la no espaço – tempo na criação sinérgica.


Auto conhecer sua ferramenta de trabalho: o corpo.


Adquirir equilíbrio, flexibilidade, potência, coordenação motora, agilidade e força para desenvoltura cênica.



3. Como será desenvolvido:


- Cada atuante responderá um pequeno questionário com cinco perguntas norteadoras.


- O Cênico funcional será realizado uma vez por semana (todas as quintas), e terá duração de 1h de treinamento.


- O atuante deverá chegar meia hora antes. Vir de tênis, roupas leves e confortáveis, exceto jeans. Trazer garrafinha de água e colchonete de uso individual.


- Serão usados alguns objetos pelo espaço como: mini cones, mini band, cordas, pesos, disco de equilíbrio, bolas terapêuticas e, outros...


- Ao final do treinamento, cada atuante fará um relato escrito das sensações observadas durante todo treino.



Obs: Esse é um experimento para o presente. É importante que estejamos todos presentificados para acolher a todas as sensações, descobrirmos as resistências e obstáculos que nos impedem de fluir dentro da cena. É preciso adestrar esse corpo e nos libertarmos das grades construídas por nós mesmos.



Criação do Método: Silmara Silva / Atriz

Coletivo Piauhy Estúdio das Artes



domingo, 11 de outubro de 2020

Impressões do Ator, Dramaturgo e Consultor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes Eraldo Maia sobre o Projeto "O que há por dentro?"

 Introdução

            Em Rei Lear, Shakespeare afirma que “... se concedermos à natureza humana apenas o que lhe é essencial, a vida de humanos valerá tanto quanto a de um animal...”. Para o bardo inglês, é nossa vontade de supérfluo que nos diferencia dos outros bichos. E foi em concordância com o famoso dramaturgo e movido por esse sentimento, demasiadamente humano, de querer mais, de desejar mais, de sonhar vida “superfluamente” saudável para todos, que o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes convidou trinta e dois artistas a cavoucar “no que há por dentro” e, quem sabe, garimpar, lá no fundo, as sementes que gestarão “Uma Poética para um mundo novo”. Em si mesmos genéricos, título e subtítulo da provocação propiciaram aos e às artistas que aqui se manifestaram, pensar, de modo muito particular, com quais ações e sentimentos poderiam contribuir para fazer florescer a tão desejada Poética. Seria uma Poética, cujas linhas, embora díspares em cores e gêneros, trabalhariam unidas pela saúde do todo? Seria uma poética cujas formas se tocariam de tal modo simbióticas e solidárias, que todos a reconheceriam como uma forma manifesta do bem? Seria uma Poética capaz de ler o presente e apontar responsáveis pela distopia que nos assola? Ou uma poética que, questionando o poder, nos aponta o caminho do verdadeiro viver sob um regime de comunhão? Talvez não tenhamos mesmo uma resposta segura, mas que importam as conclusões apressadas? O que, verdadeiramente, importa é que, ao nos voltarmos para dentro, estamos nos engravidando da vontade manifesta de encontramos, em nós mesmos, saídas para o impasse em que nos metemos.

            Ante a pronta resposta ao nosso preito, não poderíamos nos furtar de agradecer a todos pelo carinho e atenção com que nos brindaram e também de, com a vênia de todos, emitirmos impressões sobre o trabalho de nossos colaboradores.


Júnior Marks (ator e diretor de teatro), com a performance “ContorNU concreTU”, acredita que a verdadeira revolução está dentro de nós e nos propõe uma revisita ao que nos habita. Afirma Marks que é dentro de nós que moram todas as horas; é dentro de nós que habitam o Eu e os Meus; é dentro de nós que floresce a libido nos impulsionando à vontade de Ser... Ser... Ser.  Embora diga que está proibido florescer, Marks despe o homem e o põe a caminhar nu rumo ao desconhecido, apontando-nos que sempre haverá tempo e espaço para um novo recomeço.

Em “O último café”, Eraldo Maia (ator, dramaturgo e professor), utiliza-se de jogos semânticos para dialogar com a provocação que lhe foi endereçada. Na delícia do café escondem-se os dissabores de Zé; na dúvida de Rui, o fortalecimento das certezas de Zé; na esperança de Rui, todo o desencanto de Zé; na inocência de Rui, o amparo para a maldade de Zé. Enquanto para Rui a felicidade sempre será possível, para Zé só os que ignoram são felizes. Em meio a esse emaranhado de antíteses, Maia nos indica que uma feliz Poética para um mundo novo somente adviria do abandonar-se e deixar-se, assim, como em criança, não saber ou não saber-se.

Acorda-te, menina! Levanta-te, menina! Apela a atriz e contadora de histórias Talita Aralpe, em sua performance “Morada de Passarinho”. Essa menina que não quis crescer toca seu xilofone e clama aos quatro cantos por um novo despertar, acreditando que só a criança-passarinho poderá fazer do mundo, um ninho aconchegante para todos que nele moram.

Diz Leminski que Um homem com uma dor é muito mais elegante...  Talvez por revelar-se mais do que pretende, talvez por fazer-se mais humano do que ele próprio suporia. Em IZO-LADO-MENTE, a qual conclui fazendo-nos uma pergunta sufocante, o ator, palhaço e Drag Queen, Fagner Saraiva, reclama o tempo do abraço; abraço que apagaria o medo; abraço que nos faria plural; abraço que mataria a solitude que a todos nos apavora. Parece que para Saraiva, uma Poética para um mundo novo, seria alicerçada no reconhecimento do outro, no abraço do outro, no braço do outro.

