quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Festival Latino Americano de Teatro da Bahia: Nomes, Processos e Reflexões.

Fotos: Sidney Rocharte e Alessandra Nohvais
                                                                                                      


“A luz do teatro é aquilo que acreditamos
 com todas as forças do nosso ser....
Isso é essencial. Acreditar!
Adriano Abreu


           Este texto é, sobretudo, um agradecimento ao Oco Teatro Laboratório, e a todos os organizadores do FILTE-BAHIA 2015, pelo convite a nós do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes (representado por mim, Adriano Abreu e pela atriz Silmara Silva) a participar do 3º Encontro do Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste - NORTEA, bem como, das demais ações promovidas pelo 8º Festival Latino Americano de Teatro da Bahia, ocorrido no período de 11 a 20 de setembro na cidade de Salvador.

           Durante o evento realizamos duas pequenas ações: o Colóquio Teatro em Estado de Magia (Uma Perspectiva na Formação do Atuante Através da Arte do Espetáculo), no segundo dia do NORTEA, que foi realizado no Espaço Cultural Xisto Bahia, e o estatuísmo de Silmara Silva, com a instalação LUME (Uma Boneca de Luz), no penúltimo dia do festival, no Farol da Barra. Ainda participamos de uma mesa redonda composta por 10 programadores de alguns dos mais importantes festivais de artes cênicas do país e, representantes da FUNARTE-MINC, onde podemos falar brevemente sobre o Festival de Teatro Lusófono, que a partir desse encontro, merecidamente, estará incluso nesse novo fórum de grandes festivais nacionais e internacionais, através do seu coordenador e curador Francisco Pelé, membro do Grupo Harém de Teatro.

           Assistimos 18 espetáculos, 15 apresentações de processos e metodologias, através do NORTEA, participamos do encerramento da Oficina de Circulação e Internacionalização de Teatro, ministrada por Marcelo Bones, onde alguns dos principais grupos teatrais da Bahia tiveram a oportunidade de apresentarem suas propostas em uma rodada de negócios aos programadores dos festivais.

            Para nós, do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, ficam muitas reflexões, como também, algumas ações que podem ser realizadas no Piauí, o que nos traz imensas responsabilidades, com a cena piauiense e brasileira:

            Na lista das reflexões, consideramos oportuno um questionamento profundo sobre o atual estado do mercado teatral brasileiro. Onde ele oportuniza os novos produtos cênicos e onde ele é excludente? Quais os horizontes e limitações para circulação e fruição dos bens teatrais na contemporaneidade? Sobre a cena teatral contemporânea é necessário aprofundar. Onde ela vibra com novos sentidos e visões? Por que em determinados momentos se entrega ao discurso vazio? O trabalho de grupo, revigora-se, ou apenas resiste a “nova ordem cultural”? As respostas a essas, e outras questões não menos pertinentes, definirão o universo teatral nas próximas décadas. E no Piauí? Como fortaleceremos as “Expressões Cênicas Piauienses”, que ainda sobrevivem fortemente calcadas em um diletantismo histórico, muitas vezes cultuado como virtude (com raras exceções)?

           Algumas ações podem ser implementadas (e já começam a ser), a partir da nossa participação no FILTE-BA 2015, que poderão contribuir para o avanço do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, avanço esse que tem nos motivado sempre, de forma programática, em um esforço cotidiano individual e coletivo através do estudo e pesquisa constantes, posicionamento político e estratégico, revelados nos nossos inúmeros projetos, ações e princípios. Portanto, dentre os possíveis desdobramentos da nossa experiência nesse importantíssimo festival podemos citar: possibilidade da realização de uma edição do Núcleo de Laboratório Teatrais do Nordeste - NORTEA no Estado do Piauí, convidando as Universidades Federal e Estadual do Piauí para o encontro, provocando, dessa forma, essas instituições para definitiva instalação do curso de teatro em suas opções de graduação; inserção de alguns espetáculos locais em grandes festivais nacionais e internacionais, como também, nas circulações e diálogos patrocinados por estes eventos, gerando formação, reconhecimento, crescimento e inovação para cena local; aprofundamento das pesquisas do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes e de, outros grupos parceiros, com a possibilidade a médio prazo, de que diretores e especialistas em artes cênicas de outros estados brasileiros possam realizar trabalhos (oficinas e montagens) conjuntamente conosco, esses intercâmbios poderão acontecer em mão dupla; fortalecimento do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, através de processos colaborativos entre grupos e pessoas, como aconteceu recentemente no 6º FESTLUSO  e na Mostra de Teatro Arte ao Alcance de Todos (Grupo COTJOC), onde o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes pôde dar uma contribuição, como grupo parceiro, nessas ações fundamentais para nossa arte.

    O FILTE-BAHIA 2015 foi construído por um número incontável de seres humanos, imbuídos de firmes propósitos na construção do Teatro Brasileiro e Latino Americano, preconizando um futuro que se avizinha forte, afetuoso, porém, com muitos precipícios e, trabalhos hercúleos a serem realizados, no sentido da sua eternização na alma da civilização. A algumas dessas pessoas, prestamos nossa amorosa homenagem, contemplando, representativamente, a todos que construíram esse “Festival Baiano de Teatralidades de Latino América”:

Espectadores: Mona e Deusi.
Atuadores: Luiz Jr, Silvero, Eddy, Márcia, Flávia, Caio, Betão, Daniel.
Encenadores: Thiago, Yuri, Alonso, Gil.
Programadores: Alaôr, Paulo de Castro, Paulo Vítor, Yasca, Alexandre, Dani, Marcelo e Sergio.
NORTEA: Saulus.
Registro: Sidney e Alessandra.
Organizadores: Marcelo (e sua poderosa Van), Carla, Margarida, Karen, Karol, Renata e Mário.
Coordenador Geral e Capitão da Nau: O Destemido Luiz Alberto Alonso.


