sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Por Que Faço Teatro? A Importância do Teatro Que Faço?




Por Que Faço Teatro? A Importância do Teatro Que Faço?

“Confia ao Senhor as tuas obras,
e os teus desígnios estão estabelecidos”
Provérbios 16; 3

                Fui desafiado por meu filho a escrever sobre essas duas questões, não duelo mais, paradoxalmente jamais me furto aos desafios.
               O teatro que faço é revolucionário, eu preciso dessa trincheira para não perecer como revolucionário que sou. A cidade necessita de guerreiros, a apatia tomou conta das calçadas, os gabinetes estão infestados de baratas e cupins. Sou poeta, a cena foi à forma escolhida para materializar a poesia que habita em mim. Essa arte, na sacada da minha vida, como um pássaro, fez seu ninho, protegeu-me dos temporais que arrastaram muitos dos meus irmãos para os córregos de uma vida sem sentido.
               O teatro que faço é cheio de força, inteligência, sensualidade, uma onda assoprada por vendavais de imaginação, disciplina e amor. Invade a nossa aldeia para quem se habilitar a enxergar alguns homens e mulheres abarrotados de vida, impregnados de uma verdade pulsante, corações loucos de paixão, humildade e servidão a esse povo que olha o futuro com medo e desconfiança de algo inevitável, terrível, se aproximando não se sabe donde. Os atores e atrizes gritam: “O Piauhy venceu a morte com o gesto e as palavras que cantamos, curem-se todos, sintam o cheiro da esperança nos nossos suores, vejam o fogo santo nos nossos olhos, toquem nossos espíritos sem temores, as chagas da cidade fecharão se os cidadãos resistirem à hipocrisia dos senhores mortos.”
                O teatro que faço nunca saiu de perto dos rios que matam a sede da nossa tribo, não estava pronto, hoje as forças sublimes do universo pretendem que eu e meus companheiros saiámos da chapada para dançar no mundo, feito andarilhos, estamos prontos.
                A importância do teatro que faço? Nenhuma e toda a essência do mundo, hoje sei, meu amado filho e irmão, todos os sofrimentos foram, são e serão dádivas para a plantação das dores e flores da vida e da eternidade que construiremos juntos.

Adriano Abreu

Presidente do Piauhy estúdio das Artes

terça-feira, 9 de julho de 2013






OFICINOCRACIA

O título em questão retirei-o de um longo artigo escrito, não entregue(ainda),  aos atores do NED (Núcleo de Estudos Dramáticos), dirigido pelo meu Brother In Arms, Chiquinho Pereira, na Escola Técnica de Teatro Gomes Campos.  Atualmente o mesmo anda mais entibiado do que na época do monástico e finado Circo Negro (somos tolos de guerrear com nossos companheiros de batalha), continue a trabalhar meu irmão.
O escrevo no intuíto de romper minha própria e aparente sisudez, portanto não estranhem, raríssimos leitores, certo ar irônico impresso nessas  linhas.
Reparo com filosófico interesse e, um desprezo ocultado há mil chaves, sete seria um risco, o obssessivo estímulo, esse indisfarçável, dos nossos atores, atrizes e aspirantes, entendam por aspirantes aqueles indivíduos que mosqueiam pelo mundo da arte sem saber muito porque fazem isso(ou será que sabem?), por essa modalidade formativa, as famigeradas oficinas teatrais que aportam vez por outra por essas plagas onde o teatro sobrevive e arqueja.

Pessoas de sabedoria inquestionável  me advertiram que erro terrível é generalizar, todavia, desconfio que os cursos teatrais de curta duração não estão servindo para muitas coisas, ou quase nada, aos herdeiros do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense. Somente tem servido, em caso extremados, ou não, para que alguns de seus participantes pratiquem um exibicionismo vulgar, fruto de vacuidade humana, provincianismo ou até mesmo carência afetivo-sexual, algumas vezes aplacadas por algum integrante oportunista ou até oficineiro mais solícito. Irmãos, se eu estiver errado perdoem-me a acidez do verbo, mais precisamos saborear algo mais marcante, sorvam um pouco dessas indizíveis expressões e que voem palavras pesadas, sobreviveremos todos no final, um pouco de sinceridade jamais tirou a vida de alguém(não tenho certeza dessa afirmação).

