Fotos: Silmara Silva
O Coletivo Piauhy Estúdio das Artes, Teresina-PI, pesquisa e desenvolve atividades em artes cênicas com foco principal na formação integral do atuante e suas interfaces com a arte do espetáculo.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Espetáculo - "Fogo" - Livre Adaptação do Conto de Vitor Gonçalves Neto
O Piauhy Estúdio das Artes agradece a toda organização da 2ª Aldeia SESC Guajajara de Artes em Caxias - MA, pela participação no evento. Agradecimentos: Sandra Nunes e equipe do Sesc Caxias. Saudações Culturais!!!
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Um Espetáculo de Cura
Foto: Ana Cândida
Esta Oração abre um espetáculo de cura. Um espetáculo de cura pressupõe a melhoria da vida social, cultural, emocional e espiritual de quem o faz e vê, bem como, a melhoria da sociedade." FOGO" objetiva tal realidade, de forma microscópica, agimos, conscientemente na procura do salutar no teatro. Eis a insígnia do Piauhy Estúdio das Artes.
Ó Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo Salvador do Mundo, Rainha do Céu e da Terra, advogada dos pecadores, auxiliadora dos cristãos, protetora dos pobres, consoladora dos tristes, amparo dos órfãos e viúvas, alívio das almas penantes, socorro dos aflitos, desterradora das indigências, das calamidades, dos inimigos corporais e espirituais, da morte cruel dos tormentos eternos, de todo bicho e animal peçonhentos, dos maus pensamentos, dos sonhos pavorosos, das cenas terríveis e visões espantosas, do rigor do dia do juízo, das pragas, dos incêndios, desastres, bruxarias e maldições, dos malfeitores, ladrões, assaltantes e assassinos.
Minha amada mãe, eu prostrado agora aos vossos pés, com piedosíssimas lágrimas, cheio de arrependimento das minhas pesadas culpas, por vosso intermédio imploro perdão a Deus infinitamente bom. Rogai ao vosso Divino Filho Jesus, por nossas famílias, para que ele desterre de nossas vidas todos estes males, nos dê perdão de nossos pecados e nos enriqueça com sua divina graça e misericórdia.
Cobri-nos com o vosso manto maternal, ó divina estrela dos montes. Desterrai de nós todos os males e maldições. Afugentai de nós a peste e os desassossegos.
Possamos, por vosso intermédio, obter de Deus a cura de todas as doenças, encontrar as portas do Céu abertas e convosco ser felizes por toda a eternidade. Amém! (Oração à Nossa Senhora do Desterro)
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
1º Festival do Espetáculo: "FOGO" - 8º Aldeia Sesc Guajajara de Artes - Caxias/MA
Foto: Ana Cândida
Espetáculo "FOGO", se apresenta na 8º Aldeia Sesc Guajajara de Artes
Local: Centro de Cultura José Sarney
Dia: 07 de Novembro
Dia: 07 de Novembro
Horário: 19h
Aldeia Sesc Guajajara de Artes é um projeto de continuidade, integrante da Rede Sesc de Intercâmbio e Difusão das Artes Cênicas no país. No formato de “Aldeia Cultural” – concentra uma programação diversificada em linguagens artísticas e manifestações da cultura local para públicos variados. Dentre seus objetivos destaca-se a valorização da produção artística maranhense como forma de contribuir para o desenvolvimento e a transformação da sociedade. Nesse sentido, oferece além das apresentações de espetáculos e performances de artes cênicas, shows, exibições de filmes, contações de histórias, exposições, intervenções e ações formativas que ampliam o repertório dos profissionais, produtores e estudantes e comunidade em geral. Ao realizar a sua 8ª edição, o evento apresenta o tema “Multilinguagens e híbridas expressões na contemporaneidade”. O conceito pretende abordar o diálogo entre as linguagens artísticas no cenário contemporâneo, os processos de hibridização na arte, as linguagens e meios que se misturam para compor um produto artístico fragmentado, em constante transformação. A proposta do tema norteará a seleção de produções artísticas que integrarão a programação do projeto. Destacamos ainda, que o Sesc tem sido um grande promotor e mediador nessas relações de consumo cultural, atuando fortemente no fomento à formação de platéia, incentivo a produção artística cultural e nas ações formativas através de seus vários projetos ao longo dos últimos 10 anos. A Aldeia Sesc Guajajara de Artes, com seu caráter único e multifacetado, se firma e se consagra como o maior evento de arte do estado, acolhendo artistas, grupos e produções de referência no âmbito local e nacional, oportunizando vivências em arte e cultura para todos. A programação será realizada no período de 25 de outubro a 1ª de novembro em São Luís, e de 03 a 09 de novembro em Itapecuru e Caxias, agregando em sua programação os projetos nacionais e regionais: Palco Giratório, Dramaturgia - Leituras em Cena, CineSesc, Sesc Circulando Cultura, Por Trás da Cena, Mãos à Obra, Sesc Instrumental, entre outros. Ressaltando ainda, a parceria com outras atividades como o Trabalho com grupos, Mesa Brasil e Recreação.