O mundo é um útero, um grande e fértil útero, e a atriz Kelly Campelo é todo o mundo. Em sua performance “Corpo Político Povo mulher”, essa Gaya explosiva, Dama primeira do amor, abre-se generosa ao oferecimento de prazeres. E talvez seja mesmo nos prazeres sem trancas; nos prazeres sem amarras; nos prazeres aquecidos e movidos pelos requebros de um corpo-útero-mulher, que possamos encontrar os fios para o tecer de uma Poética para um novo mundo novo.

O Brado do ator e locutor Reinaldo Adriano, ao exclamar eu existo! É mais que um Desabafo em si. Existir pressupõe a presença do outro, a aceitação do outro, o olhar do outro. O espelho não nos enxerga, é a pupila do outro que se dilata e nos desenha, é o dedo apontado do outro que diz do nosso existir. Esse homem que congrega todas as cores; esse homem que se propõe despido de preconceitos; esse homem que deseja a imortalidade da essência humana, é o homem-mãe gestando uma nação de humanos siameses capazes de escreverem, a múltiplas mãos, uma Poética para um mundo novo.

O neologismo “Gorfus”, utilizado pelo ator, diretor e artista plástico Avelar Amorim, mais que nomear a performance do talentoso artista, expõe-no em vômitos. Na revelação do rosto que se despe da máscara, há um homem de vivos olhos e boca grande que golfa expulsando de dentro o desespero. Ao jogar para fora o que lhe é indigesto Amorim abre espaços, em seu ventre fértil, para um novo engravidar-se de descobertas e criatividades, que serão paridas em gorfus coloridos sobre a tela de uma nova Poética para um novo mundo novo.

A bailarina e jornalista Débora Radassi, na performance Por que tu me chamas? Corre ao encontro do desconhecido. Essa figura forte, feminina e desbravadora de futuros, vai. Mesmo incomodada por estranho chamado, a corajosa bailarina não se furta ao desafio. Há em seus passos o desejo de ter-se com o(a) outro(a), buscando, no encontro próximo, terreno fértil para a semeadura de uma Poética que revestirá de beleza os verdes campos de um novo mundo-novo..

Tudo é possível na surreal Receita democrática de Jujuba e Chicote (palhaço/a vividos por Chico Vinícius e Poliana Helena). Na sopa democrática de Jujuba e Chicote, misturam-se limões paridos de uma banana com ovos extraídos de uma maçã. Até mesmo uma vela gestada em uma cenoura seria bem-vinda à democrática Receita da alegria. Só não cabe o estranho e indigesto ingrediente, introduzido ali à revelia dos cozinheiros, por se tratar de um ingrediente avesso ao democrático sabor das sopas. Surpreendidos pelo aparecimento do indesejado ingrediente, nossos cozinheiros tomam a decisão mais difícil para bons cozinheiros: tocar fogo no livro de Receitas. A ação de Jujuba e Chicote nos alerta para a necessária tomada de decisão, antes que a democracia da sopa desande, afetada por algum estranho e indigesto ingrediente.

Assim como rios do Nordeste que hibernam na seca e renascem sob as chuvas, o ator ribeirinho Roney Rodrigues, nos evoca à luta com que se constrói uma existência. Com sua voz campestre ecoando sobre as águas do Marataoan e do Longá, Rodrigues reforça seu existir nos impelindo à defesa da cultura campesina e nos conclamando a que não deixemos morrer à margem nossas histórias. O artista nos aponta o passado como palatável sopa de letrinhas para a construção de uma nova narrativa que seria a chave mágica a descortinar um novo mundo novo.

A atriz Ana Carolina transgride os regramentos e, com a mesma tinta com que a melanina a contempla, picha angústias e dizeres pelos muros que a aprisionam. Aqui tem tijolos, e dentro de nós? Pergunta a atriz? A marca de sua mão formatada no barro - digital ancestral de uma guerreira ascendente - talvez queira nos dizer que ali sempre habitou a força da mulher. Barrada pelo “muro”, sufocada pela dureza do muro, a mão cravada no barro grita ao mundo: eu existo, eu sempre existi. Despida de vestes e reconhecendo a desorganização interna que a habita, Carolina extravasa, no ato infracional da pichação, seu gemido tantas vezes calado e nos diz que ainda não é hora de responder, mas de continuar perguntando: E dentro de nós, o que há?

O artista da dança, Datan Izaká, realiza em sua performance Carniças Sintéticas um lindo jogo antitético entre vida e morte. No mais precioso líquido, mistura de hidrogênio e oxigênio tão cara à vida, dançam carniças sintéticas: aves natimortas, marionetes manipuláveis, frutos de uma gestação fake, cuja vida só poderia vir a ser pelas ações de um artista. Só o artista pode fazer dançar pássaros mortos; só o artista pode fazer pulsar corações sintéticos. Não teria, Izaká, utilizado pássaros como metáfora para nos dizer que somos nós as verdadeiras carniças sintéticas, engessados e manipulados por um desenho de produção que nos anula o voo? Como todo bom artista, Izaká pergunta mais que responde, e isso é saudável à proposição de uma nova Poética para um mundo novo.

O ator e diretor Félix Sousa traz na performance “Saudade” a angústia de sentir-se só. São de cunho existencial suas interrogações iniciais: Para quê? Para quem? Se o teatro está vazio. Mais que ao vazio espacial, Sousa se refere ao vazio interior que habita o artista quando o outro não o aguarda. Mais que de solidão egoísta, Sousa fala da necessidade de enxergar o outro, do existir com o outro, do Ser para outro, elementos vitais quando se pretende alcançar uma Poética para um novo mundo-novo.