Ao Oco Teatro Laboratório e ao  povo  baiano nosso muito obrigado!


Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Salvador – Bahia
Setembro de 2015

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Teatro Para Pensar o Piauí! Teatro Para Pensar o Brasil!





Teatro Para Pensar o Piauí!
Teatro Para Pensar o Brasil!

“...fica a certeza de caminhar
em linha reta,
não fugir nunca.
remar contra a corrente, lutar
sem temer os golpes sujos dos que rastejam,
cães roendo os ossos da omissão.
fica a ânsia, o sangue queimando nas veias
até o último momento.”
Paulo Machado

          No mês de julho de 2015 o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes apresenta seu solo “Exercício Sobre Medeia” no Estado Rio Janeiro, no histórico Teatro Glauce Rocha, como convidado a compor o quadro de espetáculos de um Projeto denominado Grandes Minorias, que segundo sua idealizadora, a dramaturga carioca Marcia Zanelatto, apresenta: “um panorama de teatralidades que surgem a partir desse tema, buscando mapear as questões sócio-políticas da contemporaneidade brasileira através da cena, revelando um novo teatro engajado, emocionalmente engajado, que tenha potência poética e pensamento capazes de confrontar a indiferença e a insensibilidade que congelam as relações do indivíduo com o outro e com seu tempo e podem mesmo levar uma sociedade ao terror e a barbárie.”  Motivados por visões como estas construímos o nosso Coletivo, com ações e reflexões intensas e ininterruptas, capazes de gerar forças consideráveis, arrancando da letargia o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense e, ao mesmo tempo, estabelecendo relações com outros agrupamentos, filosofias e éticas da cena nacional e mundial.
           Necessário fazermos uma breve digressão, para que possamos compreender os porquês dessa potência poética, desse engajamento emocional, o porquê do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes fazer parte do Projeto Grandes Minorias: o primeiro fator preponderante que nos alinha com o pensamento desse importante evento cênico do Rio de Janeiro e do Brasil é o fato de acreditarmos que nenhuma estética ou linguagem teatral possa comunicar, refletir ou interferir na realidade se vier desprovida de amor ao teatro. Isso significa que não desejamos o vazio de uma proposta meramente bela ou interessante, para o deleite da sociedade pagante. O que nos interessa é restituir a nossa arte algo perdido nos porões de uma visão meramente conceitual. Queremos o teatro do teatro, e a alma que saia pela boca das artes cênicas é a força da atuação.
           Temos nos esforçado, coletiva e individualmente, no sentido da formatação de um modelo de atuante teatral que se compreenda como proletário da arte, um cidadão artista comprometido, intrinsecamente, no combate a tola vaidade, inércia, egolatria e loucura. Defendemos uma perspectiva de homens e mulheres de teatro empenhados na sua própria cura psicossocial e espiritual, como também, com a cura das chagas do mundo. Como plataforma para o alcance desses objetivos tão nobres, nos esforçamos incessantemente, no esmero técnico, estético e conceitual. Essa forma de comportamento traduz o fazer cênico como ação política e atitude existencial.
           Nos últimos cinco anos concebemos e apresentamos três grandes espetáculos: “O Rouxinol e a Rosa”, livre adaptação da obra de Oscar Wilde, “FOGO”, livre adaptação do texto homônimo do piauiense Vítor Gonçalves, “Exercício Sobre Medeia”, bricolagem de textos de autores diversos, inclusive da atriz Silmara Silva, dezesseis leituras de textos, através do nosso Projeto Ciclo de Leituras Dramáticas, envolvendo cerca de 20 atores e atrizes convidados, lançamos um número do Suplemento Cultural Cigarra (o segundo em breve estará sendo lançado),  ministramos diversas oficinas teatrais, sempre com a coordenação de Silmara Silva, fomos destaque no 21° Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga, um dos mais importantes eventos do teatro nordestino, escrevemos dezenas de artigos  e ensaios sobre teoria teatral e política cultural, colocando a reflexão e o debate sobre esses assuntos na ordem do dia, fizemos apresentações em vários projetos como SESC Aldeia Guajajara em Caxias-MA e circulação estadual pelo SESC Março de Artes Cênicas, prestigiamos praticamente todos os espetáculos teatrais produzidos em Teresina nos últimos anos, inclusive colaborando tecnicamente em muitos deles, ganhamos praticamente todos os prêmios  locais na área teatral, bem como, tivemos nossos Projetos aprovados em todos os editais locais de incentivo as artes (em alguns nunca recebemos o valor devido), promovemos encontros e debates, protestamos pública e artisticamente quando nossos direitos foram aviltados pelas Instituições oficiais de apoio à cultura e, finalmente, fomos convidados a Participar do Projeto Grandes Minorias.
            Consideramos nossas atividades ainda muito tímidas, contudo, olhando com certo distanciamento, fica claro que ampliamos muito o limite do possível, tendo em vista, a ausência quase completa de apoio das Instituições Municipal e Estadual de Cultura. Sendo muitas vezes incompreendidos por setores menos atentos e recalcitrantes da Gestão Cultural Pública e até mesmo da classe artística, avançamos sem cessar.  Quando nos perguntam de onde vem o talento e o brilho do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, respondemos sem pestanejar que provem das forças que regem o universo, de tudo que é autêntico, digno, bom e justo. Dessa forma seguimos como no poema a Raça do poeta H Dobal:
“Como fogo dormido
se faz a semente
que gerou esta raça
sem foro de ódio
de igual para igual”

