domingo, 30 de março de 2014

Impressões da Épica Cia. de Criação / Direção: Wander Lima sobre o Espetáculo - "FOGO"



Agora sim:
"FOGO"

Logo depois do Espetáculo "FOGO", nós da Épica Cia de Criação nos reunimos para analisar o que assistimos. Concluímos que esse espetáculo está preenchendo uma lacuna no movimento teatral piauiense. O espetáculo tem muito potencial. Ainda vai crescer muito. O Adriano é detalhista faz bons acabamentos.

A proposta corporal de "FOGO" é limitada até porque nesse momento só o Victor Sampaio tem um bom domínio corporal embora os outros participantes possuam potencial para chegarem rápido no nível corporal do Vitor Sampaio. São todos ótimos atores e atriz. No bom texto a denúncia ficou meio fragmentada. Achamos que foi de propósito. A introdução de músicas cantadas ficou bonita, mas ao nosso juízo deve ser lapidada. No mais um ótimo espetáculo. Estão no caminho certo. Palmas para o Adriano e seus ótimos atores e parabéns ao público que teve acesso a algo tão bom. Vamos continuar degustando o que merece ser degustado. É uma nova fase no teatro piauiense, isso ficou claro de mais para nós. Ficamos felizes em saber que nós pensamos muito parecido na maneira de ver o teatro em nossos espetáculos. Não há mais espaço para aqueles espetáculos apresentados no passado.

Graças a Zeus! Voltar aquilo é um retrocesso. Vamos nos alinhar a esse pensamento e trabalhar! Se possível, dialogar. Essa é a opinião coletiva de: Wanden Lima, Âmara Ribeiro, Bosco Ferreira, Vanice Oliveira, Alisson Mathews, Luana moura, Giordano Bruno, Daniela Dantas, Fernanda Rocha, atores e atrizes que compõem a Épica Cia de Criação. 

domingo, 9 de março de 2014

Teatro que Cura e Teatro que Adoece



Foto: Silmara Silva



"Nenhum mal te sucederá, nem praga alguma chegará à tua tenda."
(Salmo 91)


          Este ensaio escrevo-o, para mim, e para o grupo que pertenço (Piauhy: Estúdio das Artes). Todavia, creio que pode contribuir de forma humilde com outros artistas e comunidades de pessoas que se dedicam a arte de construir sonhos pelos palcos da vida. Para meu ser, Teatro, tornou-se tão essencial como a fé, o amor, oxigênio e proteínas.  A poética teatral me serve de linimento, sem contra indicações, para os males do nosso tempo. Infelizmente, na proporção exata que existem teatros que curam, existem os que adoecem seus espectadores e construtores.

         O velho Stanislavski, um dos santos seculares do Teatro, bradava pelas salas de ensaios e camarins: “- Não ponham seus pés sujos de lama no teatro”.  Falava porque acreditava que o processo de construção e execução de uma obra de arte teatral era(e é) tão importante quanto seu resultado. Os grandes homens e mulheres das artes cênicas na contemporaneidade já acreditam nessa verdade. Tão precioso quanto o que o público vê é o que atores(izes), diretores(as) e técnicos vivem nos meses, por vezes anos, que antecedem  a apresentação do produto cultural.

        Numa sociedade depressiva, ansiosa, hedonista, profundamente egoísta, como manter os processos de construção de espetáculos a salvo das pragas epidêmicas do nosso meio? Impossível! Os grupos, coletivos e comunidades teatrais não podem ser encarcerados em bolhas de plásticos, imunes ao contágio de um mundo visivelmente doente. Esforço individual e conjunto fazem-se necessário no sentido de combater, ou pelo menos minimizar, os efeitos destrutivos das doenças emocionais e psicossociais que, não raro, atiram no monturo grandes perspectivas artísticas.

      Vaidade desmedida, invejas internas e externas, maledicências estúpidas, estrelismo exacerbado (motivado por busca incontrolável de sucessos efêmeros), agressões gratuitas e fortuitas, são sintomas claros que “a lama” não foi retirada dos pés ao entrarmos no Teatro. Emersom explicita: “- O que você grita tão alto em meus ouvidos que eu não posso ouvir o que você está dizendo”. Muitos coletivos e artistas não se reconhecem enfermos, aí não há solução possível, com o tempo, que tudo revela, os problemas aparecerão graves e irremediáveis, a doença se instalou no processo. Provavelmente, aquele trabalho construído com tanto esforço tende a desagregação.