Assim como Sofia, ante as atrocidades da GESTAPO, o ator Dan Martins também enfrenta a difícil decisão de escolher entre possibilidades antagônicas e que lhe são tão caras. Em “Dilema”, Martins utiliza-se de breves monólogos e diálogos da “casta” social que o cerca, para nos fazer refletir sobre o ser artista numa sociedade que o vê como imoral e vagabundo. Ao parodiar Drummond explicita, Martins, outra faceta do dilema que o consome: permanecer na profissão escolhida mesmo sem a fama, o sucesso e o dinheiro tão esperados? E agora José? O Sonho acabou? São com essas reflexões que Dan contribui para o pensar na construção de uma Poética para um novo mundo novo.

Em sua Performance “Lembranças”, a artista da dança, Carla Fonseca, utiliza como Porta Voz de si o canto desafiador do Maluco Beleza: “... no momento em que eu ia partir, resolvi voltar”, diz a canção, enquanto a artista, desolada, em meio a um cenário vazio, debruça-se sobre Lembranças traduzidas em velhas fotografias. Ao nos dizer, por meio da canção, que aquilo é tudo o que lhe resta, como se a vida tivesse ficado no passado, e o presente não passasse de mero tempo vazio, Fonseca nos aponta para a necessidade de revisitar-se e encontrar outras fontes vitais de satisfação e prazer. Quem sabe, buscar no fundo do baú as velhas sapatilhas e com elas dançar para vida.

Em direção ao interior. É este o significado da palavra “Adentro” com a qual o ator e diretor Dionízio do Apodi nomeia sua performance. Ao utilizar-se dela como metáfora em dúplice diálogo com as imagens que nos propõe, Apodi convida-nos a abrir janelas no tempo e encontrar rotas de fuga à rotina burocrática. Ao revisitar velhos-novos motivos guardados a sete chaves, o artista nos convida a também fazer tocar a música que nos embala rumo ao interior de nós e dos nossos. Em sua fuga bucólica para fora e para dentro, Apodi nos diz que é preciso escapar pelas fendas do tempo, fazer-se sonho andante, e nunca parar de reescrever a Poética do amor.

Borrão de tinta nº 1 é a performance com a qual o ator e escritor Alisson Carvalho nos brinda. O artista despe-se de sentimentos ególatras e faz da tinta a protagonista de suas ações: chuva de tinta a fertilizar mão e mente criadoras; veios de tinta a regar o chão, estrelando em fractais a plataforma segura onde flutua a criação. Tinta casca, tinta invólucro, tinta útero, de onde, gestado, o artista-feto, rompe a placenta das cores, para desnudar-se, ao mundo em aquarelas.

Com apoio em Hampi, de Yma Sumac, o artista da dança Samuel Alvis nos apresenta sua performance Anticorpa. Em paisagem cenográfica escura, a figura do artista performa, sob a forte presença vocal de Yma, com quem dialoga e expõe-se dançante. Alvis não se deixa consumir pelo mundo e sua força devoradora; ao contrário, é ele, Alvis, quem o antropofagia para, digerindo-o transformar-se, transformando-o.

 Te espero em breve do outro lado da pele, diz Tânit Navarro na canção que ancora a performance “Era melhor”, da atriz Alê Matta. Entrando em comunhão com a textura da água, das flores, das folhas e experimentando as sensações que a bela canção evoca, Matta propõe-se a um diálogo com a natureza, deixando-se afetar pelo arrepio. Segura pelos muros que a protegem e vivendo com a cidade o fim de uma noite, que cede suas luzes ao fulgor do amanhecer, Matta espera, em breve, viver os ares de um novo amanhã, tecido por uma poética inspirada no sentido das coisas sentidas e que precisam, urgentemente, serem experimentadas.

A jovem atriz ,Gessy Rubim, evoca, em sua performance “Despedida”, as palavras da poetisa Cecília Meireles: Não ando perdida, mas desencontrada, para com elas despir-se diante de nós. Ao reconhecer-se desencontrada, Rubim acende a chama do procurar-se buscando forças dentro de si para o reencontro consigo mesma. Embora finalize sua performance pedindo solidão, a atriz não está a solicitar afastamento egoístico por impossibilidade de convivência com os outros, mas nos acenando com a necessidade de um instante seu, de um tempo seu com o qual possa pavimentar com novos e felizes encontros seu antes desencontrado caminhar.

Bad for you estampa a camiseta do performer Blu que, nomeia sua performance com o mais cruel dos cárceres “O cárcere mental”. Prisioneiro de si mesmo, emaranhado por fios que o ligam e o prendem ao nada, escravo da máscara que, arrancada de seu rosto, nos contempla inexpressiva, Blu, vive seu vazio às voltas com outras prisões. Talvez, sua grande advertência esteja mesmo estampada na camiseta que lhe protege o peito: se não melhorar para mim continuará também bad for you. Chama-nos, assim, Blu, a atenção para a necessidade de uma Poética que ao cuidar bem de mim, estará também a cuidar bem de todos.

O ator e diretor Rick Costa, propõe-se a dialogar com a provocação que lhe foi enviada nos perguntando: o que há por trás da máscara? Costa joga com a multiplicidade de rostos e nos mostra que sobre os mesmos olhos, muitos outros olhos podem nos compor; sobre o mesmo nariz, muitos outros disfarces nos contemplam; sobre a mesma face, muitas outras aparências podem se manifestar. Mas o que há mesmo por trás da máscara? Sob ela, tenha ela a aparência que tiver, há um homem, uma mulher; por trás dela, haverá sempre uma pessoa. Não importa se Brighella ou Arlequim; sob a máscara, mora um humano com o mesmo e universal desejo de ser feliz.