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Especialmente para os anais do Projeto Grandes Minorias – Ocupação do Teatro Glauce rocha

Rio de Janeiro 8 de julho de 2015

quarta-feira, 27 de maio de 2015

A Minoria Dentre as Minorias (Micro Ensaio Sobre a Busca de Luz)




A Minoria Dentre as Minorias
(Micro Ensaio Sobre a Busca de Luz)
“Não sou feliz, mas não sou mudo:
hoje eu canto muito mais.”
Belchior
            As artes cênicas, como toda e qualquer atividade humana produtiva, carecem de profundidades, luzes e reflexões, como uma nau a navegar cautelosamente entre arrecifes, nos propomos a encarar a cerração. No microcosmo “Expressões Cênicas Piauienses” coexistem motivações, comportamentos e visões diferentes.
       Alguns tentam impor esdrúxulos pensamentos, fazeres e ações para o conjunto dos artistas da cena e para própria sociedade. Esta prática é comum, em parte significativa daqueles homens e mulheres que assumem fanática e irrefletidamente, gozando no genérico e escorregadio auto rótulo do ser contemporâneo. Evidente que existem produtos de valor nessa seara, todavia, sobram obtusidades e produtos que de arte só possuem o desejo dos idealizadores.
       A grande maioria, dos nossos colegas da cena, são preguiçosos ou conformados demais para verticalizar estudos e pesquisas que conduzam a algum horizonte. Sobrevivem na superfície dos atos cênicos, a cata de inclusão no mundo da arte, ou em geral, na luta inglória por meia dúzia de trocados. Muitos limitam-se a não fazer praticamente nada, realizando de quando em vez, migalhas artísticas, na doce ilusão da pomposa denominação de artista.
       Neste minúsculo e, paradoxalmente, vasto cenário coexistem ainda aqueles que se esforçam, esquizofrenicamente, pelo reconhecimento, traduzido em falsos e vazios elogios da “classe artística” ou de um público, muitas vezes de gosto adulterado. Pobres criaturas que sobrevivem em estado manicomial e, por mais incrível que pareça, são considerados por muitos incautos como os verdadeiros artistas desse rincão.
       Poucos, bem poucos, guerreiam para agregar alguma essência aos seus atos cênicos e, consequentemente, as suas vidas. Enxergo o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes nessa trincheira, A Minoria Dentre as Minorias, um grupo reduzido de artistas que não se encantou pelo canto das sereias da ilusão, inércia, conformismo e desespero. Fazemos parte de uma categoria que é taxada de caretas, mas também, de arrogantes, certinhos demais e difíceis, ultrapassados para alguns e vanguarda para muitos. Sei que trazemos entranhado no nosso modus faciend características de cada uma dessas faces que habitam as cênicas no nosso “longínquo” território, porém, é correto afirmar, a luta é diária para nos afastar daquilo que não nos serve como farol, até porque, na plenitude da escuridão só é possível aprofundar a mais absoluta treva, e é necessário encontrar um pouco de luz para que não atrofiemos o olhar.
         
Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes (fim da estação das águas do ano de 2015)


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ateliê de Atuação- Texto 2: Por que devo trabalhar corpo e voz para atuar? Porque sem esse corpo e voz lavrados você será um atuante com menores recursos expressivos.



Ateliê de Atuação

- Neste segundo texto do Ateliê de Atuação abordamos aspectos relacionados a preparação corpóreo-vocal do atuante: visões, reflexões e procedimentos.

Por que devo trabalhar corpo e voz para atuar? Porque sem esse corpo e voz lavrados você será um atuante com menores recursos expressivos.