       Como manter a sinergia nos grupos artísticos? Devemos acreditar  que o Teatro, como instituição milenar, é muito maior e mais importante do que nós individualmente. Nomes e imagens carregadas de caráter personalista devem ser substituídos por nomes e imagens completamente identificados com aquilo que representam, a arte teatral e suas inúmeras vertentes.

       Diretores(ou encenadores) vaidosos geram grupos vaidosos, Diretores preguiçosos produzem grupos preguiçosos, líderes e grupos ingênuos sofrem com grupos obtusos. A lógica não se esvai. Mesmo em grupos onde a criação coletiva é muito presente e a liderança não explicitamente definida, urge um líder que democraticamente, mas sem passar mãos nas cabeças, controle ou expurgue os malefícios ocasionados durante a feitura do trabalho criativo em equipe. Essa figura, geralmente, é representada pelo Diretor. Ele é o referencial na grande maioria das comunidades cênicas. Portanto, apesar de sua importância não ser maior ou menor do que qualquer um dos envolvidos no processo deve ser ele o principal responsável pela saúde dos coletivos de criação.

         Felizmente, mesmo em comunidades cênicas eivadas de pragas teatrais, é possível a criação de espetáculos de cura. Este continua sendo ainda um grande paradoxo e mais um milagre das artes cênicas.

         Por espetáculos de cura compreendo aquele que indo de encontro à subjetividade do espectador consegue construir a possibilidade de reencontro com caminhos existenciais mais frutificadores. Trabalhos que fazem com que seu público (re)pense seus destinos ou, simplesmente, o faça sentir-se parte integrante da grande irmandade dos seres humanos, são espetáculos curativos.

        Produtos culturais doentios no Teatro são facilmente identificáveis. O espectador defende-se, parte de uma posição de neutralidade para o escárnio barato ou vulgar com os que encenam a peça (Deus meu, quantas vezes me surpreendo chamando o trabalho dos colegas de porcaria, quanta falta de visão). Após apresentação de um espetáculo que adoece, a assistência traz na alma germes da desesperança, futilidade e até uma certa dose de perversidade.

        Homens e mulheres de Teatro não há possibilidade real de amarmos coisas elevadas na nossa arte e ao mesmo tempo fazer concessões a estultices(assim na arte como na vida. Tudo é vida). Porém, é sempre bom lembrar que todos têm o direito de serem ouvidos, isso é ser profunda e belamente humano. Nossa arte deve (re)transformar-se em elemento de cura social e individual como foi na sua gênese.

        Deixemos o Teatro que adoece, no processo e no produto, para os profundamente nugazes ou para os que por opção ou ignorância preferem as sombras da arte. Busquemos a cura.



Adriano Abreu
Final da estação das águas.

   

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O Espectador e a Construção da Obra de Arte