 A janela é um olho que olha o mundo, mas é também um olho por onde se olha o mundo. Helen Mesquita, trouxe para dentro de seu quarto o mundo, encerrando-o entre quatro paredes para nele procurar todos os abraços. Carregando e trazendo para si o desejo do encontro, essa artista da dança faz de seu quarto a Universa terra e vai colhendo dela todos os abraços que nela florescerem. Ao voltar-se sobre si, reconhecendo-se como um corpo em rotação, a acompanhar os movimentos desse tão caótico planeta azul, Mesquita é toda a gente, toda a gente em movimento, unida num longo, profícuo e nunca findo abraço.

Que rapaz é esse que estranho canto / Seu rosto é santo seu canto é tudo / Saiu do nada da dor fingida / Desceu a estrada subiu na vida / A menina aflita ele não quer ver / A guitarra excita pois é pra quê? O músico Caio Leon, parece ter buscado inspiração para sua performance “Correndo” na canção Pois é pra quê? de Sidney Miller. Calçando all star para sustentar-se no passo americano, ocupando tato, visão, audição com múltiplas e simultâneas tarefas, Leon expõe a desordem multifocal com que a contemporaneidade nos sufoca, impingindo-nos a nos repartirmos em pedaços para dar conta de tanta demanda. Sem tempo para o bom dia, sem tempo para a reflexão, sem tempo para ser feliz, só mesmo correndo. Corre menino, corre, corre, pois, No fim do mundo há um tesouro / Quem for primeiro carrega o ouro / A vida passa no meu cigarro / Quem tem mais pressa que arranje um carro / Pra andar ligeiro, sem ter porque/ Sem ter pra onde, pois é, pra quê?

Enclausurado entre muros, multiplicando-se por sobreposições de imagens, iluminado por uma réstia que lhe aponta um “lá fora” possível, o artista da dança José Nascimento talvez nos esteja a dizer que: por dentro há uma vontade incontida de voar, de romper todas as barreiras, todas as amarras que nos prendem; por dentro há um desejo de expandir-se em direção à luz e com ela voar. Por dentro há um artista múltiplo que luta dançando para ser e estar em muitos outros corpos. 

Ao som de um lindo solo de piano, o ator e cantor Edivan Alves nos mostra a performance Refugiarte. Com sua câmera passeando por agendas, mãos que dedilham teclas, teclado sem dedos que o acaricie, embalagens de comprimidos vazias, Alves nos mostra um traçado alegórico de seu cotidiano. Ao aportar sobre uma página ainda não escrita, estaria Alves apontando para o fim ou nos dizendo que há ainda muita história por ser contada? Ao plasmar câmera e dedos sobre uma folha em branco, estaria Alves a nos dizer que o que há por dentro é ainda incerto e impossível de se ler, por isso continuará buscando?

Tendo como fundo a cidade fantasma, a cidade sem alma, a cidade desumanizada, cenário que lembra um bairro devastado por arma química, a atriz Silvianne Lima faz, com sua performance, palavra-alma, veemente apelo à escuta, à necessária escuta de que tanto carecem negros, mulheres, indígenas, pobres e Lgbts; enfim, oprimidos em geral. Para a atriz, a palavra é Deus, mas se, como afirma o filósofo, Deus está morto, como então escutá-la? Em seu desesperado apelo, Lima nos adverte que se a palavra não voltar a dizer o passado não passará. Mas, para voltar a dizer, a palavra necessita de quem a escute. E quem escutará o canto dos excluídos se de tão excluídos já não mais cantam?

Eu evoco o sentido das coisas sentidas que precisam ser ditas. Eu evoco o sentido das coisas sentidas que precisam ser ditas. Eu evoco o sentido das coisas sentidas que precisam ser ditas. A reiterada expressão dita pelo ator e diretor Luís Carlos Shinoda, em “Notas para o novo mundo”, toca-nos a alma. E talvez seja mesmo esse o grande mote: a evocação do sentido das coisas sentidas, que nos moverá na direção da construção de um novo mundo novo. Para Shinoda e acho que para todos nós: amar, ser, aprender, cuidar são as coisas sentidas, e evocar seus sentidos, materializá-los em ações que os façam florescer deveria ser nossa grande luta. Transformar tudo isso no cuidar do outro e de nós, fará com que a esperança decantada por Shinoda se antecipe ao futuro e chegue agora, sem demora, na mais eficaz forma de cuidado: a empatia.

É bem-vinda e sugestiva a expressão Preta e Branco com que a atriz Bid Lima nomeia sua performance. Com ela, Lima nos aponta, à priori, para a ideia de apartheid entre humanos diferenciados por cor de pele e gênero. Não à toa a eficiente atriz utiliza a flor como metáfora para dizer que podem, sim, florescer pétalas pretas mesmo em solo contaminado por branquitude tóxica. Como vidas que crescem e florescem ao batuque ancestral dos tambores, essa flor-mulher-preta busca seu espaço rompendo o solo árido que o machismo paternalista e branco procura impor. Com “Preta e Branco”, Lima nos conduz a pensar que uma nova Poética para um mundo novo passará sim pelo reagir, pelo insistir, por não se deixar vencer.

Em sua performance “O saco”, o ator Reinaldo Patrício nos demonstra velha e abominável prática utilizada pela ditadura civil-militar de 1964, no Brasil. Após muito lutar, Patrício mostra-se capaz de vencer o objeto de tortura livrando-se dele, mas quando tudo parecia voltar à normalidade, e o sorrio já lhe visitava o rosto, outra vez é subjugado, mostrando que não venceu o torturador. Apelando para este final inglório, Patrício parece nos alertar que “os assassinos estão chegando, estão chegando os assassinos” e com eles suas práticas.  Acendamos os sinais de alerta, e lutemos juntos para que não encontrem por aqui espaço para atuação.