Contatos: 3216 3860 / 3853
cultura.sescdeodoro@gmail.com
aldeiasescguajajaradeartes@gmail.com
Isoneth Almeida,Carolina Aragão,
Paula Barros, Adriane Soares, Márcia Andreia, Gizelly Alemida, Sandra Nunes
http://aldeiasescguajajaradeartes.blogspot.com.br/p/programacao.html
http://aldeiasescguajajaradeartes.blogspot.com.br/p/programacao.html
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Impressões do Ator, Radialista, Estudante de Jornalismo Maneco Nascimento sobre o Espetáculo "FOGO"
Arte e reflexão
Chuva!
por maneco nascimento
A Piauhy Estúdio das Artes abriu temporada de estreia a sua + nova investida aos palcos piauienses. A apresentação ao público da cidade deu-se nos dias 11 e 12 de outubro de 2013, às 20h, na Galeria do Clube dos Diários. A montagem de “Fogo” é baseada em obra homônima de Vítor Gonçalves Neto. A peça atrai atenção, logo de início, pelo calor que a dramaturgia apresenta já em seus elementos de cenografia e adereços e musicalidade afins.
Na fuga do palco italiano, a Cia. optou pelo mapa de arena. A cenografia aproxima o público da densidade do que será apresentado. Não há vazios de utilidades nos elementos composicionais, para ilustração a postes de luz a gás, lampiões, candeeiros (lamparinas), velas candentes em tulipas adaptadas, pela Direção de Arte (Vítor Sampaio), e um plano concentrado pelas ribaltas, de luzes ardentes, que definem um retângulo (piscina de fogo) em que se desenrola o enredo dramático, elaborado por Adriano Abreu.
Há três planos altos que quebram o baixo, no retângulo de fogo. O central, em que se dão as cenas de destaque das personagens para tortura, pira humana infligida e arte pregoeira de atiçar fogo em espetáculos à expiação pública. Nos dois extremos do retângulo, os outros planos altos auxiliares. Um que funciona como casa da personagem Lucinda, a mártir do inferno da cidade baixa em chamas e o outro como ponto de observação, ou de vida (des)protegida das personagens outras que revivem as mortes no pirancídio da década de fogo.
O espetáculo já começa aquecido por uma batida de embolada, primeira entrada da cultura popular. Os narradores da cena repercutem a variação sobre o mesmo tema e adiantam o sonho da anti-heroína que sonha em conhecer o mar. Os elementos populares vão-se assomando, para ritos religiosos, mitos e lendas ribeirinhos e revista histórica em memórias da fé profanada e recuperada, coerção e ritos de passagem à justiça cega do poder que se impõe.
Há o profeta que prega no deserto da falta de humanidade, que ali será tema de dramaticidade das vidas comezinhas, com suas naturezas simples e trágicas, desencadeadas por mistérios humanos, sob a pecha de “cura” de falhas sociais e culpas inconscientes coletivas.
As intertextualidades são imprescindíveis e endossam a crença popular e cultura do mundo circular. Lucinha, a protagonista, uma espécie de Santa Joana Darc, ao revés de ofender ao deus dos homens, ou uma Luzia Homem que sonha com o mar. Seu mar de fogo, talvez a transcenda para lugar + aprazível, longe de todas as perdas sofridas por força estranha da vilania do fogo.
A mulher popular, a puta do bairro dos Cajueiros e vizinha de Lucinda, também transversaliza com entidade afro-brasileira e se impõe para uma Pomba Gira. Entre o bem e o mal, uma mulher livre e presa ao inconsciente da paga de ser como é, ou não ser e dever o tributo consequente.