Foto: Silmara Silva

        Se o trabalho do ator(iz) é a minha bússola o espectador me serve como farol. Quando o encenador escolhe os "materiais" que utilizará no processo criativo não deve perder de vista a quem se destina o seu produto cultural. Aparentemente essa afirmação pode parecer óbvia, mas o encenador, técnicos e fundamentalmente atores(izes) estão imersos na feitura da obra, não raro, se esquecem que são apenas ferramentas, matéria prima e manufatura do espetáculo. A platéia é que fará com que o trabalho permaneça no espaço e, às vezes, no tempo.
        Os coletivos artísticos podem concretizar construções que ampliem o universo cultural, cognitivo, valorativo e espiritual do seu público, elevando as perspectivas da vida dessas pessoas lhes proporcionando, além de entretenimento, emoção estética e, por vezes, se a obra for autêntica, até momentos de fruição da alma. Porém, podemos realizar trabalhos que não contribuam com a evolução cultural do espectador e, muitas vezes, até chegam a estagná-la.  
        A escolha da matéria prima é importantíssima na fabricação da obra de arte. Impossível conseguir a cor grená se decido trabalhar com um lápis grafite. É muito improvável manter meu terno branco limpo em um chiqueiro de porcos. Como criar uma impressão de suavidade se o que manipulo é grosseiro?
       Após a escolha dos ingredientes faz-se, o alimento. A minha experiência convenceu-me, que se conhecermos o "sabor das substâncias" que escolhemos para a feitura do trabalho artístico, fica mais simples a sua manipulação. Denominamos esse processo de pesquisa. Essa fase, essencialmente coletiva no trabalho teatral, deve ser feita em processo de laboratório (com todo cuidado e rigor que o termo sugere), na contemporaneidade essa prática não é só salutar é indispensável.
      Existe uma máxima que diz: “Dois tipos de espetáculos são imprestáveis: aqueles onde entendemos tudo e aqueles onde não entendemos nada”. A busca de equilíbrio entre os diversos aspectos que compõe a encenação devem definir aquilo que desejamos (re)passar. Duas coisas o espectador abomina: Uma é ser considerado um tolo e a outra é sentir-se tolo. Simultaneamente o espetáculo (isso vale para qualquer gênero artístico) deve oferecer a sua assistência o "enigma do mar revolto" e referenciais seguros no horizonte da obra.  Se o espectador é meu farol o meu trabalho cênico é navio para ele.
       Nessa maneira de pensar arte, ousadia e humildade, andam juntas em relação amorosa. Os frutos dessa ação dialógica, entre artistas e público, será o fortalecimento de um elã metafísico. Pois se existem verdades na arte (e existem por mais que tentem negar os filhos do relativismo) revelam-se, translucidamente na presença dos que a apreciam. Quem ignora esse princípio, por irredutibilidade conceitual ou por simples ignorância, age às cegas. A platéia é um fato concreto mesmo tendo seu gosto adulterado por séculos de dominação de uma arte inautêntica, sempre reagiu à autenticidade. Espectadores têm fome como filhos órfãos que esperam pacientemente adoção mesmo temporária, licenciosa ou fluida. Afinal, a platéia nunca foi escrava de ninguém quem pensa ao contrário está fadado ao fracasso. Cabe aos artistas, no tempo da vivência, alimentá-los, educá-los procurando nunca ser tiranizados por seu público (se isso acontece é o fim do artista e da arte) e, com muito cuidado, amá-los.  

Adriano Abreu
Diretor do Piauhy Estúdio das Artes

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Impressões do Professor de Teatro Edinho do Monte sobre o Espetáculo "FOGO"



Trabalho de bom gosto. Elenco afinado e presença forte da direção, fazem deste espetáculo, com certeza, uma busca comprometida com uma estética de qualidade visual acima da média dos trabalhos teatrais produzidos nesta capital. Com soluções cênicas objetivas, advindas de uma plasticidade que se revela à medida que a peça se desenvolve no gestual dos atores em cena e diante do público, reflexo da direção segura, Piauhy Estúdio das Artes "Fogo" rema contra a maré do mau gosto e estereótipos comprometidos com o grotesco que reinam à deriva em nossos palcos. Atores bem treinados no ofício cênico, com um texto bem colocado, tanto naquilo que se ouve quanto naquilo se vê em cena, sempre brindam o espectador com o instigante prazer de se assistir a um bom espetáculo.

Edinho Do Monte
17 de outubro de 2013 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Atiro Minha Seta no Mar Tempestuoso do Medo e Desesperança



                                                                                                                                                      

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Entrevista concedida a Adriano Lobão Aragão veiculada no Jornal Diário do Povo dias 14 e 21 de Janeiro. Reproduzida no Blog do escritor e disponibilizada para os amigos.