Em sua performance “Laika”, o escritor, dramaturgo, professor e palestrante ,Roberto Muniz, afirma que o que há por dentro é um enorme uivo em direção ao espaço. Contudo, Muniz parece “jogar” com a autenticidade do que lhe vai por dentro quando, propositalmente, deixa-se manipular por ordenamento exterior. Estaria o competente artista da palavra a nos alertar sobre forças externas que acabam por ditar o direcionamento de nossas ações? Estaria Muniz, chamando nossa atenção para a gravidade da marionetização de nossas vontades e desejos? Seria este “enorme uivo” um pedido de socorro do artista ante as exigências mercadológicas que nos conduzem a satisfazer-lhe o apetite em detrimento de nossas vontades?

A atriz, gestora e produtora cultural, Silmara Costa, com o ato performático “Dia 05, local de nascimento Américas”, incitou-nos a viajar pelo território América. Não por essa imensa gleba situada do lado de baixo do equador e escravizada por mãos europeias, mas pela América mulher, essa índia morena de útero fértil e beleza solar a banhar-se de sol sob as linhas do equador; não pelo território América, palco genocida do índio nativo, morto aos milhões pelo fio da espada, mas sim pela América menina que ameniza seu calor sob o veio de água a escorrer-lhe no sexo (sexo rio que alegra o sertão árido e violento do homem que a desama); não pelo território América sequestrado, roubado, depredado pelo invasor europeu, mas sim pela América amante, dama de coxas morenas orgulho latino da mestiçagem nossa. Que os deuses banhem-se nos rios de seus úteros e as engravidem de saberes e cidadania.


São Paulo, 04/10/2020, 17h e 32min.

*Silmara Silva, eis aí minha contribuição ao Coletivo Piauhy Estúdio Das Artes.

Eraldo Maia


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Angustia e Libertação


Angustia e Libertação

        “O mais urgente não me parece tanto defender
uma cultura cuja a existência nunca salvou qualquer
ser humano de ter fome e da preocupação de viver melhor,
Mas extrair, daquilo que se chama cultura,
 ideias cuja força viva é idêntica à da fome. ”
Antonin Artaud

                      Seguir a lógica infame onde a arte que devamos fazer seja do tamanho da pobreza econômica do nosso Estado de nascimento, o Piauí, nunca nos pareceu uma proposta aceitável. Sempre houve um esforço da nossa parte na realização de uma proposta artística que fosse equivalente a opressão que formata esse lugar.
                       A principal responsabilidade daqueles que se fizeram artistas é declarar, da forma mais contundente possível, através do seu trabalho, para aquilo que chamam de sociedade, sua lancinante indignação contra quaisquer ações que coloquem homens e mulheres nas sombras da indigência humana. Inclusive, visões que subjugam os próprios artistas a condição de meros sobreviventes.
                      Nas lagoas institucionais, os proprietários dos parcos recursos destinados a essa área do desenvolvimento humano, fornecem aos fazedores de cultura, a ração necessária a uma vida na arte, até o dia em que o próprio artista vire a comida.
                     Dessa forma, alguns de nós, os que possuem um sopro de sensibilidade ainda adentrando nos pulmões artísticos, revela-se a realidade: vivemos em um permanente estado de angústia, e a angústia confunde-se com o desejo de ser livre, a bruta vontade de pegar as estradas do vento. Infelizmente, esse sentimento não reside na maioria dos seres que vivem no universo da criação estética.
                      Os comensais necessitam de carne e vinho. Carne e vinho custam caro. O banquete deve ser servido para poucos. Os realizadores da cultura nutrem-se dos sobejos. Os comensais necessitam da pratica artística que justifique a impressão civilizatória. Quais os artistas desconhecem essa equação? Como pensam e agem aqueles que aprenderam e gostam de sobejar? O monstro da arte possui muita cabeças, porém, a turba cada dia mais míope, só percebe a face mais hipócrita ou mais incipiente da cultura.
                      Fazemos teatro, isso pode parecer simples, engraçado, estúpido ou até um ato de profunda irresponsabilidade, neste ambiente, onde mulheres são mortas por serem mulheres, e os homens que comentem essas atrocidades, se forem comensais do banquete do mal, jamais verão a justiça na Terra, a Justiça que faz as seguintes perguntas cinicamente: mulher ou homem? Preto ou branco? Vila ou condomínio? Artista ou político? Gay ou pai de família? Qual o credo que professas? Creio que isso justifica o fazer teatral dos pássaros, peixes e até mesmo das víboras, pois mesmo egoisticamente elas, sem querer, colaboram. Pareceu-nos coerente fazer da Cena uma forma de transmutar nosso asco por esses infelizes que representam esse estado de coisas, na vontade de aprendermos o humano de uma outra forma que não fosse essa distorção.
                     Nunca haverá arrependimento para aqueles que estão no meio dos palcos do mundo gritando ou sussurrando profecias e impropérios aos ouvidos moucos dos cidadãos da pólis. Agradecemos nossa “ração de pânico” e as mirradas politicas culturais, porque somos gratos a quem nos apoia, independentemente de suas motivações, no entanto, não existe nenhuma adesão irrefletida nessa gratidão, sabemos engolir alegremente os restos, isso faz parte do ritual do banquete, contudo, o relógio da bomba não para de girar, nossa arte é flor e vírus.
                    A angústia, semente da libertação, deverá conduzir-nos nos caminhos de vento, não perdemos a capacidade de amar. A direção será um mergulho tão forte na ventania, até o total apaziguamento.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Em homenagem ao Dia Nacional da Cultura

05/11/2017

Sobre Tristeza, Rigor e a Vontade de Voar



Sobre Tristeza, Rigor e a Vontade de Voar


“O ser humano é semelhante a um anjo que, ao cair, perdeu uma asa.
Com uma asa só, não consegue mais voar.