        Antes do desenvolvimento de qualquer raciocínio, é necessário esclarecermos, a afirmação recorrente, por parte da maioria dos modernos teóricos do teatro, da existência de um corpo-voz realizador das tarefas diárias (caminhar, comer, sentar, conversar, etc), aquele que procura sempre o menor esforço energético possível, e a adaptação as rotinas individuais normalmente executadas. Esse corpo-cotidiano (termo amplamente utilizado pelo ator e diretor Eugenio Barba), também, é movido por uma série de injunções e sugestões socioculturais que fazem com que executemos, ações corpóreo-vocais, facilitadoras da aceitação e identificação com os grupos, valores, regras e situações vivenciais que nos torna parte integrante de uma comunidade. Essa configuração corporal e vocal naturalista, não corresponderia (segundo este pensamento), as necessidades das artes cênicas na contemporaneidade. Diante dessa informação, podemos inferir que existe um corpo-cênico e uma voz-cênica. Portanto, em contraposição a esse bios-natural (cotidiano), seria possível a construção de um bios-cênico, que segundo o mestre italiano, diretor do Odin Teatret, seria: “Uma qualidade de presença que estimula a atenção do espectador... um núcleo de energia, uma irradiação sugestiva e sábia... que captura nossos sentidos”. Esse corpo, utilizaria técnicas extracotidianas do corpo, onde as características principais seriam um “esbanjamento de energia”, “artificialidade crível” e uma presença marcante do atuante, capaz de atrair e dialogar de forma total com espectador mais exigente.
         Para Barba, esse bios-cênico, seria o corpo forjado em um treinamento pré-expressivo (como separar pré-expressivo do expressivo?), um corpo-voz ideal para representação, pois estaria liberto das imposições socioculturais, bem como, apto a realização de atos teatrais autênticos, através de gastos relativamente grandes de energia manipulada, conseguiria imprimir conteúdos simbólicos e vibracionais as suas ações cênicas.
        A prática tem me convencido, a impossibilidade da existência e construção de um bios-cênico 100% puro e eficiente, como também, tenho reparado, em algumas situações, corpos-cotidianos sem nenhum treinamento pré-expressivo, movimentando vibrações energéticas, conteúdos emocionais, imagéticas e simbólicos de alto teor cênico. Feitas essas considerações, podemos afirmar, que a distinção entre um bios-natural e outro, ideal a arte representacional (um bios-cênico), serve, indubitavelmente, como um excelente pré-texto para o atuante desejoso de estabelecer rotinas de treinamento corpóreo-vocal efetivas, no entanto, como em quase tudo na arte teatral, é necessário relativizar. Apesar da enorme influência e, das incontestáveis contribuições de Eugênio Barba, muitas de suas afirmações sugerem mais uma pragmática, utilizada eficientemente nos seus trabalhos, do que fatos irrefutáveis. Lamentavelmente, supostas “verdades absolutas”, são utilizadas indiscriminadamente e, sem as necessárias reflexões (e adequações), por parte de uma legião de artistas e grupos.  
          O fato irrefutável é que para um ator, atriz ou performer com amplas possibilidades físicas e vocais, conseguidas através de constante treinamento técnico-teórico orientado e fundamentado, torna-se, via de regra mais fácil, responder aos estímulos, problemas e situações expressivas com mais presteza e eficiência, que um atuante que ignore ou despreze tais necessidades. Utilizo para essa construção um termo na minha opinião mais realista, corpo e voz lavrados, aquele cujo sujeito-artista, através de intenso treino-criativo, consegue identificar e superar dificuldades físicas e vocais recorrentes na sua prática artística, como também, coloca seu corpo e voz disponíveis a um modelo criacional extremamente exigente, extenuante e, ao mesmo tempo, poético.
          Cada artista ou equipe criativa, possuem visões e necessidades especificas de trabalho físico-vocal, que irão de encontro as perspectivas, interesses, limitações e potencialidades daquilo que estão desenvolvendo como produto cultural.  O LUME, Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, Oco Teatro Laboratório e a Pequena Companhia de Teatro por exemplo precisam, certamente, de treinamentos de atuantes diferenciados, pois suas verdades, visões, sonhos e demandas são diferentes. Todavia, existem princípios, aplicados em todos esses agrupamentos, nas suas preparações corpóreo-vocais, que serão semelhantes. Neste sentido, a lavratura corpóreo-vocal consiste em um trabalho sistemático e processual por parte dos atuantes em suas realidades criativas, onde através de um reconhecimento íntimo de seus desejos, objetivos, barreiras e ideais esculpem seus corpos e vozes, como artesãos-artistas, pois o que está em jogo é a capacidade expressiva e artística que sirva efetivamente aos seus atos cênicos e, não somente, um mero acúmulo de técnicas e habilidades. Lavrar o corpo e a voz é, acima de tudo, um exercitar o essencial, relacionando-os a uma visão de arte e a uma pesquisa teatral. 
        Trabalhar a fisicalidade do atuante, requer atividades grupais e individualizadas com foco em aspectos como: respiração, flexibilidade, força, precisão, resistência, conciência e controle corporal, diminuição do tempo de resposta entre estímulo e reação corporal,  etc.  Indispensável no trabalho vocal atividades de desenvolvimento da respiração, projeção, domínio, ressonadores, performance, ritmo, flexibilidade, intensidade, resistência, dicção, prosódia, concordância, etc. Todos estes trabalhos devem levar em consideração nuances menos objetivas dos que as citadas anteriormente mas que são pilares fundamentais dessa práxis, entre elas: energia, conteúdos simbólicos, história e necessidade individual de cada atuante e claro, integração com a pesquisa teatral desenvolvida. Fundamental salientar que corpo e voz devem ser trabalhados de forma integrada, tendo em vista, formarem um todo indivisível.
          As atividades, exercícios, jogos e laboratórios podem ser os mais variados, dependendo apenas das condições materiais, interesses e necessidades dos sujeitos-artistas envolvidos no processo de pesquisa cênica, podendo variar, da esgrima ao pilates, do wu-shu a prática do basquete, do canto ao gramelot, da dança clássica a contemporânea. O importante são os princípios que fundamentam a ação e as atitudes dos indivíduos perante as práticas desenvolvidas, que devem ser sempre de aceitação, espírito investigativo, humildade, prazer consciente durante as práticas corpóreo-vocais, como também, utilização do treino criativo como mediador entre o autoconhecimento e ampliação das possibilidades criacionais e expressivas.
          No Coletivo Piauhy Estúdio das Artes acreditamos que um corpo e voz lavrados, seria aquele que consegue corresponder as necessidades cênicas dos produtos culturais desenvolvidos pelo grupo de forma confortável, estabelecendo processos comunicacionais significantes com os espectadores e parceiros de cena, sem ruídos estranhos a essa comunicação, que é sempre sinestésica, imagética, vibratória, cognitiva e emocional.
         O campo da pesquisa corpóreo vocal do atuante em situação de representação é imenso e aberto, necessitando de artistas pesquisadores comprometidos com sua evolução, em geral, essa responsabilidade é atirada somente nas mãos do diretor ou professor.  Individualmente, é importante refletir, sobre o oportuno questionamento de Carlos Simioni (membro fundador do Núcleo de Pesquisa LUME): “Se a inspiração fosse a mão divina, teu corpo está preparado para receber a mão divina?”  Todavia, isso tudo, ainda é apenas uma pequena parte do ofício de atuar.   
Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes (fim da estação das águas do ano de 2015)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Ateliê de Atuação (texto -1): Por Onde Começar? Pela Concentração de Suas Forças Criativas!