Entrevista com Adriano Abreu: “O teatro deve ocupar todos os espaços”

Adriano Abreu iniciou sua carreira teatral em 1992, como ator na companhia dirigida pelo ator e encenador paulista Laurent Matallia, onde participou das montagens “Boca de Ouro” (texto de Nelson Rodrigues, 1992), “Histórias de Muitos Amores” (texto de Domingos Oliveira, 1994). Com “Boca de Ouro”, ganhou indicação de melhor ator coadjuvante no Festival Nacional de Teatro de São Mateus, ES (1994). Após o retorno do diretor Laurent Matallia para São Paulo em 1995, cria, juntamente com o ator e diretor Chiquinho Pereira, a Associação de Teatro Circo Negro, onde desenvolve intensa atividade teatral até 2003, atuando, dirigindo, escrevendo e iluminando cerca de 15 espetáculos. Em 2001, cria seu próprio grupo e, em 2003, desvincula-se definitivamente do Circo Negro. Concebe e dirige nos últimos anos quatro espetáculos “Lázaro Feito em Pedaços”, “O Rouxinol e a Rosa”, “Fogo”, “Exercício Sobre Medéia”. Coordena e dirige o Projeto Ciclo de Leituras Dramáticas do Piauhy Estúdio das Artes. Foi diretor administrativo do Teatro do Boi (Teatro Municipal) e editor de teatro da Revista de Cultura Pulsar. Professor, poeta e assessor de cultura da cidade de Água Branca, PI. Atualmente, é diretor do Sated, PI, escreve regularmente artigos sobre teoria teatral no blog Piauhy Estúdio das Artes (piauiestudio.blogspot.com.br). Apresentamos aqui um breve trecho de nossa conversa sobre seu trabalho.


Como você avalia a atual situação do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense?
Vivemos um momento importante, diria, de reconstrução e definições em todos os aspectos. Acredito que durante muito tempo, aqui no Piauí, os artistas da cena acreditavam que podiam desenvolver suas atividades e criar dependendo apenas do seu talento, que, aliás, de maneira geral, é enorme. Hoje, uma parcela dos que fazem as artes cênicas no estado já compreendeu que o teatro chegou a um nível de desenvolvimento tecnológico, estético e conceitual tão grande que a pesquisa, somada a uma rotina duríssima de ensaios, bem como, uma produção qualificada, são imprescindíveis para que façamos um produto cultural competitivo no mercado brasileiro e internacional. Os que pensam ao contrário certamente ficarão na poeira da história, construindo espetáculos sempre muito ingênuos.


Quais as maiores dificuldades enfrentadas?
O processo de formação do artista de teatro, na minha opinião, é uma dificuldade que não podemos ignorar. Isso é primordial. Todos os meus esforços no Coletivo Piauhy Estúdio das Artes (grupo que dirijo) são no sentido da formação intelectual e técnica dos artistas. Outro problema reside no gosto adulterado do púbico. As pessoas ainda confundem show de humor com teatro; e as classes média e alta não consomem cultura. Para termos uma ideia, desconheço qualquer iniciativa fundamentada das escolas ou universidades na valorização dessa arte milenar. Me parece óbvio que, se pais e professores não frequentam as salas de espetáculo, por que os filhos e alunos frequentariam? Por fim, temos uma gestão cultural tremendamente amadora. O resultado é um teatro que vive ainda sob a égide do diletantismo.


Ao longo de seu trabalho, é possível perceber uma forte interligação, sobretudo entre teatro, poesia e música. Nesse sentido, poderia comentar um pouco seu processo de criação?
Exatamente! Essas marcas permanecem fortes nos meus trabalhos. Todavia, amadurecendo no ofício de dirigir espetáculos, percebi a importância de deixar-me penetrar pela visão dos atuantes, do iluminador, do músico, do cenógrafo, etc. Busco um teatro de cura, para quem faz e para quem assiste, como era nos primórdios dessa arte ritualística, o sábio da tribo explicando através dos mitos, cantos e poesias a magia da vida, para o povo da aldeia em volta de uma fogueira. Enxergo-me naquele xamã da gênese do teatro, quando ainda não era teatro. Uso a palavra, a música e o gesto como artes mágicas, estabeleço conexões com os artistas com quem trabalho que vão além da técnica; eles, por sua vez, têm obrigação de interligar-se aos espectadores, usando o espetáculo como via. Os espetáculos que criamos são mitopoéticos e, em detrimento disso, "terapêuticos" (rsrs). A música (vibração eterna) nas peças do Piauhy Estúdio das Artes, trabalha, entre outras coisas, a dimensão da memória; cure a memória e a saúde impera. Concluo com parte do fragmento "Primeiro/Ulisses" do livro "Mensagem", de Fernando Pessoa: “O mytho é o nada que é tudo. / O mesmo sol que abre os céus / É um mytho brilhante e mudo / O corpo morto de Deus, / Vivo e desnudo. / / Este, que aqui aportou, / Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo / E nos criou."