Oficinocracia presume, na minha pouco ou nada ouvida opinião, um lugar onde aprendemos “de um tudo” e não internalizamos o básico do básico. Um estado de coisa epidérmico e letárgico, assemelhando-se há uma zubilândia.

Pergunto eventualmente aos oficinocratas(participantes assíduos de oficinas) a respeito do que acharam das formações que vivenciaram, dos sujeitos ou coletivos que vieram para coordená-las pelo projeto tal, as vezes até ministradas por gente da tribo, a resposta é sempre a mesma: “-  Achei legal, foi ótimo, maravilhoso”. Legal, ótimo, maravilhoso presupõe o quê mesmo?

Apesar das bordoadas desferidas por esse “humilde” encenador,  em geral,  a culpa não é das oficinas, apesar da diluição e canalhice de algumas, vedem-se gatos por lebres, copiam performances de artistas do youtube copiam e apresentam como originais para os desinformados descaradamente.  Todavia, a verdade é que a total responsabilidade para tanta deturpação(e até apropriação indébita) é do participante, ou melhor, das propaladas crises uterinas dos artístas locais de sentido, valor e método.

Uma atriz, que tive oportunidade de trabalhar, ministra e assiste oficinas há anos e nunca montou uma cena sequer,  denomina-se professora de teatro. Tudo se assemelha a coisa alguma na república teatral das oficinas. Outra moça em menos de um ano tornou-se especialista em todos os matizes da arte de representar sem ter participado  de uma produção respeitável. Um sujeito afirma ter vasta experiência em determinados aspectos dramatúrgicos por ter feito alguns mini-cursos. Oficinas de Clown proliferam-se como viroses, onde ministrantes e atores, nos seus desvarios e diluição, esquecem-se que esse é um trabalho de aprofundamento espiritual, não meras caretas, plágios ou “mímicas” ridículas. Alguns oficineiros copiam vivências e conteúdos de outras oficinas sem ao menos digerí-las. A pior de todas as histórias um amigo relatou-me, ao participar de uma oficina em um núcleo artístico local, ao perguntar, aos ministrantes qual seria a atividade a se trabalhar no dia, surpreendeu-se com a resposta: “-Hoje não vamos fazer nada, só pensar”.  Pode existir real possibilidade de uma pessoa viver sem pensar? A não ser que esteja em estado de morte cerebral. É tanta licenciosidade e até insanidade que torna-se difícil não sentir naúseas.

Pouco tempo atrás participei de uma oficina de Leituras Dramáticas promovida por uma instituição nacional, fiz porque começava a desenvolver um projeto denominado "Ciclo de Leituras Dramáticas", a coincidência é mãe de coisas boas e más. Travei um conhecimento amistoso com o cidadão que ia ministrá-la e fui com a cara e a conversa dele. Para mim, que a séculos me negava a fazer parte “desses encontros pedágogicos” foi proveitoso e frustante, esclarecerei o paradoxo: proveitoso porque pude rever conceitos e conteúdos relativos ao projeto que começava a desencadear, o tempo de evoluir é sempre o presente. Frustante porque percebi a diametral distância entre o proposto nessas formações e as mentalidades de quem as frequenta. Um poeta amigo, costumava dizer que “no fundo, no fundo o rio é raso”. No meu idealismo rizível (e amoroso) pessoas rasas não deviam procurar conhecimento que não desejam ou ofertar conhecimentos que não dominam,  não há “concerto”, a curto prazo para obtusidade.

Hoje, nesse universo da arte dita contemporânea (prefiro o eterno), os processo valem tanto quanto os resultados e avaliadores de projetos adoram uma boa oficina no papel, em virtude disso e, das fracas bilheterias, vamos continuar fabricando, ministrando e participando desses encontros de formação. Todavia, vale um conselho para quem deseja fazê-las: acorde bem cedo na manhã da oficina, leia o título da proposta e, ao invés de adentrar no Facebook, como fazes por impulso inconsciente(esse sintoma de alienação está epidêmico), estude sobre o assunto referente, provavelmente existe algum livro ou artigo sobre o proposto, na cada vez menor grande rede. Formule algumas perguntas consequentes sobre a temática a ser desenvolvida na oficina, guarde-as na cabeça ou no papel, se isso for do seu interesse, caso contrário, esqueça que seus colegas estarão por lá ou qualquer outro motivo menos nobre, volte a  dormir, o teatro agradece.