Quatro atores (re)buscam as personagens construtoras do Fogo. Vítor Sampaio, o Profeta do fim do mundo, ou beato das plagas sujeitas à redenção dos céus; a prostituta, amiga de Lucinha; o marido de Lucinda, torturado pela milícia do fogo, e o comovente representante do amor de perdição da personagem envolta nas chamas do destino. Enquanto impõe-se como o fogo, literalmente, numa variação feminino/masculino do anjo decaído do apocalipse, é de licença lúdica irrepreensível.
Carlos Aguiar e David Santos são pregoeiros da vida e da morte na tragédia anunciada, numa concentração composicional reta. Como soldados da morte, ou populares da vida consequente, nada parece destoar deles ao conjunto. Algozes e vítimas da própria história, em memória revisitada, as personagens que defendem estão definidas para o crime premeditado pela ciência da dramaturgia apresentada.
Érica Smith é Lucinha, a mãe, mulher, lavadeira da beira do cais, sonhadora e dona da coragem de viver e morrer pela defesa da vida, que não parece compreender por que assim se dá. A catarse purga-a das culpas desconhecidas, impostas pela justiça dos deuses de barro. Sua Lucinha é metaforizada como vítima da caça às bruxas pela santa inquisição, invenção humana para discurso divino. Érica se garante e Lucinha se estabelece muito bem.
O elenco enxuto e muito presente, a seu turno e particularidade de cada intérprete, enxuga o pranto enquanto queima, à reinvenção da crônica social reproduzida por Vítor G. Neto e na licença poética que caracteriza teatro de ótima qualidade. Os figurinos, assim como todos os emblemas e signos assinalados na Direção de Arte, nunca ofendem a proposta. Tecidos de algodão cru ganham forma que vestem e despem as personagens, numa estética rica de detalhes e praticidade de contar o drama.
A sonoplastia e enredos musicais direcionados por Arnaldo Pacovan cosem as pontas já, detidamente, encaminhadas a alinhavo sonoro em compleição das falas sociais de drama prospectado. A iluminação de Pablo Erickson afina conceito e plasticidade que inflamam resultado técnico operacional e desenho inteligente ao estético solicitado. Completam a reserva técnica, os trabalhos de of (ao vivo) de Silmara Silva que apresenta uma Ladainha da Mãe às agruras e sorte, e a maquiagem que também leva sua assinatura.
Dos riscos simbólicos aplicados, de dramaturgia ateada que Adriano Abreu assinala em adaptação livre, estão a negação dos santos do inventário popular, Santa Luzia que dá luz e calor aos olhos; São José, padroeiro do sertão e milagreiro às chuvas que amainam o fogo na terra seca; São Jorge (de Ogun) que defende o povo dos dragões da maldade e São Francisco (das Chagas, do Canindé) de Assis, o grande pai do sertão. As gentes negam seus santos para requerer qualquer solução que quebre o paradigma da injustiça que os céus não resolvem.
"Fogo", a peça, se espelha em conto que retrata período obscuro da higienização de Teresina, em nome do bellepoquismo que instaurava novidade no país e ressoava em mudanças e progresso que se impunham para afastar o que enfeava o centro da cidade. Nos anos quarenta do século XX, a cidade testemunhou dias infamantes e inflamantes das vidas simples de bairros da capital.
Quando as suspeitas recaíram sobre (des)mandos do próprio governo da época, a polícia resolveu endurecer para coibir curiosidades e interesse popular. Era proibido se usar a palavra fogo, especialmente em dias ardentes. Como o homem se adapta ao meio, a população adotou a metáfora “Chuva!” para designar alarme e proteção contra o fogo ateado às casas de palha. A população alertava os seus e desdobrava a violência oficializada da polícia.
“Fogo”, numa adaptação livre de conto homônimo de Vítor Gonçalves Neto, reverbera a obra, o autor, a memória social e a história local, e o adaptador e a dramaturgia consignada por Adriano Abreu. É obra ardente. Renasce das cinzas dos anos quarenta e aplica crítica social, enquanto licencia arte e cultura de palco ao histórico da dramaturgia nacional. Chuva!