Ateliê de Atuação

- Corresponde a uma coletânea de textos sobre o trabalho do atuante, seus desafios, perspectivas metodológicas, proposições éticas, técnicas e filosóficas relacionadas aos princípios norteadores da produção do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes.


Por Onde Começar? Pela Concentração de Suas Forças Criativas!


            Os atuantes que trabalham no Coletivo Piauhy Estúdio das Artes são persuadidos da necessidade de desenvolverem um método de trabalho atorial. Sabem, também, que a exigência primeira, o princípio e fundamento dessa forma de trabalhar é a Concentração das Forças Criativas de quem atua.
           A palavra metodologia (arte de dirigir o espírito na investigação da verdade) tem sido negligenciada por atores, atrizes e performers reiteradamente. Representar ou performar, para muitos, depende única e exclusivamente de talento, ideias pré-concebidas ou da frágil perspectiva da inspiração. Grotowski afirmava, e eu concordo nesse ponto integralmente com ele que: “... o teatro tem certas leis objetivas e que a satisfação está vinculada a obediência dessas leis...” Essencialmente, uma é indispensável, podendo ser traduzida da seguinte forma: “Na ausência de uma concentração inabalável por parte do atuante é praticamente inviável um ato cênico autêntico e transformador (grifo meu)”.
         Apesar da obviedade de tal constatação, faz-se necessário, algumas elucidações sobre a questão:
1ª A Concentração das Forças Criativas não acontece de forma automática (como um dispositivo plug and play), trata-se de elemento processual de difícil “instalação” e aquisição.
        Infelizmente, esse recurso metodológico usado de forma consciente como princípio norteador da função de atuar e fundamento essencial do trabalho cênico, não se “instala” ao bel prazer dos atores, atrizes e performers, pelo contrário, acontece por saltos quantitativos e qualitativos de acordo com as características de cada indivíduo somados a complexidade das ações artísticas a serem realizadas. Conheço alguns atuantes que começam seu processo de concentração horas e, até mesmo dias, antes do ensaio ou apresentação. Cabe a cada artista descobrir suas necessidades, limitações e potenciais para o fortalecimento e efetividade de sua concentração.
2ª Para concentrarem-se criativamente os atuantes precisam desenvolver algumas atitudes, competências e habilidades, portanto, tal capacidade não nasce com o indivíduo, ela   pode e deve ser “treinada”.
       Podemos afirmar que no campo atitudinal a aceitação das condições objetivas e subjetivas ao desenvolvimento da criação é mesmo condição indispensável para sua realização. No entanto, tal atitude de aceitação, não pode ser subserviente, isso significa que devemos sempre lutar por melhores condições para realização do ato criativo. Porém, se reagirmos, intempestivamente, as inadequações recorrentes no nosso ofício, melhor seria, abandonar o fazer artístico, tendo em vista, essas condições quase sempre estarem longe do ideal. Portanto, o que afirmamos, é que se no momento exato do desenvolvimento do trabalho criacional, imprimirmos nuances de rebeldia infantil ou exacerbação de uma criticidade ingênua, tal atitude dificultará, ou tornará inexequível a instauração de sua concentração.
        Ser competente para concentrar-se significa, entre outras coisas, ter prazer em resolver problemas de forma criativa, saber dialogar com o tempo e espaço cênico, bem como, com os demais elementos da ação teatral ou performativa, para tanto, o atuante deverá possuir uma certa resistência a fadiga, domínio e aguçamento dos sentidos e uma mente racionalmente aberta a abstração. Além disso, buscará introjetar no seu bios-cênico habilidades interpretativas mais profundas capazes de subjetivação e ressignificação, bem como, imaginatividade e intuição afinadas, que o levem a corporificar, corretamente, a mensagem a ser (re)passada a equipe criativa (no momento dos ensaios e laboratórios) e aos espectadores na apresentação pública do produto cultural.
3ª Esse fundamento, acima de tudo, exige integração de todas as energias psicofísicas, sensoriais para sua consecução.
      Compreendemos que qualquer desequilíbrio corporal, psicológico, sensorial ou precariedade na compreensão das reações e intenções exigidas na execução do objeto cênico a ser construído, não se coadunam com processo de aquisição da Concentração das Forças Criativas. Explicitando, podemos afirmar, que problemas físicos (como má preparação ou doenças), emocionais, resistência ou má interpretação aos estímulos inerentes ao trabalho, descrença ou desconfiança naquilo que faz, baixa estima, meio ambiente inadequado, etc, podem dificultar e inviabilizar a aquisição desse fundamento. Como podemos ver o problema da Concentração das Forças Criativas é bem mais amplo do que parece e, como em tudo nas artes cênicas, não pode ser reduzido a superficialidade.  
         Alguns atuantes dificilmente alcançarão um nível satisfatório de concentração, em virtude das dificuldades na compreensão e implementação das nuances citadas anteriormente, dificuldades reforçadas por estruturas de caráter que também prejudicam este elemento tão complexo. Pessoas excessivamente inseguras ou vaidosas, estarão constantemente pré-ocupadas no que os circundantes estarão pensando sobre eles, dificilmente conseguirão, estados de atenção e objetividade satisfatórios. Elementos que nutrem de forma contumaz condutas reativas ou um racionalismo sectário em detrimento do medo de perder o controle que supõem ter sobre suas personas, terão muitos impasses na aquisição da concentração criativa. 
       Concentrar-se nas cênicas é um “abandonar-se” a um encontro mais profundo com um ser indivisível que nada mais esconde, isso exige humildade, generosidade   e uma enorme dose de coragem. Denominamos ator-doamento este momento, em que o artista através da integralização de todas as suas energias, consegue transcender a si próprio. Nestes instantes sublimes o atuante está pronto a constituir-se na própria arte da qual é oficiante. Todavia, isso tudo, ainda é apenas uma pequena parte do ofício de atuar. 
Adriano Abreu

Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes (fim da estação das águas do ano de 2015)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014



Diálogos de Pedagogia Teatral

- No Último Diálogo de Pedagogia Teatral elucidamos como são realizados os processos de construções de espetáculos na perspectiva do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes.

4º Diálogo
Construindo Atos Teatrais Autênticos
 “Não o esqueça, homem: tudo o que você é, tudo o que você quer,
tudo o que você deve, parte de você mesmo.”
Johann Pestalozzi
           
        Processos de construção de espetáculos cênicos que utilizam atuantes com sólida formação cultural e profissional, diretores que compreendem a necessidade da realização do seu trabalho numa perspectiva dialógica, estruturado sob condições econômicas, técnicas e tecnológicas ideais, traduz uma realidade ainda distante no Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, bem como, na enorme maioria das expressões teatrais Brasil afora.
        Diante dessa constatação não devemos estacionar na conformação de nossas fragilidades, menos ainda no espírito utilitário das ideias comodistas, como os contumazes amantes do menor esforço, lucro fácil, vacuidades, plágio e outras concessões ainda mais inferiores que não seria construtivo lembrar, porém, é o que temos encontrado em boa parte das produções locais e nacionais no teatro contemporâneo. Afinal, o tudo e o nada agora são arte, pois o que dizem ser arte, necessariamente deve ser e, os que discordam, são taxados de arrogantes, conservadores e antipáticos. Continuarei discordando; no teatro e na vida detesto embusteiros. A lisonja, mentiras e ilusões levaram nossa arte para qual lugar?
       Deixando de lado essas quixotescas críticas, pois nada resolvem, e nos afastam do objetivo principal: a possibilidade da consecução de espetáculos teatrais qualificados, através de um envolvimento visceral da equipe criativa com o produto cultural que pretendem inventar coletivamente, utilizando muita racionalidade, um certo de grau de pragmatismo, ética e disciplina ilimitadas voltadas para criação de uma estética.
         Nós do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes temos procurado desenvolver uma práxis de montagem que acredita no atuante como Partícula Essencial do Trabalho Cênico, portanto, o treinamento dos atores e atrizes, parte de uma visão formativa desses elementos, em detrimento das dificuldades técnicas e culturais identificadas em cada um deles, consumindo a maior parte das nossas preocupações, bem como, parcela considerável do tempo gasto nas atividades criativas da equipe; ilustrando, teríamos o seguinte gráfico:


             Essa configuração significa perdas e ganhos, ou seja, se os nossos atuantes sedimentam, progressivamente, melhoria técnica, teórica e conceitual, por outro lado, o Coletivo não consegue avançar rapidamente em outras áreas importantes: como aumento dos recursos financeiros,  melhoria dos aspectos de divulgação, propaganda e organização burocrática, isso sem mencionar, um aumento considerável do tempo gasto em uma montagem, no entanto, foi a solução encontrada para fortalecer o nosso produto final, explicitando, um espetáculo onde a atuação seja, o máximo possível, homogênea (todos os atores e atrizes no mesmo nível de representação), vibrátil e corporificada com a mensagem a ser repassada.
            Ao contrário das outras organizações teatrais do nosso estado, até onde temos notícia, acrescentamos outras fases nos processos de construção de espetáculos (ver 1º Diálogo), fator que também dilata o tempo de concretização das nossas produções, dessa forma, temos os seguintes extratos em uma montagem:
- Estudos bibliográficos e de campo do diretor (permanentes e diários).
- Treinamento e outras atividades formativas dos atuantes (permanente).
- Formatação de Projeto de Montagem (plano escrito).
- Laboratórios de pesquisa, descoberta e apropriação de linguagens.
- Montagem propriamente dita (organização das linguagens em forma de espetáculo).
- Desmontagem (trabalho do atuante em criar por dentro de uma forma definida).
- Execução da parte visual do espetáculo (iluminação, figurinos, maquiagem, cenografia, ambientação sonora, etc).
- Ensaios gerais de afinação (de 5 a 10 ensaios).
- Estreias.
- Avaliação depois do contato com os espectadores.
- Ensaios posteriores de manutenção, enxugamento e revisão de linguagens.
             Essas fases (ou extratos) ocorrem, em geral, simultaneamente, porém, nunca são subtraídas dos processos criativos, tendo em vista, já fazerem parte de um sistema de construção cênica que têm se mostrado exitosa ( no processo e no resultado) podendo, sem sombra de dúvida, ser utilizada por outros grupos que ensejam um trabalho sério e frutificador,  guardando evidentemente as características, interesses, facilidades e dificuldades inerentes a cada equipe criativa, até porque, não é do nosso interesse, fazer proselitismo sobre nossos métodos, ética e princípios, o que serve para nós, pode não interessar a outros artistas e não nos cabe apregoar verdades absolutas, como sabemos, no teatro, em muitas ocasiões, elas são relativas.
             Como pedras vivas concretizamos os “Diálogos de Pedagogia Teatral”. Acreditando, que esses quatro textos que compõem uma só mensagem semeada no vento, possam contribuir de alguma forma com essa magnífica experiência humana chamada teatro, transformadora e reveladora dos homens e mulheres habitantes de todas as partes do mundo. Atividade tratada como irrelevante bobagem e perca de tempo por muitos e, indispensável, a vida de tantos. Arte que deve ser praticada com propriedade, respeito e alteridade para que possa iluminar, transcender e curar, se possível, o espírito dos seus espectadores, sem que seus oficiantes jamais se envaideçam desse ato. Lembremo-nos: o espetáculo é infinito, e a nossa existência no teatro uma breve cena, que pode ser indiferente a quem observa ou essencial para quem assiste e para os destinos da nossa arte. Assim nos ensinaram os grandes mestres que imortalizaram suas buscas alumiando nossos caminhos como quem acende uma estrela.
Agradecimentos: 
- Aos pedagogos que me reconciliaram com a pedagogia, atividade que ando há muito tempo apartado, e que esses mestres me convenceram o quanto preciso dela para ser um diretor teatral mais consequente:
·         Johan Pestalozzi, Anton Makarenco, Celestin Freinet e Paulo Freire.
- Aos Diretores-Pedagogos que me mostraram a importância do diálogo como ato de partilha entre os homens e mulheres do universo teatral. A esses mestres meu respeito cerimonial, pois me provaram que o teatro jamais será uma mentira e a importância de buscarmos a autenticidade na arte que construímos.
·         William Shakespeare, Constantin Stanislavski, Antonin Artaud, Jerzy Grotowski, Peter Brook, Etienne Decroux, Eugenio Barba, Richard Boleslavski, Eugenio Kusnet, Luis Otavio Burnier, Laurent Matallia, Paulo Machado, Leverdógil de Freitas e Chiquinho Pereira.
- Aos meus colaboradores mais próximos e não menos importantes interlocutores. Construtores dessa estrada evolutiva nos horizontes do teatro que é nosso ofício, vida e amor.
·         Arnaldo Pacovan, Caio Leon, Carlos Aguiar, David Santos, Érica Smith, Luã Jansen, Pablo Erickson e Silmara Silva.
- Ao mestre dos mestres, que reúne em si todas as potencias em grau superior. Leitura obrigatória a quem faz arte, que nos ensinou que fazemos parte do teatro perfeito de Deus.
·         Jesus Cristo.       