Adriano Abreu
Diretor do Piauy estúdio das Artes

sábado, 1 de junho de 2013

Revolucione-Se

                                          Foto: Vitor Sampaio



             Revolucione-Se

“As pessoas mudam e revelam-se na ação”.
do amor e da dor nos tempos eternos.”

 “Exercício Sobre Medéia”



           Meu filho de 14 anos falava entre o irônico e o desapontado que eu tinha acabado com seus sonhos quando disse que nenhuma música era revolucionária a ponto de mudar o mundo. Não falei toda verdade, aliás, essa conversa entre eu e ele, motivou este artigo.
           Nenhuma arte é capaz de modificar ou criar as circunstâncias históricas que possibilitam a transformação radical da sociedade, ou seja, promover revoluções. A utopia Artaudiana de um teatro que promovesse situações francamente revolucionarias (teatro como a peste) mostrou-se sonho do paraíso perdido. O correto é que as manifestações artísticas e seus executores, os artistas, são vítimas e, paralelamente, algozes do seu tempo. Contudo, aparentemente (só aparentemente), os construtores culturais, desenvolvem tal multiplicidade de influências que, paradoxalmente, rompem fronteiras do tempo-espaço. Na minha aldeia, Teresina, Chapada dos Raios, existem coletivos e pessoas realizadores de proposições teatrais referentes aos séculos XIX, XX e XXI, concomitantemente. A perspectiva em questão pode perfeitamente estender-se as outras artes. Outro dia, apreciava um show de música pop dos anos 80, realizado por um artista que iniciou sua produção cultural nos anos 2000, com um público que acreditava, timidamente, que o show vivenciado era novo, mas não era. O artista mostrava canções possivelmente relevantes há trinta anos atrás. Hoje o que dizer?  Certas coisas não são possíveis maquiar, mesmo nas redes a-sociais. Portanto, podem conviver artes de diferentes momentos históricos numa mesma época, alguns, afirmam que essa peculiaridade é privilégio da propalada contemporaneidade, eu discordo, creio apenas em cosmo visões (ideologicamente construídas), percepções e sensos estéticos diversos habitando o mesmo momento histórico.      
             Todavia, a reflexão é outra, nossa motivação diz respeito à propriedade revolucionária da arte. Revoluções, geralmente, são realizadas por jovens “guiados” por adultos impregnados de objetivos nem sempre altruístas. Desconfio de todas as ações, mesmo na produção cultural, ditas rebeldes ou revolucionárias. Conheço um grupo, habitante da mesma província minha, que realiza trabalhos esgotados na Europa do século vinte, vendido como produção cultural absolutamente radical, questionadora com potencial de mudança, a coisa tem pegado como chiclete no cabelo, alguns já diluem a diluída proposição desse coletivo, quanta fragilidade cultural. Acredite quem quiser, não sou mais tão ingênuo, para mim, tal manifestação artística não passa de escolho com conteúdo conservador, alienante e dominador, por sua vez, não revolucionário.
             O problema do meu filho, no entanto, é real, portanto merece elucidação. Se existe revolução (mudança radical) ela sempre ocorre de dentro para fora, se houver predisposição do sujeito para mudança, através de um processo lento e progressivo, que envolve incontáveis possibilidades e reflexões embasadas nos valores individuais relacionando-se no tempo-espaço sócio-cultural. Uma canção, um espetáculo teatral, uma obra de audiovisual pode servir de “estímulo” para essa reflexão, porém, sozinha, por mais bem elaborada que seja a obra de arte, dificilmente provocará significativas transformações. O que ocorre é que por um profundo comprometimento individual alguns artistas conseguem, através de poderoso poder de divulgação e empatia (alguns dizem sucesso), estimular, e muito, determinado período e conjunto de indivíduos,  de forma estereotipada e superficial seus seguidores, daí dizer que mudaram pessoas, ou ainda, revolucionaram a sociedade seria sofisma. Quantos indivíduos que se vestem como o Raul Seixas gostariam de viver na “Sociedade Alternativa”? Será que entenderam os objetivos do artista? Quantos diretores ditos “Grotowskianos”, “Brechinianos”, “Stanislavskianos”, leram e, compreenderam seus escritos espetáculos e propostas? Creio que se tivessem compreendido não se declarariam discípulos desses mestres, até porque suas buscas pessoais são irrepetíveis, devido às condições peculiares de suas descobertas.
        O Poeta Paulo Machado afirma que a poesia “é torpedo suicida”. Acredito nesse verso, faço arte por que creio na mudança, mas aprendi: “As pessoas mudam e revelam-se na ação do amor e da dor nos tempos eternos”.