Impressões do Ator e Escritor Eduardo Prazeres sobre o espetáculo: "FOGO"
FOGO
(poético e impactante)
Ainda vou levar algum tempo para digerir as imagens contundentes e de múltiplas significações deste belo espetáculo. Tomando como plano de fundo um momento histórico que marcou profundamente a alma de nosso povo (os incêndios em Teresina, na década de 1940, que revelaram várias facetas até então ocultas da nossa história urbana), a peça transcende as questões locais e expande seus questionamentos e reflexões para um contexto muito maior, de abrangência humana universal. A tragédia do homem desvalido que clama pela pobre esposa, vítima da miséria e dos incêndios: "Alguém aí pode fazer alguma coisa por ela? Alguém?!..." é a tragédia do desamparo humano diante da incerteza do amanhã e da morte certa e inexorável, não importando a classe socioeconômica a que se pertença. A analogia entre o fogo sobre os casebres, de efeito local, e o fogo apocalíptico, de efeito universal, é outro elemento que confere universalidade ao espetáculo. A presença da musicalidade negra enquanto se dizem as rezas e ladainhas do culto católico fala do sincretismo religioso tão presente em nossa terra. O diálogo entre religiosidade e luxúria, prostituição, expõe as necessidades e carências interiores e fisiológicas do homem que, embora temente a Deus, quer uma compensação imediata por toda a sua dor e precariedade de vida. Enfim, são muitas as impressões colhidas neste competente e bem elaborado trabalho, e pouco tempo para organizar essas impressões e expressá-las aqui. Deixo os meus sinceros parabéns ao diretor, aos atores, e a toda a equipe envolvida nesta produção. Um destaque também merecido é para o projeto de luz, que ficou magnífico. Parabéns! E que este espetáculo tenha a sua merecida repercussão e possa levar aos palcos do Brasil o FOGO da nossa arte!!!
Impressões do Ator, Diretor, Poeta e Produtor Cultural Vitorino Rodrigues sobre o espetáculo: "FOGO"
Insânia
As casas lampejam a fúria
Ardem todas as horas da agonia
Espalham-se gemidos sussurros e gritos
E paira estátua nuvem densa sobre a cidade
A dança rodopia o ritual da chuva
E a língua ardente degusta a inocência
Crepitam vidas mártires do abandono
Carbonizam vivos sonhos estancados
A prece apressa a dor e fulmina o âmago
Lâmina febril desvairada in seco
Acesa fagulha que consome o credo
Berra a insânia de não ter caminho
Espetáculo: "FOGO" - Conto de Vitor Gonçalves Neto
Foto: Ana Candida
“Fogo”, espetáculo teatral do Coletivo Piauhy Estúdio das
Artes, retrata os incêndios criminosos nas habitações de palha da cidade de Teresina
na década de 40, sob a ótica da personagem Lucinha (Érica Smith) e dos
narradores – personagens (Carlos Aguiar, David Santos e Vitor Sampaio) que
relatam a luta pela sobrevivência em uma cidade devastada pelo fogo e pela
opressão. O espetáculo é uma livre adaptação do conto homônimo de Vitor
Gonçalves Neto. Construção dramatúrgica do diretor Adriano Abreu, que procurou
universalizar á temática através de pesquisas e investigações cênicas que
consumiram três anos para concretização do trabalho. O resultado é um produto
cultural de qualidade estética, conceitual, social e emocional que
resgata de forma contundente essa fase da história de Teresina e a
importância mítica do fogo.
Classificação etária: 14 anos
Duração: 60 minutos
Ficha técnica:
Livre Adaptação, Concepção e Direção Geral – Adriano Abreu.
Direção de Arte (cenário, figurino e programação visual) –
Vitor Sampaio.
Ambientação Sonora – Arnaldo Pacovan.
Iluminação – Pablo Gomes.
Off e Maquiagem:
Silmara Silva
Fotos: Ana Cândida.
Vídeo: Francisvaldo Sousa
Intérpretes: Carlos Aguiar, David Santos, Érica Smith, Vitor
Sampaio.
Música Tema: Tá chuvendo Sol (Severo e Cultura Casca Verde).
Projeto Contemplado pela Lei de Incentivo a Cultura
Arimatéia Tito Filho.
Produção e Realização: Piauhy Estúdio das Artes.
domingo, 25 de agosto de 2013
Teatro
Não É Questão de Gosto!