O que faz então?”

Abraça-se ao outro anjo que também caiu e perdeu uma asa.

Assim, um completa o outro.

Abraçados, têm novamente duas asas,

Superam a crise, erguem vôo e conseguem voar;

Se não fossem solidários e não se abraçassem, estariam perdidos. ”

Leonardo Boff


           A tristeza do anjo é não poder voar. Assim mesmo ele continua anjo.

        A linha entre o solo e as alturas não está limitada a ausência de asas. O que limita o vou é a tristeza, e a tristeza é sempre displicente. Como encontrar asas perdidas cultuando tristezas que furtam qualquer possibilidade de voar?

          Talvez fosse a estação da seca, não estou bem certo, pois esses fatos ocorreram há muitos verões, a única coisa certa, é que armamos o circo no Distrito Federal. Quando a cortina se abriu não houveram tristezas, apesar dos dois únicos espectadores que vieram ver o nosso espetáculo. Continuávamos a voar, meio atormentados, é impossível negar, porém, haviam asas e fazia muito sentido planar sobre a multidão de cadeiras vazias.

             No outro dia, ao chegarmos para apresentarmos nossa peça, havia um cartaz pregado na bilheteria cancelando nosso planejado voo. Convencemos, com enorme dificuldade, o segurança a liberar nosso acesso, atabalhoadamente entramos pela última vez no Teatro Dulcina de Moraes para apanharmos as nossas tralhas, as mesmas que eram destruídas pelos técnicos da casa ao retirarem nosso cenário daquele palco tão importante para história da cena nacional. O que sentíamos não era desalento, era uma revolta contida, adornada com misto de pavor e coragem.

         Naqueles dias insólitos, muitas coisas aconteceram, algumas a lembrança teima em relatar:

              Um dos atores com o dedo do meio em riste, em um magnífico gesto obsceno, saúda a estátua da justiça que reside defronte ao Supremo Tribunal Federal. Foi nesse dia, algumas horas antes, que o motorista do coletivo que pegamos para ver as maravilhas arquitetônicas da cidade vociferou quando descíamos do ônibus: “Não sei porque esses nordestinos imundos insistem em vir para Brasília passar fome. ”  Um dos atores da troupe replicou: “Pior é a tua situação que terá que carregar nordestinos até teus últimos dias. ” Os passageiros que assistiam tudo até então calados, aplaudiram, foi um memorável espetáculo.  Mais tarde, na torre de TV projetada por Lucio Costa, ouvimos um rapaz que nos foi apresentado dizer coisa similar evidentemente de uma forma mais educada, ao que respondemos que não fazíamos nenhuma questão de vivermos naquele lugar, as asas estavam firmes, contudo, já não haviam voos.

          Artistas de teatro são seres alados, jamais devem rastejar nos lajeiros da ignorância. O rigor nos concede a propulsão para decolagem e, como era rigoroso nosso diretor, tanto na cena como no ethos, eu era ainda mais ingênuo em 1994, não conseguia entender a sensível rudeza daquele homem. Impossível dimensionar a explosão de fúria do nosso metteurs en scène quando uma atriz do grupo, comprou um frango assado escondido e foi come-lo sozinha, trancada em um quarto. Aquilo que ele falou para ela, na maior altitude da ira naquela ocasião, foi a maior lição de trabalho em equipe, já transmitida a minha pessoa, em todos esses anos de arte. No entanto, naquele instante, só consegui achar engraçado o choro contido e patético da jovem atriz. A crueldade, no mais amplo sentido do termo, sempre fez e fará parte do universo teatral, o amor e a paixão extremada também.

                 Na manhã do último dia, vimos um espetáculo em um jardim, embaixo do bloco de apartamentos da Asa Norte, exatamente no lugar onde estávamos arranchados. A peça era uma adaptação do clássico Romeu e Julieta, feita exclusivamente para apresentações na rua, os atuantes eram muito jovens, alguns ainda na adolescência, esses garotos e garotas eram capitaneados por um diretor de idade avançada de índole bastante jovial. Aqueles artistas eram impulsionados de um rigor estético impressionante e, a pequena burguesia, desceu da tranquilidade monótona dos seus apartamentos naquele domingo, entrou no jogo e voou com a acrobática apresentação que relembrava a história de amor trágico mais conhecida do mundo. Não sei bem o que se passou na cabeça dos meus companheiros de trabalho, mas pensei que como seria bom se aquelas pessoas que aplaudiam felizes tivessem ido nos ver, evitando o nosso retumbante fracasso. Nossas asas começavam a desaparecer. O mal paira até nos momentos mais belos e a alegria nunca foi unanimidade em nenhum lugar ou momento.

               Anoiteceu e queríamos rasgar os ares do Planalto Central, o cenário será o vão da Esplanada dos Ministérios no conjunto arquitetônico criado por Oscar Niemeyer para abrigar o centro das decisões políticas da República.  O pano de fundo era um show de Axé Music ofertado a população do DF, milhares de pessoas se acotovelavam no gramado ressecado para ver e aplaudir as grandes estrelas da música baiana, naquele evento de dimensões épicas presenciamos o linchamento de um rapaz, ele era negro e muito jovem, aparentava ser de origem humilde, seus algozes traziam as mesmas características, a plateia, bem distinta do espetáculo do dia, também não podia intervir no drama que se desenrolava, a Capital Federal apresentava sua face mais brutal, o único sentimento que brotou foi a vontade de não estar mais lá.