       Adriano Abreu
             Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes

         Fim da Estação da Seca

domingo, 28 de dezembro de 2014



2014 Um Ano Teatral de Resistência e Fragilidades

          2014 fecha suas cortinas como começou:  repleto de lacunas e perplexidades com escassas iniciativas e esperanças esparsas nos céus do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense.
           Entre as lacunas e perplexidades é impossível deixar de lembrar: o que parecia começar promissoramente, acabou tornando-se  apenas mais imbróglio; falo do espetáculo “Batalha do Jenipapo”, realizado todos os anos na cidade de Campo Maior, promovido pela nossa Fundação Estadual de Cultura, e que se artisticamente não acrescenta muita coisa a cena piauiense, pelo menos garante uma trabalho remunerado anualmente para cerca de oitenta atores, atrizes, técnicos, produtores e diretor. Após a promessa de uma melhoria nas condições de trabalho dos artistas, inclusive celeridade no pagamento de cachês, nada se concretizou. As condições de trabalho não foram adequadas e o pagamento só foi liberado depois de muitas polêmicas desnecessárias. A nossa Instituição Estadual de Cultura, até o momento, também não pagou cachês e premiações referentes as comemorações do dia do Teatro, vinte e sete de março, ou seja, os artistas envolvidos no evento estão a mais de oito meses sem ver a cor do  dinheiro, conquistado com seu suado trabalho; o dia do teatro, realizado com tanta alegria, acabou tornando-se, apenas, uma antiga novela de luta pelos merecidos cachês. A Escola Técnica de Teatro Gomes Campos passou o ano praticamente fechada, em virtude de uma reforma interminável, correndo inclusive o risco de fechar permanentemente. O SIEC (Sistema de Incentivo Estadual a Cultura) perdeu quase cinquenta por cento dos incentivos fiscais, e deixou de avaliar alguns projetos teatrais por falta de recursos disponíveis. Enfim, cabe esperar melhores dias na cultura estadual representada pela FUNDAC.
          Na Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves as coisas não foram diferentes para nossa arte: o Festival Nacional de Teatro Ana Maria Rego não aconteceu; isso é inadmissível, lamentável e injustificável. Gostaria de lembrar o não pagamento das premiações do citado “Festival” a alguns grupos nacionais desde o ano de 2012, o que levou a um tremendo desgaste do nosso mais tradicional evento teatral nacional com vários grupos e artistas brasileiros. A FCMC tentou realizar uma circulação de espetáculos locais pela capital, projeto nunca concretizado, em detrimento da burocracia ou outro motivo qualquer, pouco importa, para o teatro produzido na cidade o ano foi de tremenda perplexidade. A Lei Arimatéia Tito Filho, de fomento as atividades culturais de Teresina,  continua inerte desde de 2012, isso inclui pelo menos quatro projetos teatrais sem solução de continuidade. Como vimos, na cultura publica municipal em relação ao teatro, tivemos um ano ridiculamente decepcionante.
       No quesito esperanças esparsas podemos citar: o SESC (Serviço Social do Comércio), que manteve os seus projetos nacionais: Amazônia das Artes, Palco Giratório (com menos espetáculos nacionais circulando que no ano anterior) e o Leituras em Cena. Digno de nota foi a participação do primeiro trabalho piauiense no Projeto Palco Giratório, “Menu de Heróis”, representado por atuantes ligados ao Núcleo do Dirceu. A instituição, conhecida nacionalmente pelo amplo apoio as artes cênicas,  ainda tentou articular uma circulação estadual de trabalhos teatrais no mês de março, convidando dez espetáculos locais, depois teve que cancelar, alegando problemas operacionais, no entanto, retomou o “Projeto Pipoca e Guaraná”, voltado para o público infantil e juvenil, que não tinha sido realizado em 2013. O SESC local passa por momentos de troca de Coordenação Regional de Cultura e, em 2015, aguardamos esperançosos, uma ação mais efetiva localmente na área teatral.