Adriano Abreu
Diretor do Piauhy Estúdio das Artes

            


            (Dedicado aos atores do Ciclo de Leituras Dramáticas 2013) 

quinta-feira, 18 de abril de 2013





Solilóquio Sobre Exterioridades

         No periódico em branco, negro e vermelho frutificam exterioridades.
         Para que a minha boca e pena não se percam, reflito.
          Calarei diante da iniguidade das instituições mortas, das pessoas que deixaram-se, alegremente, sufocar pelos arbustos da corrupção, plantanda por seus pais e padrinhos artísticos que murmuram aflitos: “Deus meu, meus filhos furtam-me a oportunidade de um ocaso na arte mais confortável”.
           Minha face permaneça, imperturbável, diante dos que bravateiam coerência (só existe uma coerência, o paradoxo)com a chibata nas mãos berram, enquanto farejam editais: “Por favor me aluguem, comprem minhas visões, sou forte, inteligente, poderoso, cidadão do mundo em ruínas, promovo uma arte que se alia com esse mundo”. Voluntária ou involuntariamente somos deuses e pobres coitados ao mesmo tempo. Quem acha-se em diferença atire a primeira pedra.
             Pernas e braços não marchem em direção ao convivio dos parvos, mas os abraço, se preciso for. Membros que  me movem esqueçam o caminho dos maledicentes, esses, distante fico, pois são de doença incurável. Divertem-se na lama de suas insignificâncias, na sua necessidade mórbida de reconhecimento. Proliferam-se como micróbios na casa da arte piauiense. Todavia, os maldosos e os obtusos apenas reproduzem seus pálidos referenciais. Vítimas de escolhas infaustas.
            Não, minhas mãos e pés não jogam mais partidas de poder, ele está morto, porque todas as mentiras foram reveladas. Quem ainda acredita nelas, perderam e perdem suas vidas nos umbrais digitais, em conversas fúteis embaladas no vácuo, mesmo nesses lugares, com pouca inteligência, podemos  ler nas entrelinhas.
           Os que sentam nas cadeiras, em geral, são crianças mal formadas,  desaprenderam a chorar nos seus  enquanto tomam conta dos seus calvários institucionais. Riem, riem a esmo, cinismos e sarcasmos revelam, vazios e desesperada culpa. Verto suor,  sangue, que reguem uma arte, que ao falar dos mais terríveis atos, seja cheia de sabedoria, encantamento, luz de esperança, contemplando toda infinita e resiliente luta dos homens e mulheres na busca da felicidade que só a justiça suprema traz.
           Espiríto mostre-me a estrada da paz relativa, prometida no primeiro dia que invadi, com minhas angústias, a sala de ensaios.
          Todo meu ser infunde no amor que arrebenta os cárceres da ilusão, onde a visão superficial que tinha da arte plantou- se como joio. Retorço-me, é bem verdade, porém, a cada dia a carrasco, retira-se uma nódua da aparência do que não sou. Na arte fui tudo, monge, cortesão e tartufo. Desci(se preciso desço) aos porões infectos e voltei  incólume,  mais humilde, lá descobri anjos. O que me falta?
         Hoje sei, cada artísta siga seu destino, cabe a mim, apenas, soprar as velas do meu barco, a coragem que exercito em me expôr nestas horas é, a mesma que sugere no próximo minuto o meu siêncio, ainda assim, tudo isso são exterioridades.