(Esterilidades, imprecisões e
superficialidades)
Assisti o espetáculo “Mãe In Loco” do grupo amazonense “Cacos
de Teatro”, segundo o coletivo um trabalho teatral livremente
inspirado na obra “Mãe Coragem e Seus Filhos” escrita em 1939 pelo teatrólogo,
dramaturgo e diretor alemão Berthold Friedrich Brecht. Para
inicio de conversa, considero o produto cultural em questão, um trabalho ligado
a uma vertente das artes cênicas denominada “Performance Art”. A diversidade
das manifestações cênicas na contemporaneidade justifica a colocação de “Mãe In
Loco” pelo importante projeto Sesc Amazônia das Artes na categoria teatro. As
coisas são o que são independentemente dos rótulos que possuem. Porém, esse não
é o único foco deste artigo.
O
problema foram as discussões travadas entre membros do “Cacos de Teatro” e
espectadores, no que deveria ser, apenas um bate papo, ao final da
apresentação. Diálogos eivados por uma atmosfera estéril, recheada de
superficialidades, equívocos e imprecisões de parte a parte. Vamos aos fatos e
possíveis elucidações:
O diretor do trabalho e um ator participante esclareceram que o apresentado
ilustra a pesquisa do grupo, onde os membros revezam-se na direção de solos dos
outros membros, onde o foco das investigações do coletivo seria o comportamento
do atuante em situações de risco, bem como, as relações cênicas
estabelecidas com o espaço, no caso uma piscina de lona plástica azul com
quatrocentos quilos de gelo triturado (representando a inóspita Antártida). O
mote para as ações seria o texto mencionado de Brecht. Até então tudo
aceitável.
Abrindo
a fase de questionamentos e observações o primeiro interlocutor perguntou sobre
a intertextualidade do espetáculo, com a peça do organizador do Berliner
Ensemble. Então, começaram as imprecisões. O diretor relatou brevemente o
roteiro do texto “Mãe Coragem e Seus Filhos” e afirmou que o segundo
intérprete em cena era o responsável pelo efeito de “distanciamento” e que o
épico estava nas ações da atuante. Declarou que o espetáculo já tinha realizado
incursões pelo exterior, modificando-se ou não, ao sabor das impressões e
sensações do público, a quem o grupo sempre ouvia de bom grado.
Definitivamente,
com todo respeito aos colegas do “Cacos”, o segundo atuante em nenhum momento
sinalizou o “distanciamento” citado. “Distanciamento” ou “estranhamento”
(verfremdusgseffect) como Brecht definiu é: “... uma técnica que
permite retratar acontecimentos humanos e sociais, de maneira a serem
considerados insólitos, necessitando de explicação, e não tidos como gratuitos ou
meramente naturais. A finalidade deste efeito é fornecer ao espectador, situado
de um ponto de vista social, a possibilidade de uma
crítica construtiva.”(ver Teatro Dialético) . No contexto do
espetáculo não foi possível identificar tal efeito. Nas obras cênicas com as
características da apresentada não caberiam os termos “distanciamento” ou
“teatro épico”. A intertextualidade residiu apenas no leitmotiv do espetáculo.
A
partir desse momento do “bate papo”, tomando emprestado uma expressão Stanislaw
Ponte Preta (Sérgio Porto), o FEBEAPÁ (Festival de Besteira que Assola o País) instalou-se no belíssimo Teatro do
Boi. Um espectador, atabalhoadamente, vociferou uma
série de críticas ao produto cultural apresentado e resumiu seu
descontentamento com um sonoro: “- Não Gostei!” O coletivo que
acabara de afirmar que escutava a platéia com real interesse e
serenidade, revelou-se descontente com o comentário, reagindo com indisfarçável
indignação e o típico sorrisinho defensivo e ranhento, lido nas entrelinhas,
como o salmo dos artistas incompreendidos: “-Hó meu Deus perdoai! Ele
não sabe o que diz...”
Um
cidadão partiu para defesa do grupo, relatou que tinha feito um
exercício de Viola Spolim, trabalhando a relação com o espaço cênico, concluía: “
Teatro não é mesmo para as pessoas gostarem; é para provocar.” O
coletivo adorou a defesa extemporânea do rapaz. Outro espectador procurou
contemporizar os ânimos, parabenizou o “Cacos de Teatro”, disse compreender os
prós e contras. Considerava o trabalho uma “coisa híbrida”, todavia,
entendia as razões do sujeito que não gostou , por que o trabalho não “possuía
emoção”. Declarou sua percepção de “alguma coisa de teatro físico”, elogiou
a atuação da atriz que “criou uma mãe do seu íntimo, ora jovem, ora
velha”. O descontente continuou irascível: “- Não
gostei, não me convenceu”, e outros comentários dispensáveis de
relato. O interlocutor que buscou harmonizar partes partiu com
microfone em punho para o proscênio na tentativa vã de explicar o inexplicável
para o reclamante. Finalmente, tudo acabou como começou, uma
tremenda gelada.