O teatro deve ocupar os espaços públicos?
O teatro deve ocupar todos os espaços, públicos e privados; todavia, o local que o teatro deve ocupar, acima de tudo, é a mente de quem assiste um bom trabalho de arte. Peças de teatro chatas, mal realizadas ou herméticas atrapalham o desenvolvimento cênico no nosso estado. Para sermos profundos e inteligentes não precisamos ser pedantes ou ingênuos. Atualmente, fiz uma opção, passageira, por apresentar espetáculos para poucas pessoas, em espaços alternativos ou salas menores, por uma questão estratégica, mas gostaria muitíssimo de ir para as ruas e praças. Infelizmente, não existe uma política que insira o teatro como produto cultural viável e os artistas ainda têm que trabalhar em outras atividades para sobreviver. O Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense vive de raras subvenções, desconhecimento e vontade de ser grande. Após 40 anos, nossa arte teatral ainda é semente.

  
Você participava da edição da Revista Pulsar. Como foi esse processo?
Fazia a editoria de teatro, juntamente com a extinta Associação de Teatro Circo Negro. Realizamos a última entrevista com o dramaturgo Gomes Campos, para mim, um dos momentos importantes da Revista Pulsar. O projeto daquele periódico era demasiadamente ousado, tão ousado que aqueles que faziam cultura no Piauí na época não se reconheceram nele. Entre outras coisas, retomávamos a discussão sobre a identidade cultural piauiense, definindo-a em cada página, através da arte gráfica do Antonio Amaral. Tudo naquela revista era extremamente pensado e discutido, até o tamanho da revista obedecia a um ritmo. Cada artigo indicava uma visão de cultura. Passamos “a limpo”, de acordo com nossa visão naquele momento histórico, toda cultura do Estado. O capitão daquela "Nau Genial" era o poeta Paulo Machado, provavelmente um dos maiores e mais comprometidos intelectuais da história do Piauí. Porém, pecamos, pois não fazíamos concessões a nada, não tínhamos visão de mercado, nossa distribuição era péssima e, depois de algum tempo, aconteceram divisões internas que culminaram, como temíamos desde o primeiro número, com uma revista desfigurada, inclusive no papel, por falta de recursos. Todavia, acredito que a Pulsar era profética e cumpriu seu papel na Cultura Brasileira, inclusive recebendo elogios do poeta Ferreira Gullar, que considerou a publicação uma das melhores coisas do Brasil naquele período.


Que tipo de concessões vocês evitavam?
Primeiro, procurávamos evitar qualquer tipo de apoio institucional, bem como de políticos comprometidos com os governos. Não aceitávamos patrocínios da indústria de bebidas ou cigarros etc. Alguns artistas que possuíam produtos culturais ligados à lógica "dominante" ou com comportamento ético questionável nunca foram veiculados na revista. Por fim, abominávamos todo tipo de arte que não representava aquilo que considerávamos importante para o desenvolvimento de uma cultura piauiense autêntica e de qualidade. Como disse, éramos, muito provavelmente, fora do eixo (rsrs), numa época em que nem se falava nisso (rsrs).