(Adriano Abreu é diretor de teatro)

segunda-feira, 8 de abril de 2013






Transcenda ou Desapareça dos Palcos

              O título pode parecer manifestação de revolta, arrogância, frustração. Talvez uma infausta, porém ingênua, pretensão de mudar os rumos do Teatro Brasileiro de Expressão Piauiense, o que seria utópico. O mestre Paulo Freire afirma:  “Só os profetas podem  ser utópicos” . Este ensaio é filho de um sentimento amoroso, comum aos amantes que nutrem enorme expectativas em relação ao ser amado. O teatro.
            Escrevo para os que sonham, trabalham noite e dia para viver na arte, da arte. Escrevinho também aos absenteístas, um dos grandes homens do teatro do Piauí lamentava com sorriso entredentes: “ - Faltaram quatro atores hoje ao ensaio”. Como é triste o desamor. Grito aos que gastaram honestamente até o último centavo e para os que corromperam a própria consciência por trocados. Clamo aos lúcidos, viajantes da imaginação criadora infinita e eternamente pura, mas também, aos que se drogaram nas sombras da arte e, assim, adentraram as salas de labor. Abraço afetuosamente os meus irmãos de luta que confrontaram-me com realidades amargas, todavia, acalento os embriagados de maledicência e falsidade que sorveram meu sangue na punhalada covarde. De mãos dadas com os que me amam e são por mim amados, sigo com olhar marejado no adeus os que pensam me odiar, sei, já que não conseguem esconder, queriam estar ao meu lado. Conclamo a todos, todos, sem exceção" TRANSCENDAM NO ATO TEATRAL OU DESAPAREÇAM DOS PALCOS."
          Horas imponderáveis chegam velozes como foices sobre nossas cabeças. Qual legado poderemos deixar para as gentes de teatro que repousam nos úteros das mães? Que memórias bordaremos  na túnica do tempo e do espaço? Por que viver  dentro da arte impregnando ar, terras férteis, mananciais d’água cristalina do teatro com horizontes precários do medo, maldade e loucura?
         Vi um espetáculo na periferia da cidade, o épico da “Paixão de Cristo”, na ingenuidade suave-rude daqueles jovens artistas, revelou-se toda essência do teatro, vontade de transcender. Por um instante a tempestade que se avolumou por traz do morro da iniquidade cessou, enxerguei uma estrela que me disse: “ - Fique mais um pouco. Ainda não é hora de ir embora”

Adriano Abreu (estação das águas)

           

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

AMOR, IMBATÍVEL AMOR



                                                 

                                                       AMOR, IMBATÍVEL AMOR

O amor é substância criadora e mantenedora do Universo, constituído por
essência divina.
É um tesouro que, quanto mais se divide, mais se multiplica, e se
enriquece à medida que se reparte.
Mais se agiganta, na razão que mais se doa. Fixa-se com mais poder,
quanto mais se irradia.
Nunca perece, porque não se entibia nem se enfraquece, desde que sua
força reside no ato mesmo de doar-se, de tornar-se vida.
Assim como o ar é indispensável para a existência orgânica, o amor é o
oxigênio para a alma, sem o qual a mesma se enfraquece e perde o sentido de
viver
É imbatível, porque sempre triunfa sobre todas as vicissitudes e ciladas.
Quando aparente — de caráter sensualista, que busca apenas o prazer
imediato — se debilita e se envenena, ou se entorpece, dando lugar à
frustração.
Quando real, estruturado e maduro — que espera, estimula, renova —
não se satura, é sempre novo e ideal, harmônico, sem altibaixos emocionais.
Une as pessoas, porque reúne as almas, identifica-as no prazer geral da
fraternidade, alimenta o corpo e dulcifica o eu profundo.
O prazer legítimo decorre do amor pleno, gerador da felicidade, enquanto o
comum é devorador de energias e de formação angustiante.
O amor atravessa diferentes fases: o infantil, que tem caráter possessivo,
o juvenil, que se expressa pela insegurança, o maduro, pacificador, que se
entrega sem reservas e faz-se plenificador.
Há um período em que se expressa como compensação, na fase
intermediária entre a insegurança e a plenificação, quando dá e recebe,
procurando liberar-se da consciência de culpa.
O estado de prazer difere daquele de plenitude, em razão de o primeiro ser
fugaz, enquanto o segundo é permanente, mesmo que sob a injunção de
relativas aflições e problemas-desafios que podem e devem ser vencidos.
Somente o amor real consegue distingui-los e os pode unir quando se
apresentem esporádicos.
A ambição, a posse, a inquietação geradora de insegurança — ciúme,
incerteza, ansiedade afetiva, cobrança de carinhos e atenções —, a
necessidade de ser amado caracterizam o estágio do amor infantil, obsessivo,
dominador, que pensa exclusivamente em si antes que no ser amado.
A confiança, suave-doce e tranqüila, a alegria natural e sem alarde, a
exteriorização do bem que se pode e se deve executar, a compaixão dinâmica,
a não-posse, não-dependência, não-exigência, são benesses do amor pleno,
pacificador, imorredouro.
Mesmo que se modifiquem os quadros existenciais, que se alterem as
manifestações da afetividade do ser amado, o amor permanece libertador,
confiante, indestrutível.
Nunca se impõe, porque é espontâneo como a própria vida e irradia-se
mimetizando, contagiando de júbilos e de paz.
Expande-se como um perfume que impregna, agradável, suavemente,
porque não é agressivo nem embriagador ou apaixonado...
O amor não se apega, não sofre a falta, mas frui sempre, porque vive no
íntimo do ser e não das gratificações que o amado oferece.
O amor deve ser sempre o ponto de partida de todas as aspirações e a
etapa final de todos os anelos humanos.
O clímax do amor se encontra naquele sentimento que Jesus ofereceu à
Humanidade e prossegue doando, na Sua condição de Amante não amado