Poderíamos
acabar por aqui, todavia, tentaremos alavancar algumas questões relevantes. Nas
artes como na vida aprendemos sempre, nas luzes, mas também, nas sombras:
1. As
manifestações para teatrais (happenings, performances, work-in-progress e
demais estrangeirismos das cênicas) despontaram, principalmente, na Europa
e nos EUA pós segunda guerra. Atualmente essas manifestações
encontram-se em um certo declínio nesses lugares, dando lugar a outras visões.
Porém, florescem nos países ditos em desenvolvimento, são “vendidas”
aos incautos como “ultra-pós-contemporâneas”, o antigo é vendido como novidade
à multidões de artistas prontos a embarcar em qualquer nau de bobagens a busca
dos cantos de sereias das falsas novidades desde que possuam o brasão do
pomposo nome CONTEMPORÂNEO. Para tais representações cênicas o que valeria,
segundo seus defensores, seria um estado de fruição, ou seja, não faz-se
necessário a compreensão literal, objetiva, crítica, ou mesmo o encantamento
estético pelo espectador, mas sim o deixar-se atravessar pela subjetividade do
proposto pelos artistas. A premissa seria o sentir (como se fosse possível não
sentir), esse é o caso dessas “modalidades” cênicas, esse é o caso de “Mãe In
Loco”. Aparentemente nem o coletivo “Cacos de Teatro” nem o público presente
encararam desta forma.
2. Improvável
estabelecer qualquer relação possível entre as perspectivas da sistematizadora dos Jogos Teatrais (Viola Spolin) que são exercícios de improvisação
para atores (geralmente usados para iniciantes) e o trabalho
apresentado. Mais difícil ainda é compreender o paralelo traçado pelo
interlocutor e a afirmação: “ Teatro não é mesmo para as
pessoas gostarem; é para provocar.” Não pretendo sair da eterna
posição de aprendiz, onde estou por opção, mas permita lhe dizer, com
franqueza afetuosa, meu entusiasta artista, sua colocação é ingênua, anacrônica
e necessita de reestruturação. Sem pretensão de impor-lhe nenhum paradigma ,
gostaria de lhe propor a seguinte reflexão (caso leia algum dia este modesto
texto). Concordo, não devemos “paparicar” o espectador com belas mentiras,
nosso compromisso é com a verdade. Mas ninguém (de posse de suas faculdades
mentais) sai de casa e dirige-se a uma sala de espetáculos para ser
“provocado”, ou pior, para detestar uma apresentação. Manfred Wekwerth (também diretor do Berliner Ensemble) afirma,
e eu sou obrigado a concordar, “... a verdade no palco só será verdade
se aparecer aliada a sua irmã a beleza.” Creia meu caro, reside
no público a esperança no alumbramento, mesmo no horror. O espectador é parte
da cerimônia do espetáculo, tem direito a um produto cultural acabado, e
jamais, deve ser ignorado, vilipendiado com arrogância e estupidez pelo artista
cultuador de um mundo doente. Relembrando Brecht (Pequeno Organom Para o
Teatro): “É preciso lembrar mais uma vez que a tarefa do ator é
divertir os filhos da era científica, os espectadores, com sentimento e
alegria. Precisamos repetir isso frequentemente para nós mesmos[...] Nada do
que fazemos representa um esforço a alegria e para justificarmos os nossos atos
não invocamos o prazer que tivemos, mas sim, o suor que nos custou.”
3. As
colocações do cidadão que afirmou que “Mãe In Loco” era uma “coisa
híbrida(difícil imaginar tal coisa)” , estão maculadas pela
imprecisão, equívoco e contradição. Com a designação “híbrida” o
espectador, talvez, quis frisar o caráter performático da proposta, junção de
elementos inusitados na execução do trabalho (piscina de gelo, barulho de
xícaras, atmosfera e interpretações surreais), ainda assim a infeliz assertiva,
não explicaria a obra. As cênicas (teatro, dança, circo, performance, etc) não
são manifestações “puras” e já utilizam linguagens de outras manifestações
correntemente. Dizer que tal manifestação cênica é “híbrida”
tornar-se redundante e carece de aprofundamento.