        As poucas iniciativas exitosas vieram dos grupos teatrais e artistas da cena, que diante das circunstâncias difíceis, produziram o que puderam produzir: a Épica Cia de Criações, dirigida por Wanderson Lima, apostou no seu trabalho “Secante”, obtendo bons resultados, inclusive levando o espetáculo para fora do estado; Corpos e Oficinão, capitaneados pelo diretor e ator Adalmir Miranda, investiu em jovens artistas com “Assombrações” e “Palhaçada”; o Humanitas mostrou um novo trabalho, em comemoração aos 15 anos de trabalho do ator Júnior Marks, com direção de Luciano Brandão, estreando “Quando o Amor Não é Assim é Assado”; o mesmo Luciano ainda encenou e adaptou um conto de Caio Fernando Abreu, dando origem ao espetáculo “Sobre Borboletas”; Jean Pessoa e Alinnie Moura retornam as atividades  juntos, com um novo grupo denominado Cabeça de Sol, e  um novo trabalho “A Noiva e o Caubói ”. O Grupo Utopia, do incansável Chicão Borges, estreou um trabalho de rua “O Casamento de Nego Chico e Catirina”; O Proposta, liderado por Roger Ribeiro, apresentou a peça “Adorável Chip Novo”, também, apostando em novas promessas; O Grupo Harém de Teatro continuou exibindo seu espetáculo “Abrigo São Loucas” pelo estado, através  do Programa Cultura Viva, Lari Sales levou sua “Rainha do Rádio” para Vitória-ES e Vitorino Rodrigues e seus companheiros continuam trabalhando espetáculos para crianças e investem  no espetáculo manifesto “Geleia Geral”. No mês de dezembro, já encerrando o ano cênico, tivemos uma pré-estréia; “Itararé a Republica dos Desvalidos”, texto de José Afonso e direção de Arimatan Martins. Outros criadores usaram seus talentos e recursos em trabalhos comerciais, voltados em geral para o público infantil, alguns até sem assinatura do grupo ou diretor, portanto, literalmente descartáveis.
As mostras de teatro, em bairros da periferia da cidade, também, protagonizaram bons momentos para cena teresinense, acompanhamos de perto duas delas: a do Grupo COTJOC, no bairro Cidade Jardim, e a do Grupo Utopia de Teatro, realizada no bairro São João, ambas com a participação de bons trabalhos e presença de grande público. Além disso, muitas organizações teatrais continuam produzindo as famosas representações da “Paixão de Cristo”, que se esteticamente são repetíveis,  em termos de público  e mídia atraem multidões que se entretêm alegremente com elas.
         O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes continuou apresentando seus dois espetáculos: “FOGO” e “Exercício Sobre Medeia”. Consolidou seu projeto “Ciclo de Leituras Dramáticas”, com mais seis edições em 2014, sem nenhum apoio das Instituições Públicas de Cultura do Estado ou do Município. O “Ciclo” comemorou seu primeiro ano com uma grande festa na Casa de Cultura de Teresina, onde lançou o Suplemento Cultural do Coletivo, que atende pelo nome de “CIGARRA”, com nova edição prevista para janeiro de 2015. O grupo conseguiu, com imensas dificuldades financeiras, levar o espetáculo “FOGO” para o o 21º  Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga- Ceará, obviamente sem nenhuma ajuda da Gestão Cultural Pública Estadual ou Municipal, participando com excelente desempenho de público e de crítica da Mostra Nordeste, que abrange alguns dos mais significativos trabalhos teatrais da região no ano anterior. Apesar de não ser competitivo, a curadoria do evento e o juri popular, consideraram o espetáculo do Piauhy como um dos melhores do evento. Dessa forma, procuramos implementar uma visão estratégica de atuação no cenário teatral local, e agora nordestino, privilegiando produtos culturais de alta qualidade técnica, estética e conceitual, com foco principal na formação integral do atuante e suas interfaces com a arte do espetáculo. Criando e mantendo produtos teatrais diversos, além de fomentar ações que visam implementar, fundamentar e re-significar nossas “visões teórico-práticas”, como também, a de outros grupos, pesquisadores e artistas que compõem o Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, dialogando a respeito dessas “visões” através de artigos regulares no blog do grupo, Suplemento Cigarra e Colóquios de Artes Cênicas, sem nunca esquecer a importância do respeito as plateias nessa construção.
        O Teatro continua vivo no Piauí! Apesar do descaso do poder público, fracas bilheterias, inercia de boa parcela da dita Classe Teatral, ausência de formação acadêmica, tendenciosíssimo dos invejosos, falsa unidade dos artistas da cena, egoísmo, ignorância e incompreensão. Descortinamos 2015 como quem declara amor ao futuro.

Adriano Abreu
Diretor do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes
Dezembro de 2014