AMOR, IMBATÍVEL AMOR
DIVALDO PEREIRA FRANCO
DITADO PELO ESPÍRITO JOANNA DE ÃNGELIS


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Quando Atuar é Um Movimento da Alma









Quando Atuar é Um Movimento da Alma

 “O palco é a verdade, é aquilo que o artista acredita sinceramente;
até a mentira notória deve tornar-se verdade no teatro para ser arte.
 Para isso o artista deve ter uma imaginação fortemente desenvolvida,
ingenuidade e confiança infantis, sensibilidade artística
 para a verdade e o verossímil na  sua alma  e no seu corpo.
Todas essas propriedades lhe ajudam a transformar uma grosseira
mentira cênica na verdade mais sutil da sua relação com a vida imaginada.”
Constantin Stanislavski (Minha vida na Arte)


        Nem eu, nem o mais hábil diretor de teatro, é capaz de ensinar o mais talentoso(a) ator(iz) a representar um papel. Essa é a consequente e mais profunda reflexão que realizo nos meus vividos anos de teatro. “As mais terríveis verdades são os nossos melhores álibis”, preconiza assim o grande Eugênio Barba, dessa máxima posso retirar lições que me libertam e, traçam indeléveis metáforas, que me levam há outro tempo, outra dimensão do significado atuar.
       Sem gloriar-me de tal privilégio (até com certo pânico), colaboro, de maneira pálida, com alguns dos melhores intérpretes do teatro da minha aldeia-nação, o Piauhy. Convivendo com essas mentalidades e espíritos ricamente complexos percebo, sem medo de errar, mas ainda longe de uma verdade confiável, que os grandes atores e atrizes movimentam suas almas, em chamas, na direção de um objetivo indecifrável, intangível.
           Deus criou homens e mulheres a sua imagem e semelhança deu, ou retirou desses seres algo enigmático, os tornando, ao mesmo tempo, vítimas e algozes do resto da humanidade, como também, de si mesmos. Atuar, viverem muitas vidas em uma só existência de forma autêntica, parece tarefa insondável para a maioria de nós outros, para eles ofício.
           Como diretor, considero-me como um tradutor de linguagens obscuras, para quem se propõe a tarefa teatral. Às vezes, ajo como anjo protetor, outras vezes, como cruel escarnecedor. Não me julguem mal, por favor, não cometam tamanha injustiça. O encenador que não protege com verdades a quem dirige é um covarde e comete o mais nefasto dos crimes para a arte dramática: a mentira.
            Alguns, desses seres, que tenho a honra de acompanhar, como quem compõe um poema inacabado, caminham a altiplanos artísticos e humanos com a tranquilidade de quem  recuperou definitivamente suas asas cortadas. Outros ainda debatem-se na dúvida de todos os santos antes de provar a definitiva comunhão com o eterno. Alguns se afundam no pântano da vaidade ilusória. Nenhuma, ou pouca responsabilidade, tenho sobre isso, eles e elas, atores e atrizes, são a arte, eu apenas um olhar. Minha função será cumprida com o que me cabe na vida da cena, olha-los e dizer: “- Acreditei ou não acreditei em vocês nessa noite.”


Para atriz Silmara Silva
                                                            (e para  todas as nobres mulheres do Teatro)