A “experiência” sensorial da atuante com o gelo não
possui referência alguma com o “teatro físico”, apesar desse
conceito ter diferentes interpretações, contudo: “A definição
mais comum, onde todos concordam, é de um trabalho que coloca a fisicalidade do
artista cênico em primeiro plano no resultado estético final de uma
performance. (Victor de Seixas, Revista on line Mimus de Mímica e Teatro
Físico).” O que não foi notado em “Mãe In Loco”. Por fim, a afirmação
do espectador que o espetáculo não trabalhava a emoção e sua
posterior afirmação de que a atuante “criou uma mãe do seu
íntimo, ora jovem, ora velha” é, no mínimo, contraditória.
Necessário
e urgente repensar o “Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense” diferentemente
das bases grosseiras do “gostei ou não gostei”, satisfiz ou não minha
subjetividade e crenças estéticas: “Todos os juízos de gostos são
singulares”. (Kant), tão pouco sobre os alicerces da imprecisão, falta
de fundamentação e “achismos”, comuns no percurso da curta formação
da nossa arte. Igualmente nociva uma visão academicista, vazia e ideofrênica
não ainda em voga no Piauí, mas comum em outros centros. Fundamental
lembrar a advertência do pensador George Lukács: “Uma arte que
seja por definição sem eco incompreensível para os outros – uma arte que
tenha caráter de puro monólogo – só seria possível num asilo de loucos[...] A
necessidade de repercussão, tanto do ponto de vista da forma, quanto do
conteúdo, é a característica inseparável, o traço essencial de toda obra de
arte autêntica em todos os tempos”. Por citar o essencial, apesar dos
“gostares”, essencialidade pura, para nós gente de teatro, e o que não existiu
naquele 18 de agosto no Teatro do Boi, foi um pouco de sabedoria e um pouco de
bom senso.
Adriano Abreu
Diretor do Piauhy Estúdio das Artes
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Por Que Faço Teatro? A Importância do Teatro Que Faço?
Por Que Faço Teatro? A Importância do
Teatro Que Faço?
“Confia ao Senhor as tuas obras,
e os teus desígnios estão estabelecidos”
Provérbios 16; 3
Fui desafiado por meu
filho a escrever sobre essas duas questões, não duelo mais, paradoxalmente
jamais me furto aos desafios.
O teatro que faço é revolucionário, eu
preciso dessa trincheira para não perecer como revolucionário que sou. A cidade
necessita de guerreiros, a apatia tomou conta das calçadas, os gabinetes estão
infestados de baratas e cupins. Sou poeta, a cena foi à forma escolhida para
materializar a poesia que habita em mim. Essa arte, na sacada da minha vida,
como um pássaro, fez seu ninho, protegeu-me dos temporais que arrastaram muitos
dos meus irmãos para os córregos de uma vida sem sentido.
O teatro que faço é cheio de
força, inteligência, sensualidade, uma onda assoprada por vendavais de
imaginação, disciplina e amor. Invade a nossa aldeia para quem se habilitar a
enxergar alguns homens e mulheres abarrotados de vida, impregnados de uma
verdade pulsante, corações loucos de paixão, humildade e servidão a esse povo que
olha o futuro com medo e desconfiança de algo inevitável, terrível, se
aproximando não se sabe donde. Os atores e atrizes gritam: “O Piauhy venceu a
morte com o gesto e as palavras que cantamos, curem-se todos, sintam o cheiro
da esperança nos nossos suores, vejam o fogo santo nos nossos olhos, toquem
nossos espíritos sem temores, as chagas da cidade fecharão se os cidadãos resistirem
à hipocrisia dos senhores mortos.”
O teatro que faço nunca saiu de
perto dos rios que matam a sede da nossa tribo, não estava pronto, hoje as
forças sublimes do universo pretendem que eu e meus companheiros saiámos da
chapada para dançar no mundo, feito andarilhos, estamos prontos.
A importância do teatro que faço? Nenhuma e
toda a essência do mundo, hoje sei, meu amado filho e irmão, todos os
sofrimentos foram, são e serão dádivas para a plantação das dores e flores da
vida e da eternidade que construiremos juntos.
Adriano Abreu
Presidente do Piauhy estúdio das Artes
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