                Meses depois o grupo foi desfeito, nossa ida para Brasília teve alguma coisa a ver com o acontecido? Creio que não.  Num dia comum de ensaio o ator mais experiente da equipe disse que ia viajar, o diretor não gostou, os dois trocaram palavras frias e duras, uma semana depois nosso líder disse que iria embora para França, apresentamos mais uma curta temporada daquele espetáculo onde os personagens se confundiram com a vida real.

              Restaram apenas as memórias, onde apoiado numa certa retidão, reconstruí delicadamente essas asas e, voei para um tempo, onde apesar de tudo, vivemos uma absurda sensação de completude.



Adriano Abreu

Diretor Teatral

              15 de novembro de 2017 / Fim da Estação Seca          

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Dança Para Uma Atriz



Dança Para Uma Atriz


“..., mas as casas não são importantes.  
As histórias que habitamos é que importam. ”
  Carta de Eugenio Barba a Jerzy Grotowski em 1°de junho de 1991


                  Pois não quero falar da atriz, tão pouco de teatro, os quereres são inúteis por vezes, gostaria de contar fragmentos do visto e vivido. Todavia, não se enganem, não é um escrito sobre palavras, as palavras perdem o sentido quando vislumbramos o mar abaixo de nós, um céu com poucas nuvens e pequenas porções de terra no meio do Oceano Atlântico.
                  Quero assobiar a cantiga para a atriz que dança, não como um ballet convencional, mas como um veleiro recortando as ondas do tempo iônico, ou uma andorinha costurando os hemisférios. O barco e as aves cheios das lutas do mundo. Assobio a canção!
                   Recolho nas prateleiras do Teatro em Estado de Magia, ações repletas da sua persona, pequenas notas dissonantes, vibrações na história onde moras, ingredientes nas porções de cura e veneno, forjando uma coreografia, dessa forma, percorro tempos e espaços onde estivemos.
                   A praça era pouco iluminada e a apresentação prejudicada pelo estupor da falta de ritmo, a plateia pouco exigente, deleitava-se com o seu peixinho, não vi nada capaz de cegar minha vaidade, sou um diretor de teatro, diretores podem ser comandados pela violência do pedantismo, ou pela paz do reconhecimento da exiguidade de todos nós, naquele instante, meu pedantismo venceu. Uma casa teatral pode ser construída com muitos tipos de tijolos, porém, só ficará de pé, se for cimentada com alguma pericia, era isso que senti falta em ti, pericia. Num determinado momento, o seu sorriso ofegante na pele de uma Nossa Senhora, bela e sofrida, na última cena do auto, mostrou-me os passos da atriz que já dançava, os tijolos precisavam do cimento.
                Ser clown era sua primordial meta. Clowns são criaturas humanas que fazem opção por habitarem em universos paralelos dessa realidade estúpida, um verdadeiro palhaço assume uma condição análoga a própria existência, era esse teu desejo, creio que seja essa sua verdadeira essência e, como sempre, foste a primeira palhaça a assumir essa condição no estado mais pobre da nação, contudo, sua inquietação é maior que qualquer cárcere, convenceu-se então: “Quero ser Medéia! ”




                As escadas eram escuras, frias e fantasmas de atrizes imemoriais circulavam por elas diuturnamente, mulheres que um dia bailaram.  Foi difícil para você escalar aquelas escadas, era sexta-feira e a sua fotografia acordou estampada em um dos mais importantes jornais do país, todavia, a estreia no dia anterior tinha sido abocanhada pela tensão, que se não controlada, engole a arte e o artífice. Esse monstro irá persegui-la por muitas eras, no entanto, naquele dia, subiste muito mais que escadas, os fantasmas urdiram a apresentação em colaboração amorosa, os técnicos do teatro sorriram satisfeitos, a plateia dançou junto e, seu espirito caminhou, de mãos dadas com grandes atrizes pela Avenida Rio Branco, sem se importar com o horror dependurado nas janelas dos edifícios, a tragédia e a comédia, guardiões no telhado do Municipal, nos causaram vertigens, depois foste embora de metrô, sem festas, autógrafos ou rosas vermelhas.
               Asas de borboletas, fustigamento, beber lágrimas, luzes azuis rompendo as costas, joelhos esfolados, uma infinidade de nãos, evitar despedaçar objetos ou chutar portas, a ira machuca o amor, ler cenicamente ou não, aceitar a limitação do outro e, suas próprias limitações, sem se macular, prazer, proteção, pavor e busca da liberdade. Qualquer um que vive como quem dança, descobre o divino na arte, reconhece a necessidade de rituais, a incorporação de sacrifícios no seu processo formativo, a complexidade do treinamento da atriz, de qualquer atriz, extrapola a sala de ensaios ou os palcos, na verdade atuadores não estudam para representar, vivem para aprenderem quem são, alguns, em raros momentos, fazem Deus falar pelas suas bocas e corpos, tornando-se santos seculares, outros, iludidos pelos esgotos de uma arte que prega a miséria, viram excrementos teatrais e humanos. A sua formação minha peregrina atriz, sempre será, revelação.

                A atriz é Lume na noite, ou um ser alado a dourar o dia com seus raios. O Farol observa a boneca que oferece luz curando. O povo simples da periferia da cidade, confessa pecados ao Anjo Barroco, o sofrimento do mundo não passa desapercebido nos que contemplam em silencio. Imobilidade em movimento, ensinam os mestres que é a mais poderosa e humilde das danças.