Como o Coletivo Piauhy Estúdio das Artes foi constituído?
Após a nossa saída da Associação de Teatro Circo Negro, em 2004, por divergências na condução dos trabalhos, eu e o ator Carlos Aguiar, meu parceiro no exitoso projeto “Lázaro Feito em Pedaços”, passamos quatro longuíssimos anos no ostracismo (rsrs). Nessa fase, que vai de 2004 a 2009, sobrevivi artisticamente escrevendo poemas, sempre com desejo muito presente de voltar à cena teatral. Em 2009, já não aguentando mais o meu exílio voluntário dos palcos, bem como, com a extinção do Circo Negro, estava à vontade para recomeçar. Recebi um convite da atriz Sandra Loiola para que fizéssemos um trabalho. Depois de algumas reuniões, constituímos um laboratório de pesquisas cênicas denominado “Puty Teatro Labore”. Nele, realizamos a peça “O Rouxinol e a Rosa”. Após a estreia, senti as limitações do “Puty”, principalmente no que se referia às motivações da Sandra em relação às artes cênicas, muito diferente das minhas. Mais uma vez deixei o barco nas mãos de quem quisesse remar. Falei para os demais que partiria para outra. Novamente, o Carlos me acompanhou, seguido do ator David Santos. Assim nasceu o “Piauhy Estúdio das Artes”, com um modelo operativo mais flexível do que um laboratório ou grupo de teatro, podendo futuramente incorporar outras linguagens.  Atualmente, compõem o Coletivo: três atores, duas atrizes, um músico, um iluminador,  eu (na coordenação, direção). Conjuntamente com a atriz Silmara Silva, cuido também da divulgação e produção do “Piauhy”.  Desenvolvemos três projetos, os espetáculos “Fogo” e “ Exercício Sobre Medeia”, e o “Ciclo de Leituras Dramáticas”, que vai para 7ª edição. Neste ano de 2014, desejamos implantar mais dois projetos, o suplemento cultural do Coletivo, impresso, chamado “Cigarra”, que deve sair lá para março, e os “Fóruns de Arte”, encontros onde discutiremos produtos culturais diversos com artistas e convidados. Para um Professor da PMT, lotado 40h/aulas, a tarefa é hercúlea, mas foi assim que escolhi e gosto de viver.



sábado, 4 de janeiro de 2014

Impressões do Escritor e Ator Eduardo Prazeres sobre o Solo - "Exercício Sobre Medéia" - Coletivo Piauhy Estúdio das Artes agradece! Saudações Teatrais. Avante!

Foto: Ana Cândida Carvalho




 Me senti profundamente tocado pelo que vi. Acho que Silmara canalizou muito bem a aura forte de Medeia em seu corpo, que, sendo o corpo de uma mulher jovem e de estatura relativamente pequena, de repente se agiganta no palco pela força expressiva e a beleza dos movimentos, que para mim, particularmente, é onde está sintetizada toda a teatralidade deste espetáculo. É nítida a coreografia, a exploração consciente do espaço esteticamente. O texto funciona, mas para mim, o que ele causa na atriz, que está entregue, absorta, “com a alma em carne viva”, é muito maior que o próprio texto, é a concretização da linguagem, por que causa em mim também. Por um momento senti que se eu tampasse os ouvidos, e apenas observasse atentamente o gestual de Silmara e captasse a energia emitida por seu corpo, eu seria capaz de entender cada palavra, mesmo sem ouvi-las. A organização dos movimentos dentro dessa caprichada estrutura estética foi uma grande sacada no sentido de nos remeter a uma atmosfera clássica, onde a elegância, mesmo no apogeu de uma terrível tragédia, era sempre indispensável. A força de espírito dessa mulher/anjo/demônio também é enfatizada pela qualidade dos movimentos. O fato desafiador de Silmara/Medeia sentar-se sempre de pernas abertas para a platéia é um elemento perturbador, pois há uma bela mulher de pernas abertas em minha direção, mas o poder de sua presença é tão grande que eu “tenho medo de olhá-la”. Por que não está ali uma mulher comum. Está ali a filha de Hécate, a mão capaz de assassinar aos próprios filhos. A magia, o regresso aos tempos ancestrais onde predominava o pensamento místico, isso foi caracterizado para mim, entre outras coisas, nas figuras geométricas simples, apenas linhas paralelas, formadas pelas cordas esticadas no cenário. Imediatamente associei essa imagem à TEORIA DAS CORDAS, segundo a qual o universo está dividido em dez dimensões, como dez cordas esticadas paralelamente, sendo que uma delas é a residência de Deus (o céu), e que ele, por ser Deus, consegue mover-se por todas as dez dimensões apenas vibrando as “cordas”. Enfim, tenho pouco embasamento teórico-estético, e não vou ficar aqui bancando o crítico de arte, o que definitivamente não sou. Queria apenas manifestar as minhas impressões sobre mais este belo trabalho do talentoso grupo de artistas do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, coordenado por Adriano Abreu. Meus parabéns especialmente a essa dupla, esse casal que está dando tão bons frutos ao teatro piauiense, Silmara e Adriano.