               Quando o ser possui uma oportunidade de mostrar qual sua profunda verdade, dimensionar para o mundo sua real potência, deve procurar não falhar, se falhar não deve sofrer e se sofrer não morrer, haverá sempre uma próxima vez, nas serras ou nas ilhas distantes, a mulher-atriz deve continuar a respirar para sempre, as vezes o peso da responsabilidade torna o sonho difícil, a vaidade dorme na mesma cama do medo da reprovação, quem assume a dança-vida-na-arte, tem obrigação, necessita acima de tudo, possuir coragem e equidade.
              Outra vez foste pioneira, agora na Hora do Ângelus, quando as janelas centenárias se abriram pela primeira vez, para que um artista exercesse um ato cênico desse local, uma atriz do povo, você, nascida e criada no morro, filha de empregada doméstica, versejava Drummond para os transeuntes da Praça do Imperador, foi contemplada pelos moradores de rua e pela alta intelligentsia da província, que ao escuta-la, não conseguiu se livrar do nó na garganta.
            Este escrito é um reconhecimento ao seu valor, mas também, bussola e freio às atrizes que aportam nessa dança-da-vida-teatro, pois se a morte nos abraçar e nos afastarmos dessa convivência, por qualquer motivo alheio as poéticas, o primeiro movimento desse solo já estará construído.
            Como se modela uma serva e rainha da arte? As fórmulas são inexistentes, contudo, os princípios as guiarão. Existe um humilde legado as jovens atrizes da nossa tribo, compartilho conforme você me mostrou: sejam capazes de influenciarem e reinventarem o carnaval, construam pontes e atravessem pântanos de desequilíbrio e sofrimento, não sejam sepultadas em vida pela pobreza, condição familiar, pelos homens, saibam com quantas fortalezas a palavra opção é construída e amem o teatro como a vida deverá ama-las. A suas aulas, lições de carinho e pânico, sua história-dança começa a virar caminho.
           Na capela da antiga fazenda de escravos você chorou tranquila e dolorosamente, insondável aquele momento, os mistérios precisam permanecer, assim como esse pas de deux que construí para nós, como se constrói um poema? E uma oração? Movimento! 

Para atriz Silmara Silva
Adriano Abreu, Diretor do Coletivo Piauhy estúdio das Artes
Teresina, 2017

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O “De Última Pocket Show” é Uma Festa!



O “De Última Pocket Show” é Uma Festa!

“Estou convencido que o ator no palco deve
se esforçar na busca da felicidade e do prazer.”
Jurij Alschitz

          Aqueles que assistiram, e até quem ainda não viu, têm falado muitas coisas sobre o nosso Projeto: “Músicas de Primeira Para Interpretes De Última”, para os iniciados, como costumamos brincar, e se popularizou, “De Última Pocket Show”. Algumas dessas pessoas nos perguntam quais os objetivos dessa iniciativa, se vamos continuar e até sugerem repertório, muitos vibram e curtem muito o “ nosso Pocket”, outros, ficam entre o estranhamento e até a indignação (risos).
         O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, ainda bem, provoca, muitas vezes sem querer, esse frisson na cena cultural piauiense, isso é maravilhoso, nesse cenário artístico local que sobrevive em meio a tanta indiferença.
          Apesar de considerarmos que esse novo e, se o cosmos permitir, permanente produto artístico falar por si, cabe esclarecermos alguns equívocos disseminados por um ou outro desavisado sobre nosso humilde projeto:
1º O “De Última Pocket Show” é um espetáculo, porém, não é um espetáculo de teatro na exata acepção do termo, apesar, de utilizar elementos cênicos.
2º O “De Última Pocket Show” não é uma banda, mas é acompanhado por uma magnífica banda composta de excelentes músicos.
3º O “De Última Pocket Show” não é um musical, apesar de possuir uma temática e uma lógica na escolha das canções, obviamente, referente ao tema escolhido. Na "Edição Número Um", apresentada diversas vezes em Teresina e no interior do Estado, o tema escolhido foi: “O Banquete do Nascimento de Eros e Afrodite”.
4º O “De Última Pocket Show” não defende um determinado estilo ou ritmo musical predominante, o nosso espetáculo é completamente diverso, democrático e jamais preconceituoso. Aliás, aceitamos sugestões de canções, nossa próxima edição será um espetáculo performativo-musical-carnavalesco: “De Última Pocket Show 1000 Volts inaugurando o Bloco Filhos de Baco) ”. Esta edição acontecerá dia 27/02/2017, segunda-feira de carnaval, no Complexo Teatro 4 de Setembro, Praça Pedro II.  
4º Os interpretes do “De Última” são atores e atrizes, não cantores profissionais, nem intencionam ser, interpretam as canções, como atuantes que são. Portanto, as performances dos cantantes e cantrizes são a alma do negócio.
5º O único e exclusivo objetivo desse “acontecimento cênico musical” é que os “brincantes” presentes ao evento, divirtam-se, porque na verdade, eles também são interpretes De Última, então é essencial para nós que a plateia cante, dance e, de preferência, dê vexame.
          Resumindo, o “De Última Pocket Show” é a forma que encontramos de celebrarmos a música, dança e o teatro. Trocando em miúdos este nosso trabalho é uma grande e dionisíaca FESTA. Compreendemos que nesses tempos de batalhas colossais, necessitamos, mais que tudo, de antídotos recheados da mais pura e cristalina alegria.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
e interprete De Última

Dedico este escrito para Bety, Tercia, Rubens, Andréia, Alexandre, Vitorino, Marks, Tay, Galvão e Hil, Roberth, Marlane, Jack, Fabio, Igor, Dona Wania, Marcelo, João, Lourdes e a todos os legítimos interpretes De Última da Nação Piauhy...